Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de agosto de 2024

O Menino e a Virgem

Nossa Senhora, com o Menino Jesus em seus braços, resolveu descer à Terra e visitar um mosteiro. Orgulhosos, todos os padres fizeram uma grande fila, e cada um chegava diante da Virgem para prestar sua homenagem.

Um declamou belos poemas, outro mostrou suas iluminuras para a Bíblia, um terceiro disse o nome de todos os santos. E assim por diante, monge após monge, homenageou Nossa Senhora e o Menino Jesus.

No último lugar da fila, havia um padre, o mais humilde do convento, que nunca havia aprendido os sábios textos da época. Seus pais eram pessoas simples, que trabalhavam num velho circo das redondezas, e tudo que lhe haviam ensinado era atirar bolas para cima e fazer alguns malabarismos.

Quando chegou sua vez, os outros padres quiseram encerrar as homenagens, porque o antigo malabarista não tinha nada de importante para dizer, e podia desmoralizar a imagem do convento. Entretanto, no fundo do seu coração, também ele sentia uma imensa necessidade de dar alguma coisa de si para Jesus e a Virgem.

Envergonhado, sentindo o olhar reprovador de seus irmãos, ele tirou algumas laranjas do bolso e começou a jogá-las para cima, fazendo malabarismos, que era a única coisa que sabia fazer.

Foi só neste instante que o Menino Jesus sorriu, e começou a bater palmas no colo de Nossa Senhora. E foi para ele que a Virgem estendeu os braços, deixando que segurasse um pouco o menino.


O ALQUIMISTA (Paulo Coelho)


quarta-feira, 10 de abril de 2019

A primeira impressão



Não havia nada que a professora Shari Wilson desejasse mais do que uma noite selvagem com o vizinho do andar de baixo, o jornalista Luke Lawson...


Shari Wilson queria dar um beijo no carteiro atrapalhado que entregava diariamente a correspondência no antigo edifício de um bairro de Seattle, onde ela morava. Ele havia confundido pacotes mais uma vez.
Entre as cartas endereçadas a ela, do apartamento 325, havia um envelope pardo para "L. Lawson", do apartamento 235. Agora, Shari tinha uma nova desculpa para ver o gatão do Luke Lawson. Abraçou a encomenda, como uma adolescente apaixonada.
Bem, na verdade, era uma professora apaixonada. O vizinho do andar de baixo a fazia estremecer. Devia ser aquela combinação infalível do sorriso irresistível com o corpo escultural e os olhos verdes brilhantes e langorosos que a deixavam sem fôlego.
Havia muitos meses que o carteiro confundia os números de seus apartamentos e entregava-lhe correspondência de Luke. Em todas as vezes, percebera que as cartas, sem exceção, eram endereçadas apenas a ele. Também não notou qualquer sinal de mulher nas ocasiões em que tinha ido ao apartamento dele entregar as cartas. Parecia lógico deduzir que o rapaz era solteiro.
Da mesma forma que ela.
Só de pensar em revê-lo, Shari sentiu um calorão passar pelo corpo. O destino, personificado na figura do carteiro, os havia unido repetidas vezes e a atração física fora imediata e mútua, pensou. Nas últimas vezes, Luke a recebera na porta cheio de entusiasmo e com um olhar tão sedutor e penetrante que dava a impressão de que os dois tinham acabado de fazer amor. Ah, o poder que aqueles olhos exerciam sobre uma mulher!
Então, por que, apesar dos olhares provocadores que trocavam nas rápidas e esporádicas visitas, Luke nunca tentava algo mais ousado? Ou fazia alguma tentativa para conhecê-la melhor?
Shari mordeu os lábios, ao passar direto pelo elevador e subir as escadas até o apartamento dele. Será que ele era tímido ou estava inseguro quanto aos sentimentos dela ou suspeitava que ela não fosse solteira?
Talvez fosse o momento de tomar a iniciativa e acabar com qualquer dúvida que pudesse existir. Tinha que deixar claro que estava completamente desimpedida e caidinha por ele.
A única forma de tirar aquela história a limpo seria convidando Luke para sair. Nada muito íntimo, um cineminha e depois uma pizza ou algo do gênero. Apenas um encontro sem compromisso para que se conhecessem melhor.
Ela iria até a casa dele como quem não quer nada, só para entregar o envelope extraviado. Aproveitaria e diria: "Então, estou indo comer alguma coisa na rua, quer me fazer companhia?"

