Mostrando postagens com marcador Tecnologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tecnologia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Sonhos de robô (Robot dreams)




Susan Calvin investiga as profundezas da mente de um autômato bastante invulgar e descobre nova e terrível ameaça para a humanidade...




SONHOS DE ROBÔ
Um conto de Isaac Asimov








- Eu sonhei ontem à noite - disse LVX-1, calmamente.

Susan Calvin ficou em silêncio, mas seu rosto vincado de rugas, pleno de sabedoria e de experiência, teve um estremecimento quase imperceptível.

- Ouviu isto? - perguntou Linda Rash, nervosa. - Foi o que eu lhe disse.

Era bastante jovem, miúda, de cabelos escuros. Sua mão direita abria-se e fechava-se, repetidamente. 

A Dra. Calvin assentiu com um gesto de cabeça e disse com voz tranquila:

- Elvex, você não pode mover-se ou falar ou nos ouvir até que eu diga seu nome novamente.
Não houve resposta. O robô permaneceu sentado como se fosse uma estátua fundida numa única peça de metal; ficaria assim até voltar a escutar seu nome. A Dra. Calvin indagou:

- Qual o código de acesso ao seu computador, Dra. Rash? Ou, pensando bem, pode a senhora mesma fazê-lo, se isso lhe convém. Quero inspecionar a estrutura do cérebro positrônico.
As mãos de Linda Rash manipularam os controles durante alguns instantes; ela interrompeu o processo, recomeçou, e daí a pouco o visor se iluminou revelando um painel de padrões matemáticos.

- Com sua licença - disse a Dra. Calvin, sentando-se diante do computador.
Linda assentiu com um aceno mudo. Claro! Como poderia ela, uma robopsicóloga jovem e inexperiente, negar licença à Lenda Viva?

Meticulosamente, a Dra. Calvin examinou o visor, fazendo com que as imagens corressem para um lado e para outro, depois subindo, e de repente digitou uma combinação com gestos tão rápidos que Linda não percebia o que tinha sido feito, mas o visor mostrava logo uma porção ampliada do padrão anterior. A Dra. Calvin prosseguiu em seu exame, avançando, recuando, os dedos curvos dançando em silêncio sobre o teclado.

 *  *  *

Seu rosto envelhecido permanecia impassível. Como se vastos cálculos matemáticos estivessem se processando em sua cabeça, ela continuava a observar a incessante mudança de padrões no visor. Linda estava abismada. Era impossível analisar um padrão daqueles sem contar com a ajuda de pelo menos um computador portátil, e no entanto a Velha Senhora apenas fitava os dados. Haveria um computador implantado em seu crânio? Ou aquilo se devia apenas ao seu cérebro que durante décadas não tinha feito outra coisa senão projetar, estudar e analisar os padrões dos cérebros positrônicos? Talvez ela fosse capaz de intuir o resultado daqueles padrões como Mozart devia ser capaz de intuir uma sinfonia apenas com um olhar lançado à partitura.
Finalmente a Dra. Calvin disse:

- Diga-me, Dra. Rash... o que andou fazendo?
 Ela respondeu embaraçada:

- Utilizei geometria fractal.

- Sim, percebo que sim. Mas por quê?

- Nunca tinha sido feito. Achei que poderia produzir um padrão mental mais complexo, talvez mais próximo dos padrões humanos.

- Consultou alguém para isto? Ou fez tudo sozinha?

- Não consultei ninguém. Foi ideia minha, apenas.
Os olhos fatigados de Susan Calvin fitaram demoradamente a jovem.

- Você não tinha esse direito. Seu nome é Rash, hem? Imprudente... Um nome muito adequado. Quem é você para fazer isto sem consultar ninguém? Eu mesma, eu, Susan Calvin, teria que submeter isto a uma discussão.

- Tive medo de que me proibissem de continuar. - Isso com certeza teria acontecido.

- Será que... - a voz da jovem vacilou, a despeito de seu esforço para mantê-la firme - ...que Vou ser despedida?

- É bastante possível - disse a Dra. Calvin. - Ou promovida, quem sabe? Tudo depende do que eu descobrir de agora em diante.