 * * *
Era isso mesmo que ira fazer! Algo bem casual. Se Luke recusasse o convite, pelo menos, ela saberia onde estava pisando e acabaria de vez com as fantasias adolescentes que a consumiam fazia tempo. Bem, as fantasias, na verdade, não tinham nada de adolescentes ou inocentes.
Suspirou fundo e decidiu levar seu plano adiante. Responderia à altura as mensagens eróticas que ele lhe enviara com os olhos até agora. Iria convidá-lo para sair.
E seria naquele dia à noite.
Uma olhada de relance no espelho a lembrou de que dar aulas para um bando de alunos do ensino médio não era bem uma atividade relaxante. Não poderia ir a lugar nenhum sem antes tomar uma chuveirada.
Depois de se secar, escovou os dentes, penteou os cabelos e aplicou uma leve maquiagem no rosto. Vestiu um jeans, mas mudou de idéia. Estava cansada de só usar jeans.
Uma saia sensual e elegante saiu de dentro do armário direto para os seus braços. Adicionou uma blusa tomara-que-caia lilás ao conjunto, brincos descontraídos, sandálias rasteiras e pronto. Não queria que ele pensasse que tinha se arrumado para a ocasião. Não queria que percebesse o óbvio.
Apanhou o envelope e já estava de saída quando viu uma mancha na saia. Voltou ao banheiro. Deixou o envelope na beirada da pia e... droga! Por causa da pressa, o sabonete acabou caindo no chão. Agachada, achou o bendito sabonete e se levantou. E perdeu o ar. Ao subir, deixou o envelope pardo cair na pia, molhando parte do pacote, mas não o suficiente para danificar o conteúdo. Parecia um livro.
Era melhor ir rapidamente ao apartamento de Luke e entregar a encomenda antes que a água encharcasse a parte de dentro. Limparia a saia depois.
Apanhou as chaves, a jaqueta de couro, o embrulho afogado e desceu correndo as escadas para o andar de baixo.
Em um minuto, estava em frente à porta dele, ofegante. Respirou fundo, memorizou o convite que iria fazer e bateu na porta.
Silêncio.
Não lhe havia passado pela cabeça que Luke pudesse não estar em casa. Sabia pelas conversas breves que era jornalista. Já havia inclusive lido uma reportagem dele no jornal local. Foi apenas cogitar a possibilidade de que ele não estava para ouvir o barulho do trinco da porta se abrindo.
E então surgiu Luke Lawson, com seu olhar erótico e irresistível, como sempre. Ele era, sem dúvida, o homem mais sexy que já havia visto. Não importava quantas vezes o visse, aquela expressão facial sempre a deixava com as pernas bambas. E era o que acontecia naquele instante. O coração estava disparado, bombeando sangue para todas as zonas erógenas, possíveis e imagináveis do corpo de Shari.
Não era apenas o olhar magnético dele, insinuando intimidades que nunca haviam compartilhado, mas que poderiam, facilmente, ter. Também não era só a covinha no queixo ou o cabelo preto despenteado que a faziam se lembrar das manhãs de sábado preguiçosas. Era, concluiu, a forma tão perfeita como todos aqueles elementos se combinavam.
Os lábios dele formaram um lindo sorriso ao vê-la com o pacote na mão.
— Não vai me dizer que ele errou outra vez? — Não parecia irritado com a constatação, mas sim exultante.
Shari tentou conter o risinho ao entregar o envelope.
— Pois é, outra vez.
Ela sabia que tinha algo a dizer, mas o quê? Tudo o que havia planejado e memorizado se esfumaçara na memória. Apenas o olhava fascinada.
Luke a observou dos pés a cabeça, fazendo-a se sentir nua.
— Nossa, você está demais. Vai a algum lugar especial? Ah, era isso. Voltou a raciocinar. Ia convidá-lo para sair.
— Não, nada especial. Na verdade...
Não conseguiu ir adiante. O som de papel molhado rasgando-se, seguido de algo caindo no chão, a interrompeu.
O livro havia caído pela extremidade do envelope. A capa dura, virada para cima. O título, com letras garrafais em néon, poderia ser lido a metros de distância: Sexo para idiotas completos — um guia prático.
  * * *
 
Não podia acreditar no que viam seus olhos. Suas bochechas logo ficaram vermelhas. Não podia ser verdade. Se Luke encomendava um livro daquele gênero, então... significava que... não!
Voltou a olhar o título tentando se convencer de que, na verdade, o que havia lido tinha sido Guia para trabalhos em madeira —faça você mesmo ou Estratégias financeiras para iniciantes. Porém, as palavras permaneciam inalteradas. Era realmente um guia prático para homens que não tinham idéia do que era sexo. Pelo menos, na prática.
Que decepção! Totalmente constrangida, não sabia se pela situação ou por ele, o fato era que estava vermelha como um pimentão.
Depois de alguns minutos, que mais pareceram horas intermináveis, Shari tomou coragem e o encarou. Ele segurava o envelope, meio sem jeito, as bochechas levemente coradas.
— Me desculpa — falou em seguida. — A culpa foi minha... deixei o envelope cair na pia. Esqueci de avisar... estava lavando a louça e deixei cair... — Ai, era ela que agora falava como uma idiota completa. Pressionou os lábios para que parasse de gaguejar.
— Acho que... — Luke pigarreou encabulado. — Que se disser que encomendei esse livro para um amigo você não vai acreditar, não é?
— Mas a encomenda está no seu nome — respondeu ela, sentindo-se péssima um segundo depois de ter feito a observação.
Ele suspirou.
— É verdade.
O desconforto aumentou ainda mais entre ela, ali, de pé no corredor do edifício e Luke, parado na porta. Ela estava mesmo decepcionada. Apenas não entendia por quê, já que mal o conhecia e muito menos sabia se algum dia rolaria algo entre os dois. Bem, pelo menos, houvera até o momento uma ponta de esperança alimentada por ambos.
Será que tinha deixado a imaginação subir-lhe à cabeça? Em suas fantasias, ele era um garanhão experiente e sensual. Características improváveis para um homem que precisava de um guia sobre sexo.
Queria sair correndo dali e esquecer o incidente.
— Bem — forçou um sorriso. — Está na minha hora. — Cruzou os braços, mordeu os lábios e torceu para que tivesse soado convincente.
— Claro. Obrigado pela... encomenda.
— Imagina! — Deu um aceno tímido e se virou de imediato, rumo às escadas.
Luke ficou olhando a vizinha sexy correndo para as escadas e ficou se perguntando como teria terminado aquele dia se o livro não tivesse caído no chão, no momento mais inoportuno — e com o título virado para cima.
Balançou a cabeça, ainda desnorteado com as peripécias do destino e do serviço dos correios, e fechou a porta. Estudou o livro em sua mão, olhando o título chamativo e demasiadamente óbvio: Sexo para idiotas completos: um guia prático, por Lance Flagstaff.
— Lance, compadre, não podia ter escolhido uma hora melhor?
Ficou olhando para o envelope molhado e destruído. Se tivesse esperado alguns minutos mais para arrebentar...