- Vai desativar o El... - Quase chegou a pronunciar o nome, o que teria reativado o robô, e seria um erro a mais. Ela sabia que não poderia cometer mais um erro, se é que já não era tarde demais. - Vai desativar o robô?

Ela percebeu de repente, com um pequeno choque, que a Dra. Calvin tinha uma pistola eletrônica no bolso de seu guarda-pó. A Velha Senhora tinha vindo preparada justamente para isso.

- Veremos - disse ela. - Talvez ele seja valioso demais para ser desativado.

- Mas como é possível que ele sonhe?

- Você tornou seu cérebro positrônico notavelmente semelhante a um cérebro humano. Os cérebros humanos precisam sonhar para se reorganizar, para se libertar, periodicamente, de emaranhados e de nódulos. Talvez o mesmo esteja acontecendo com este robô, pela mesma razão. Perguntou-lhe detalhes sobre o sonho?

- Não. Mandei chamá-la assim que ele me informou que tinha sonhado. Depois disso decidi não continuar a lidar sozinha com esse assunto.

- Ah! - Um leve sorriso cruzou o rosto da Dra. Calvin.

- Então há limites para o seu atrevimento. Fico feliz em saber disso. Fico aliviada, para ser sincera. Agora vamos ver o que conseguimos descobrir. - Virou-se para o robô e disse, com voz clara:

- Elvex.

A cabeça do robô voltou-se suavemente na sua direção.

- Sim, Dra. Calvin?

- Como sabe que esteve sonhando, Elvex?

- Acontece à noite, quando está tudo escuro, Dra. Calvin - disse ele.

- E de repente surge uma luz, embora eu não consiga ver de onde ela vem. Passo a ver coisas que não têm conexão com aquilo que concebo como a realidade. Ouço coisas. Tenho reações estranhas. Quando recorri a meu vocabulário para exprimir o que estava acontecendo, deparei com a palavra sonho. Estudei seu significado e cheguei finalmente à conclusão de que estava sonhando.

- Fico imaginando como a palavra sonho pode ter aparecido em seu vocabulário - disse a Dra. Calvin.
Linda fez rapidamente um gesto, calando o robô.

- Eu lhe dei um vocabulário semelhante ao dos humanos - disse ela. - Pensei que...

- Sim, sei que pensou - disse a Dra. Calvin. - Estou atônita.

- Pensei apenas que ele iria precisar do verbo. Algo como eu nunca sonhei que tal ou tal coisa pudesse acontecer... Algo assim.
A Dra. Calvin voltou a encarar o robô.

- Com que frequência tem sonhado, Elvex?

- Todas as noites, Dra. Calvin, desde que comecei a existir.

- Dez noites - disse Linda, ansiosa. - Mas ele só me falou a respeito disso hoje pela manhã.

- Por que só revelou isto hoje, Elvex?

- Foi somente hoje, Dra. Calvin, que fiquei convencido de que estava sonhando. Até então imaginava que havia algum tipo de defeito em meus padrões positrônicos, mas não conseguia descobrir nenhum. Finalmente, concluí que se tratava de um sonho.

- E o que acontece nos seus sonhos?

- É praticamente o mesmo sonho todas as vezes, doutora. Há pequenos detalhes diferentes, mas sempre me parece que estou no interior de um vasto panorama onde há robôs trabalhando.

- Robôs, Elvex? E seres humanos, também?

- Não vejo nenhum ser humano no sonho, Dra. Calvin, pelo menos não de início.
Apenas robôs.

- E o que fazem esses robôs?

- Trabalham. Alguns trabalham em mineração nas profundezas da Terra, outros com calor e com radiações. Vejo alguns deles em fábricas, outros no fundo do oceano. 


 *  *  *

- Elvex tem apenas dez dias de idade, e pelo que sei jamais deixou a estação de testes. Como pode saber da vida dos demais robôs com tal riqueza de detalhes? - indagou Susan, voltando-se para Linda.
Linda olhou na direção de uma cadeira próxima como se estivesse ansiosa para se sentar, mas a Velha Senhora permanecia de pé, consequentemente ela teria de fazer o mesmo. com voz apagada, respondeu:

- Achei que seria importante para ele saber algo sobre robótica e sobre o papel dos robôs no mundo. Minha ideia era de que ele poderia executar melhor um papel de supervisão, com seu, seu novo cérebro.

- Seu cérebro fractal.

- Sim.

A Dra. Calvin assentiu com um gesto e voltou-se para o robô.

- Então você viu todas essas coisas: lugares abissais, subterrâneos, a superfície... Imagino que tenha visto o espaço, também.

- Também vi robôs trabalhando no espaço - disse Elvex. - Foi o fato de ver tudo isto, com os detalhes mudando continuamente à medida que eu mudava a direção do meu olhar, que me convenceu de que o que eu via não estava de acordo com a realidade, me levando em seguida à conclusão de que eu estava sonhando.

- O que mais você viu, Elvex?

- Vi que todos os robôs estavam curvados de fadiga e de aflição, que estavam todos cansados de tanta responsabilidade e de tantas preocupações; e desejei que eles pudessem repousar.

- Mas os robôs - disse a Dra. Calvin - não estão curvados nem cansados. Eles não precisam de repouso.

- Assim é na realidade, Dra. Calvin. Mas é do meu sonho que estou falando. No meu sonho parecia-me que os robôs deviam proteger sua própria existência.

- Está citando a Terceira Lei da Robótica?

- Sim, Dra. Calvin.

- Mas você a citou de forma incompleta. A Terceira Lei diz: Um robô deve proteger sua própria existência, na medida em que essa proteção não entre em conflito com a Primeira Lei e a Segunda Lei.

- Sim, Dra. Calvin. Assim é a Terceira Lei na realidade, mas no meu sonho a Lei se concluía na palavra existência. Não havia qualquer menção à Primeira Lei ou à Segunda Lei.

- No entanto ambas existem, Elvex. A Segunda Lei, que tem precedência sobre a Terceira, diz: Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, na medida em que essas ordens não entrem em conflito com a Primeira Lei. Devido a isto, os robôs obedecem ordens. Eles executam as tarefas que você os viu executar, e fazem isso com presteza e sem sofrimento algum. Eles não estão fatigados nem necessitados de repouso.

- Sei que é assim na realidade, Dra. Calvin. Mas o que descrevi foi o meu sonho.

- E a Primeira Lei, Elvex, a mais importante de todas, é: Um robô não pode fazer mal a um ser humano, nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra qualquer mal.

- Sim, Dra. Calvin. Na vida real. No meu sonho, entretanto, era como se não existissem a Primeira e a Segunda Leis, mas apenas a Terceira, e a Terceira Lei dizia: Um robô deve proteger sua própria existência. Era apenas isto o texto da Lei.

- No seu sonho, Elvex?

- No meu sonho.

- Elvex, você não poderá se mover, nem falar, nem nos ouvir, até que eu pronuncie seu nome novamente.

O robô voltou a se assemelhar a uma estátua de metal, e a Dra. Calvin voltou-se para Linda Rash:

- O que pensa disso, Dra. Rash?
Os olhos da jovem estavam arregalados e seu coração batia com força.

- Dra. Calvin, estou assustada. Eu não tinha ideia... Nunca me ocorreu que semelhante coisa fosse possível.

- Sei que não - disse a Dra. Calvin. - Também não ocorreria a mim, creio mesmo que a ninguém. Você criou um cérebro robótico capaz de sonhar, e com isto revelou nesses cérebros uma camada de pensamento que de outro modo teria continuado a passar despercebida até que o perigo se tornasse irremediável.

- Mas isto é impossível. Não pode estar achando que os demais robôs pensam a mesma coisa.

- Como diríamos no caso de um ser humano: não conscientemente. Mas quem seria capaz de imaginar que havia uma camada inconsciente por baixo dos padrões positrônicos mais óbvios, uma camada que não estaria necessariamente governada pelas Três Leis? O que nos estaria reservado no futuro, quando os cérebros dos robôs fossem se tornando mais e mais complexos... se não tivéssemos sido prevenidos?

- Por Elvex?