* * *

Seu instinto masculino lhe dizia que teria tido um programa para a noite se Lance não tivesse resolvido aparecer de repente.
Droga! O último artigo para a revista masculina já estava pronto e, surpreendentemente, não havia nenhum trabalho por fazer. Adoraria poder dar uma saída naquela noite e a única pessoa que tinha em mente como companhia era a vizinha do andar de cima. Shari Wilson, apartamento 325 — uma recompensa que cairia como uma luva depois de uma maratona de artigos para os principais veículos da cidade.
Luke grunhiu de frustração ao se dar conta de que o encontro tão esperado com Shari não aconteceria tão cedo. Graças ao Lance.
Havia alguns lugares para ir naquela noite, mas não estava animado. Foi até a cozinha e abriu a geladeira. Apanhou uma cerveja e voltou para o sofá, a fim de folhear seu novo livro.
— Capítulo um. "A primeira impressão". — Luke deu uma risada irônica, lembrando-se da expressão no rosto de Shari ao ler o título do livro. Ele havia causado uma impressão da qual ela se lembraria para sempre. Infelizmente, não era aquilo que gostaria.que tivesse acontecido.
Por certo, não queria ser vista com um cara que precisa de uma manual para satisfazer uma garota na cama.
Por que não havia contado a verdade?
Eu escrevi o maldito livro.


 
Trecho de "Manual da conquista"
by Nancy Warren


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Sonhos de robô (Robot dreams)




Susan Calvin investiga as profundezas da mente de um autômato bastante invulgar e descobre nova e terrível ameaça para a humanidade...




SONHOS DE ROBÔ
Um conto de Isaac Asimov








- Eu sonhei ontem à noite - disse LVX-1, calmamente.

Susan Calvin ficou em silêncio, mas seu rosto vincado de rugas, pleno de sabedoria e de experiência, teve um estremecimento quase imperceptível.

- Ouviu isto? - perguntou Linda Rash, nervosa. - Foi o que eu lhe disse.

Era bastante jovem, miúda, de cabelos escuros. Sua mão direita abria-se e fechava-se, repetidamente. 

A Dra. Calvin assentiu com um gesto de cabeça e disse com voz tranquila:

- Elvex, você não pode mover-se ou falar ou nos ouvir até que eu diga seu nome novamente.
Não houve resposta. O robô permaneceu sentado como se fosse uma estátua fundida numa única peça de metal; ficaria assim até voltar a escutar seu nome. A Dra. Calvin indagou:

- Qual o código de acesso ao seu computador, Dra. Rash? Ou, pensando bem, pode a senhora mesma fazê-lo, se isso lhe convém. Quero inspecionar a estrutura do cérebro positrônico.
As mãos de Linda Rash manipularam os controles durante alguns instantes; ela interrompeu o processo, recomeçou, e daí a pouco o visor se iluminou revelando um painel de padrões matemáticos.

- Com sua licença - disse a Dra. Calvin, sentando-se diante do computador.
Linda assentiu com um aceno mudo. Claro! Como poderia ela, uma robopsicóloga jovem e inexperiente, negar licença à Lenda Viva?

Meticulosamente, a Dra. Calvin examinou o visor, fazendo com que as imagens corressem para um lado e para outro, depois subindo, e de repente digitou uma combinação com gestos tão rápidos que Linda não percebia o que tinha sido feito, mas o visor mostrava logo uma porção ampliada do padrão anterior. A Dra. Calvin prosseguiu em seu exame, avançando, recuando, os dedos curvos dançando em silêncio sobre o teclado.

 *  *  *

Seu rosto envelhecido permanecia impassível. Como se vastos cálculos matemáticos estivessem se processando em sua cabeça, ela continuava a observar a incessante mudança de padrões no visor. Linda estava abismada. Era impossível analisar um padrão daqueles sem contar com a ajuda de pelo menos um computador portátil, e no entanto a Velha Senhora apenas fitava os dados. Haveria um computador implantado em seu crânio? Ou aquilo se devia apenas ao seu cérebro que durante décadas não tinha feito outra coisa senão projetar, estudar e analisar os padrões dos cérebros positrônicos? Talvez ela fosse capaz de intuir o resultado daqueles padrões como Mozart devia ser capaz de intuir uma sinfonia apenas com um olhar lançado à partitura.
Finalmente a Dra. Calvin disse:

- Diga-me, Dra. Rash... o que andou fazendo?
 Ela respondeu embaraçada:

- Utilizei geometria fractal.