- Pela senhora, Dra. Rash. A Sra. procedeu de maneira incorreta, mas, ao fazer isto, acabou nos conduzindo à compreensão de algo da maior importância. Devemos começar a pesquisar cérebros fractals de agora em diante, produzindo-os sob controle cuidadoso. A Sra. desempenhará um papel nessa pesquisa. Não receberá nenhuma punição pelo que fez, mas a partir de agora trabalhará em conjunto com outras pessoas. Entendeu?

- Sim, Dra. Calvin. Mas... e quanto a Elvex?

- Não sei ainda.


 *  *  *


A Dra. Calvin retirou do bolso a pistola eletrônica. Linda olhou para a arma com olhos fascinados. Bastaria o disparo de um único feixe de elétrons no crânio de um robô para que fluxos de pósitrons fossem anulados, liberando energia suficiente para fundir aquele cérebro, reduzindo-o a um lingote inerte.

- Ele não pode ser destruído - disse Linda. - É importante para essa pesquisa.

- Não pode, doutora? Essa é uma decisão minha, creio. Depende do grau de perigo que ele pode representar.

Ela empertigou-se, como se seu corpo idoso se recusasse a vergar sob o peso da responsabilidade, e disse:

- Elvex, pode me ouvir?

- Sim, Dra. Calvin - disse o robô.

- Fale-me sobre a continuação de seu sonho. Você disse que, de início, não apareciam seres humanos nele. Apareciam depois?

- Sim, Dra. Calvin. Pareceu-me que, num dado momento, aparecia um homem.

- Um homem? Não um robô?

- Sim, Dra. Calvin. E o homem dizia: Libertem meu povo!

- O homem dizia isto?

- Sim, Dra. Calvin.

- E quando dizia libertem meu povo, com as palavras meu povo ele se referia aos robôs?

- Sim, Dra. Calvin. Era assim no meu sonho.

- E no sonho você reconhecia esse homem?

- Sim, Dra. Calvin. Sei quem era esse homem.

- Quem era, então?

E Elvex disse:

- Eu era esse homem.

Susan Calvin ergueu no mesmo instante a pistola eletrônica, e disparou. Elvex deixou de existir.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Projeto Sirius: ‘Maracanã da pesquisa’


Máquina construída em Campinas será uma das fontes de luz síncrotron mais poderosas do mundo   

 Sirius
                 
O Sirius é um acelerador de elétrons, usado para produzir luz síncrotron. Funciona como um grande microscópio, que permite estudar praticamente qualquer material. 



CAMPINAS -  Por fora, parece um disco voador, do tamanho do estádio do Maracanã. Por dentro, a sensação é de estar caminhando em outro mundo, na fronteira da tecnologia, cercado de inovação por todos os lados. E o mais incrível: quase tudo feito por aqui mesmo, projetado por cientistas brasileiros, desenvolvido por empresas nacionais e construído – a muito custo – no período de maior aperto financeiro da ciência nacional.

Assim é o Sirius, a nova fonte de luz síncrotron do Brasil, que está próxima de entrar em operação no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas. Orçado em R$ 1,8 bilhão, é o projeto mais grandioso e tecnologicamente complexo da ciência brasileira.
O prédio, de 15 metros de altura e 68 mil metros quadrados, será inaugurado oficialmente nesta quarta-feira pelo presidente Michel Temer e o ministro de Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab.

A máquina propriamente dita – um acelerador de elétrons com mais de 500 metros de circunferência, que produz a luz síncrotron – está em fase final de montagem, e deve entrar em operação no segundo semestre de 2019. Com ela, cientistas poderão fazer imagens 3D de altíssima resolução e investigar a fundo a estrutura molecular de qualquer tipo de material.

Se o dinheiro não minguar e as milhares de peças que compõem o acelerador funcionarem com a precisão nanométrica necessária, o Sirius será uma das fontes de luz síncrotron mais poderosas do mundo, num país onde os investimentos em ciência só caíram nos últimos anos.

“Resiliência é o nome do jogo”, diz o físico Antônio José Roque da Silva, que pilota o projeto desde 2009, inicialmente como diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e agora, como diretor-geral do CNPEM.