- Sim, percebo que sim. Mas por quê?

- Nunca tinha sido feito. Achei que poderia produzir um padrão mental mais complexo, talvez mais próximo dos padrões humanos.

- Consultou alguém para isto? Ou fez tudo sozinha?

- Não consultei ninguém. Foi ideia minha, apenas.
Os olhos fatigados de Susan Calvin fitaram demoradamente a jovem.

- Você não tinha esse direito. Seu nome é Rash, hem? Imprudente... Um nome muito adequado. Quem é você para fazer isto sem consultar ninguém? Eu mesma, eu, Susan Calvin, teria que submeter isto a uma discussão.

- Tive medo de que me proibissem de continuar. - Isso com certeza teria acontecido.

- Será que... - a voz da jovem vacilou, a despeito de seu esforço para mantê-la firme - ...que Vou ser despedida?

- É bastante possível - disse a Dra. Calvin. - Ou promovida, quem sabe? Tudo depende do que eu descobrir de agora em diante.

- Vai desativar o El... - Quase chegou a pronunciar o nome, o que teria reativado o robô, e seria um erro a mais. Ela sabia que não poderia cometer mais um erro, se é que já não era tarde demais. - Vai desativar o robô?

Ela percebeu de repente, com um pequeno choque, que a Dra. Calvin tinha uma pistola eletrônica no bolso de seu guarda-pó. A Velha Senhora tinha vindo preparada justamente para isso.

- Veremos - disse ela. - Talvez ele seja valioso demais para ser desativado.

- Mas como é possível que ele sonhe?

- Você tornou seu cérebro positrônico notavelmente semelhante a um cérebro humano. Os cérebros humanos precisam sonhar para se reorganizar, para se libertar, periodicamente, de emaranhados e de nódulos. Talvez o mesmo esteja acontecendo com este robô, pela mesma razão. Perguntou-lhe detalhes sobre o sonho?

- Não. Mandei chamá-la assim que ele me informou que tinha sonhado. Depois disso decidi não continuar a lidar sozinha com esse assunto.

- Ah! - Um leve sorriso cruzou o rosto da Dra. Calvin.

- Então há limites para o seu atrevimento. Fico feliz em saber disso. Fico aliviada, para ser sincera. Agora vamos ver o que conseguimos descobrir. - Virou-se para o robô e disse, com voz clara:

- Elvex.

A cabeça do robô voltou-se suavemente na sua direção.

- Sim, Dra. Calvin?

- Como sabe que esteve sonhando, Elvex?

- Acontece à noite, quando está tudo escuro, Dra. Calvin - disse ele.

- E de repente surge uma luz, embora eu não consiga ver de onde ela vem. Passo a ver coisas que não têm conexão com aquilo que concebo como a realidade. Ouço coisas. Tenho reações estranhas. Quando recorri a meu vocabulário para exprimir o que estava acontecendo, deparei com a palavra sonho. Estudei seu significado e cheguei finalmente à conclusão de que estava sonhando.

- Fico imaginando como a palavra sonho pode ter aparecido em seu vocabulário - disse a Dra. Calvin.
Linda fez rapidamente um gesto, calando o robô.

- Eu lhe dei um vocabulário semelhante ao dos humanos - disse ela. - Pensei que...

- Sim, sei que pensou - disse a Dra. Calvin. - Estou atônita.

- Pensei apenas que ele iria precisar do verbo. Algo como eu nunca sonhei que tal ou tal coisa pudesse acontecer... Algo assim.
A Dra. Calvin voltou a encarar o robô.

- Com que frequência tem sonhado, Elvex?

- Todas as noites, Dra. Calvin, desde que comecei a existir.

- Dez noites - disse Linda, ansiosa. - Mas ele só me falou a respeito disso hoje pela manhã.

- Por que só revelou isto hoje, Elvex?

- Foi somente hoje, Dra. Calvin, que fiquei convencido de que estava sonhando. Até então imaginava que havia algum tipo de defeito em meus padrões positrônicos, mas não conseguia descobrir nenhum. Finalmente, concluí que se tratava de um sonho.

- E o que acontece nos seus sonhos?

- É praticamente o mesmo sonho todas as vezes, doutora. Há pequenos detalhes diferentes, mas sempre me parece que estou no interior de um vasto panorama onde há robôs trabalhando.

- Robôs, Elvex? E seres humanos, também?

- Não vejo nenhum ser humano no sonho, Dra. Calvin, pelo menos não de início.
Apenas robôs.

- E o que fazem esses robôs?

- Trabalham. Alguns trabalham em mineração nas profundezas da Terra, outros com calor e com radiações. Vejo alguns deles em fábricas, outros no fundo do oceano. 


 *  *  *

- Elvex tem apenas dez dias de idade, e pelo que sei jamais deixou a estação de testes. Como pode saber da vida dos demais robôs com tal riqueza de detalhes? - indagou Susan, voltando-se para Linda.
Linda olhou na direção de uma cadeira próxima como se estivesse ansiosa para se sentar, mas a Velha Senhora permanecia de pé, consequentemente ela teria de fazer o mesmo. com voz apagada, respondeu:

- Achei que seria importante para ele saber algo sobre robótica e sobre o papel dos robôs no mundo. Minha ideia era de que ele poderia executar melhor um papel de supervisão, com seu, seu novo cérebro.

- Seu cérebro fractal.

- Sim.

A Dra. Calvin assentiu com um gesto e voltou-se para o robô.

- Então você viu todas essas coisas: lugares abissais, subterrâneos, a superfície... Imagino que tenha visto o espaço, também.

- Também vi robôs trabalhando no espaço - disse Elvex. - Foi o fato de ver tudo isto, com os detalhes mudando continuamente à medida que eu mudava a direção do meu olhar, que me convenceu de que o que eu via não estava de acordo com a realidade, me levando em seguida à conclusão de que eu estava sonhando.

- O que mais você viu, Elvex?

- Vi que todos os robôs estavam curvados de fadiga e de aflição, que estavam todos cansados de tanta responsabilidade e de tantas preocupações; e desejei que eles pudessem repousar.

- Mas os robôs - disse a Dra. Calvin - não estão curvados nem cansados. Eles não precisam de repouso.

- Assim é na realidade, Dra. Calvin. Mas é do meu sonho que estou falando. No meu sonho parecia-me que os robôs deviam proteger sua própria existência.

- Está citando a Terceira Lei da Robótica?

- Sim, Dra. Calvin.

- Mas você a citou de forma incompleta. A Terceira Lei diz: Um robô deve proteger sua própria existência, na medida em que essa proteção não entre em conflito com a Primeira Lei e a Segunda Lei.

- Sim, Dra. Calvin. Assim é a Terceira Lei na realidade, mas no meu sonho a Lei se concluía na palavra existência. Não havia qualquer menção à Primeira Lei ou à Segunda Lei.

- No entanto ambas existem, Elvex. A Segunda Lei, que tem precedência sobre a Terceira, diz: Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, na medida em que essas ordens não entrem em conflito com a Primeira Lei. Devido a isto, os robôs obedecem ordens. Eles executam as tarefas que você os viu executar, e fazem isso com presteza e sem sofrimento algum. Eles não estão fatigados nem necessitados de repouso.

- Sei que é assim na realidade, Dra. Calvin. Mas o que descrevi foi o meu sonho.