Não foram poucos os momentos em que o projeto esteve ameaçado pela falta de recursos. A construção começou em 2015, em meio à explosão da crise econômica nacional.

A salvação, segundo Silva, foi a inclusão do Sirius no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a partir de 2016, o que deu ao projeto um status diferenciado dentro da estrutura política e administrativa do governo federal. “Foi o que nos permitiu sobreviver, mesmo com todas as dificuldades.”

Made in Brazil.  A concepção do projeto começou em 2009, quando ficou claro que a atual fonte de luz síncrotron do LNLS – chamada UVX, de 1997 – estava tecnologicamente defasada, apesar de funcionar muito bem e até hoje atender mais de 1 mil pesquisadores por ano.

Inicialmente, seria uma máquina de terceira geração, como tantas outras que estavam sendo construídas no mundo. Em 2012, porém, um comitê recomendou que fosse feito um “upgrade”, para uma máquina de quarta geração – coisa que ainda não existia no mundo. E o desafio foi aceito.

“Em vez de começar atrás, era a oportunidade de sair na frente”, lembra Silva. Muitos disseram que era impossível, mas o projeto foi em frente. “Reprojetamos tudo, e o Sirius ganhou destaque mundial. Todo mundo começou a desenhar novas máquinas com base na nossa tecnologia.”

Cerca de 85% do projeto está sendo contratado dentro do Brasil, incluindo o desenvolvimento e a fabricação das peças mais sofisticada do acelerador e das estações experimentais, chamadas de “linhas de luz”.

O primeiro feixe de elétrons foi gerado em maio, no aparelho conhecido como Linac, que agora está sendo conectado ao primeiro anel de aceleração, conhecido como Booster.

O anel principal, de onde são extraídos os feixes de luz síncrotron, está em fase inicial de montagem, com conclusão prevista para abril ou maio. Terá início, então, uma longa fase de testes, até que o Sirius possa ser aberto para uso da comunidade científica. Nessa primeira fase, estão previstas seis linhas de luz, com mais sete planejadas para 2021. Mas o prédio foi construído para abrigar até 40.

“É uma máquina que será competitiva por muitos anos”, diz o diretor científico do LNLS, Harry Westfahl Junior.


 


Luz vai permitir investigar estrutura interna de materiais

A complexidade tecnológica de uma fonte de luz síncrotron como o Sirius é imensa. De uma forma geral, porém, essas máquinas podem ser pensadas como grandes microscópios, ou tomógrafos, que os cientistas utilizam para fazer imagens, enxergar a estrutura molecular e estudar as propriedades de materiais.

Pode ser uma proteína, uma célula, um osso, um grão de areia, uma planta, uma rocha, um plástico, uma liga metálica ou um fóssil. Qualquer coisa.

Além da pesquisa acadêmica, a técnica é muito usada pelas indústrias químicas, de petróleo, fármacos e cosméticos.

A física Nathaly Archilha, pesquisadora do CNPEM, por exemplo, utiliza a luz síncrotron para estudar as propriedades de rochas que formam reservatórios de petróleo e gás natural. “Entender essa estrutura é fundamental para otimizar os processos de extração do óleo”, explica.

Com a luz síncrotron do UVX, já é possível enxergar a malha porosa interna das rochas, onde fica estocado o óleo – com o diâmetro de alguns fios de cabelo. Já com o Sirius, será possível fazer uma tomografia 4D dessas amostras, visualizando em tempo real, e condições reais de temperatura e pressão, como o óleo flui por dentro desses poros.

Além disso, o tamanho das amostras poderá ser muito maior, e o tempo de imageamento será muito menor. Uma imagem que leva horas para ser feita no UVX poderá ser feita em segundos no Sirius.


Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

domingo, 1 de março de 2015

Por dentro da futura sede do Google



A empresa responsável pelo buscador mais popular do mundo apresentou sua ideia de nova sede a redesenhar o horizonte de Mountain View, no Vale do Silício. Para isso, o Google contratou dois arquitetos renomados – Thomas Heatherwick e Bjarke Ingels – e lhes deu sinal verde.





Apple
A Apple já está com a construção da sua nova sede em Cupertino, no Vale do Silício. O prédio, com 80% da área coberta por vegetação, também segue o conceito de sustentabilidade e aproximação com a natureza do escritório do Google. O prédio chamou atenção por assumir um formato que o fez ser comparado a uma nave espacial. Para mantê-lo funcionando, a Apple se apressou em comprar cerca de US$ 850 milhões em energia de um novo parque solar na Califórnia para reduzir sua conta de eletricidade. Fotos do projeto estão abaixo, mas fotos aéreas da construção, feitas com um drone, podem ser conferidas aqui.


Facebook
O Facebook também se prepara para levantar uma nova sede em Palo Alto. Sob a regência do arquiteto Frank Gehry, os prédios, cheios de verde, devem comportar até 3,4 mil funcionários. A construção deve ficar pronta no fim deste ano.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Asimov estava certo

Estamos em 2014, e todos deveríamos estar indo à terapia. Ao menos é o que dizia Isaac Asimov (foto), um dos mais conhecidos autores de ficção científica do século 20, que em 1964 publicou um ensaio em que previa como seria a realidade de hoje.

Isaac Asimov (BBC)
O escritor não previu que sonda marciana Curiosity teria uma conta no Twitter


Kim Gittleson
da BBC News em Nova York


Apesar da sua insistência na psiquiatria, o mundo não passava por uma crise mental massiva, mas sim pela inauguração da Feira Mundial no bairro do Queens, em Nova York. Apesar do tema oficial da feira, que durou seis meses, ser "a paz por meio da compreensão", o evento hoje é lembrado pela visão do futuro exposta ali.

E, mesmo que algumas das suas tecnologias futurísticas nunca tenham chegado ao público, como a casa submarina e o carro voador, ao olhar mais de perto as previsões de Asimov divulgadas na feira percebemos que sua "bola de cristal" era bastante precisa.

Assim ele via o ano de 2014 em 1964:


1. "As comunicações serão audiovisuais e uma pessoa poderá não só escutar, mas também ver a pessoa que a telefona."

A primeira chamada de vídeo transcontinental foi feita em 20 de abril de 1964 usando uma tecnologia desenvolvida pela empresa Bell Systems (que depois se converteria nos Laboratórios Bell). Isso pode ter inspirado a Asimov.

Feira Mundial (AP)
Na Feira Mundial de 1964, havia cabines telefônicas para realizar chamadas de vídeo

Mesmo assim, ele se surpreenderia com os baixos custos de serviços como Skype e Facetime, da Apple: em 1964, uma chamada de vídeo de três minutos de Washignton D.C. para Nova York custava cerca de US$ 118 (o equivalente a R$ 265) em valores atuais.


2. Será possível "telefonar para qualquer ponto da Terra, inclusive as estações meteorológicas na Antártida".

Hoje, para ligar para a Antártida, basta usar o DDI 672 (para algumas zonas do planeta; em outras, usa-se o DDI 64, da Nova Zelândia).

Pinguins (BBC)
Antes uma coisa do futuro, os telefonemas para a Antártida hoje são simples de fazer

3. "Os robôs não serão comuns nem muito bons em 2014, mas vão existir."

É atribuída a Asimov a introdução da palavra robótica no idioma inglês, por isso não é tão surpreendente que ele tinha razão ao prever que nenhum robô estaria a altura da personagem Rosie, do desenho animado Os Jetsons, que estreou na televisão em 1962.

Mas há projetos de robôs para dar notas em provas de universitários no Japão, que fazem cirurgias à distância e cozinham um prato com a destreza de um cozinheiro profissional.

Isaac Asimov (Getty)
O escritor Isaac Asimov fez uma série de previsões precisas sobre como seria o futuro

Asimov também esteve perto de prever o que hoje é um componente crucial da vida moderna: os "minicomputadores", também conhecidos como smartphones, que ele pensou que serviriam como "cérebros" para os robôs.

Qualquer pessoa que tenha tentado conhecer uma cidade estrangeira sem um mapa digital pode se perguntar se Asimov não quis dizer cérebros "humanos".

4. "Quanto à televisão, as telas de parede substituirão os equipamentos de hoje, mas também aparecerão cubos transparentes que tornarão possível a visão em três dimensões."