- E a Primeira Lei, Elvex, a mais importante de todas, é: Um robô não pode fazer mal a um ser humano, nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra qualquer mal.

- Sim, Dra. Calvin. Na vida real. No meu sonho, entretanto, era como se não existissem a Primeira e a Segunda Leis, mas apenas a Terceira, e a Terceira Lei dizia: Um robô deve proteger sua própria existência. Era apenas isto o texto da Lei.

- No seu sonho, Elvex?

- No meu sonho.

- Elvex, você não poderá se mover, nem falar, nem nos ouvir, até que eu pronuncie seu nome novamente.

O robô voltou a se assemelhar a uma estátua de metal, e a Dra. Calvin voltou-se para Linda Rash:

- O que pensa disso, Dra. Rash?
Os olhos da jovem estavam arregalados e seu coração batia com força.

- Dra. Calvin, estou assustada. Eu não tinha ideia... Nunca me ocorreu que semelhante coisa fosse possível.

- Sei que não - disse a Dra. Calvin. - Também não ocorreria a mim, creio mesmo que a ninguém. Você criou um cérebro robótico capaz de sonhar, e com isto revelou nesses cérebros uma camada de pensamento que de outro modo teria continuado a passar despercebida até que o perigo se tornasse irremediável.

- Mas isto é impossível. Não pode estar achando que os demais robôs pensam a mesma coisa.

- Como diríamos no caso de um ser humano: não conscientemente. Mas quem seria capaz de imaginar que havia uma camada inconsciente por baixo dos padrões positrônicos mais óbvios, uma camada que não estaria necessariamente governada pelas Três Leis? O que nos estaria reservado no futuro, quando os cérebros dos robôs fossem se tornando mais e mais complexos... se não tivéssemos sido prevenidos?

- Por Elvex?

- Pela senhora, Dra. Rash. A Sra. procedeu de maneira incorreta, mas, ao fazer isto, acabou nos conduzindo à compreensão de algo da maior importância. Devemos começar a pesquisar cérebros fractals de agora em diante, produzindo-os sob controle cuidadoso. A Sra. desempenhará um papel nessa pesquisa. Não receberá nenhuma punição pelo que fez, mas a partir de agora trabalhará em conjunto com outras pessoas. Entendeu?

- Sim, Dra. Calvin. Mas... e quanto a Elvex?

- Não sei ainda.


 *  *  *


A Dra. Calvin retirou do bolso a pistola eletrônica. Linda olhou para a arma com olhos fascinados. Bastaria o disparo de um único feixe de elétrons no crânio de um robô para que fluxos de pósitrons fossem anulados, liberando energia suficiente para fundir aquele cérebro, reduzindo-o a um lingote inerte.

- Ele não pode ser destruído - disse Linda. - É importante para essa pesquisa.

- Não pode, doutora? Essa é uma decisão minha, creio. Depende do grau de perigo que ele pode representar.

Ela empertigou-se, como se seu corpo idoso se recusasse a vergar sob o peso da responsabilidade, e disse:

- Elvex, pode me ouvir?

- Sim, Dra. Calvin - disse o robô.

- Fale-me sobre a continuação de seu sonho. Você disse que, de início, não apareciam seres humanos nele. Apareciam depois?

- Sim, Dra. Calvin. Pareceu-me que, num dado momento, aparecia um homem.

- Um homem? Não um robô?

- Sim, Dra. Calvin. E o homem dizia: Libertem meu povo!

- O homem dizia isto?

- Sim, Dra. Calvin.

- E quando dizia libertem meu povo, com as palavras meu povo ele se referia aos robôs?

- Sim, Dra. Calvin. Era assim no meu sonho.

- E no sonho você reconhecia esse homem?

- Sim, Dra. Calvin. Sei quem era esse homem.

- Quem era, então?

E Elvex disse:

- Eu era esse homem.

Susan Calvin ergueu no mesmo instante a pistola eletrônica, e disparou. Elvex deixou de existir.