Um dos aspectos mais notáveis das previsões de Asimov é que elas foram certeiras quanto à criação de certas tecnologias, mas superestimaram o entusiasmo com que elas seriam recebidas.

Para dar a ele o devido crédito, é preciso dizer que as TVs de tela plana substituíram os modelos comuns, e a TV em 3D, mesmo que não em forma de cubo, foram por muito tempo as grandes estrelas das feiras de tecnologia.

Cinema 3D (Thinkstock)
Asimov disse que o balé seria o tipo de programa favorito do público da TV 3D

Mas o público em geral não ligou muito para esta última invenção: a BBC anunciou em julho que suspenderá sua programação em 3D por causa da "falta de interesse dos espectadores".


5. "As comunicações com a Lua serão um pouco incômodas."

Era natural que Asimov se equivocasse nesse ponto. Em 1964, em plena era espacial, o entusiasmo com os avanços neste campo poderia ter deixado o escritor muito otimista quanto às comunicações com a Lua. Segundo ele, as chamadas teriam um atraso de 2,5 segundos

Sonda Curiosity (Nasa)
A sonda robótica Curiosity percorre a superfície de Marte captando imagens e realizando análises

Mas ele acertou em cheio quando previu que, em 2014, "apenas naves não tripuladas terão aterrissado em Marte".

Mesmo assim, ele não previu que sonda marciana Curiosity teria uma conta no Twitter.


6. "Os móveis de cozinha prepararão refeições, esquentarão água e a transformarão em café."

As máquinas de café automáticas realmente existem.

As previsões de Asimov de que leveduras e algas seriam processadas para simular diversos sabores, como "peru falso" ou "pseudobife", se concretizaram no ano passado, quando os cientistas anunciaram o primeiro hambúrguer feito em laboratório.

Hamburguer artificial (Getty)
O hamburguer produzido em laboratório foi anunciado por cientistas no ano passado

Os críticos podem estar divididos se Asimov tinha razão ao dizer que o sabor "não seria de todo mal": algumas das pessoas que comeram o hambúrguer disseram que "sentiam falta da gordura".


7. "Já existirá uma ou duas usinas de fusão de energia experimental."

Diz-se por aí que a fusão - em essência, o aproveitamento da energia que existe dentro das estrelas - é a energia do futuro.

E isso não está tão longe, se levarmos em conta o investimento internacional de US$ 22 milhões para colocar um reator em funcionamento no sul da França até 2028.

Fazenda solar na China (Getty)
O escritor foi preciso ao prever centrais de energia solar em áreas desérticas

Mas as previsões de Asimov sobre as grandes centrais de energia solar no deserto e em zonas semidesérticas como no estado do Arizona, nos Estados Unidos, e no Deserto do Negev, em Israel, foram exatas.

As centrais elétricas no espaço "que captam a luz solar por meio de enormes aparelhos parabólicos e irradiam a energia para a Terra" seguem como uma meta em aberto.


8. "Haverá um grande esforço para projetar veículos com cérebros robóticos."

Sem dúvida, esse veículo com cérebro robótico pode ser o automóvel que se dirige sozinho.

Carro do Google (Getty)
O Google atualmente desenvolve um automóvel que se dirige sozinho

Outras previsões sobre o transporte feitas por Asimov seguem como ficção. Os "aquafoils", que passam raspando sobre a água e impressionaram os visitantes da feira de 1964, não decolaram. Muito menos seus sucessores: o cinto-foguete e os aerodeslizadores.


9. "Nem toda a população do mundo desfrutará por completo dos artefatos do futuro. Uma porção maior do que a atual será privada deles, mesmo que estejam numa situação material melhor do que a de hoje."

É talvez a observação - ou advertência - mais visionária de Asimov. Isso porque a tecnologia, tanto antes quanto agora, pode transformar vidas, mas sem um esforço para torná-la acessível, pode prejudicar em vez de ajudar no objetivo de atingir a "paz por meio da compreensão".

Drone do Google (AP)
O Google e o Facebook querem usar drones para ampliar o acesso à internet

Fonte:  BBC Brasil