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quarta-feira, 23 de abril de 2025
quarta-feira, 15 de julho de 2020
O que pensa e o que (não) faz a elite
Certos
espaços democráticos da comunidade não estão interessados em quem dá voz às agruras dos pobres
FLAVIO SOUZA, O CORAJOSO
Lívio Soares
Em
nome da clareza, é necessário eu dizer que trabalhei no Sistema Clube
de Rádio por quinze anos. A relação entre mim e eles era estritamente
profissional. Nunca me envolvi com campanhas políticas das quais
participava o dono da emissora, nunca pedi a ninguém que votasse nele
nem nunca votei nele, mesmo quando ele reunia os funcionários pedindo
apoio para as candidaturas dele; além do mais, sei que ele e que a
família dele não precisam do meu voto. Tanto é assim que têm longa
carreira política sem meu apoio. Também nunca votei no outro grupo
político local; nenhum dos grupos faz o que considero política;
obviamente, sei que esse outro pessoal também não precisa de voto meu.
Isso não que dizer que o dono do Sistema Clube de Rádio estava errado em
pedir que os funcionários da emissora votassem nele. Comento isso para
ilustrar que minha convivência com a direção da rádio sempre ficou no
campo profissional. Fiz meu trabalho da melhor maneira que pude (o que
não quer dizer que eles gostaram do que fiz); não estando mais na
emissora, não fiquei devendo favores de nenhuma natureza para eles (pois
nunca os pedi) nem eles ficaram me devendo favores de nenhuma natureza
(pois nunca me pediram).
Só
hoje, no começo da noite, fiquei sabendo do episódio ocorrido com o
Flavio Sousa, locutor, repórter e redator do Sistema Clube de Rádio. Num
programa da
emissora, Flavio criticou a elite dos Patos de Minas. Por causa disso,
ele não mais fará comentários na atração, dedicada, segundo o que me foi
informado, a debates. Enquanto escrevo esta nota, o locutor segue
trabalhando na empresa como repórter e como leitor de notícia.
Nada
é surpreendente nessa história. Nos primeiros contatos que tive com o
Flavio, ele havia me procurado para que eu ministrasse para ele aulas,
acho, de português. Na época, ele era estudante de jornalismo ou estava
prestes a começar o curso. Pensei comigo: “Esse tá começando bem, pois
está preocupado com o bem falar e o bem escrever”. Essas aulas duraram
pouco tempo, o que não fez com que eu perdesse contato com o Flavio. Não
acompanho o trabalho dele no rádio por eu não mais escutar nenhuma das
emissoras locais há um bom tempo. Do Flavio, acompanho o que ele tem
escrito, lendo o que é publicado em redes sociais, seja uma opinião,
seja um artigo, seja um conto, seja um poema. Flavio, além de
radialista, dedica-se a escrever ficção, tendo já publicado livro.
A
história entre ele, o Sistema Clube de Rádio e a elite local não
surpreende porque a opinião do Flavio, bem sei, foi expressão do
pensamento dele. Ele não estava fazendo um personagem que se dedica a
ter audiência a qualquer custo. O que Flavio disse diante do microfone
da emissora é expressão do que ele é, não uma expressão de atitude
sensacionalista. A reação da rádio não surpreende porque a mentalidade
dos que a dirigem é expressão do que pensa a elite local, do que pensa a
elite brasileira, uma elite conservadora que deseja manter às custas
dos pobres os privilégios (não merecidos) que vêm de séculos (a quem se
interessar pelo tema, indico Jessé Souza ou Darcy Ribeiro).
Flavio
não disse nada demais. Contudo, o que ele disse é gigantescamente
necessário. Ele fez um contraponto ao discurso da elite. Ora, ela, a
elite, já tem todos os espaços para apresentar o que pensa e o que (não)
faz. Os pobres não têm recursos nem estrutura técnica para que a voz
deles chegue a mais pessoas. A dor deles não aparece nos jornais,
valendo-me eu de paráfrase de canção do Chico Buarque, o qual, aliás,
não raro, é execrado pela elite que o Flavio criticou.
A direção da rádio divulgou nota,
também reveladora e nada surpreendente. A primeira coisa que chama a
atenção na nota que divulgaram é o cuidado que eles não tiveram com o
português (cuidado esse que o Flavio tem). No que a emissora divulgou há
coisas como “houveram excessos”. Contudo, o português incorreto é o
problema menor da nota; ela é sintoma do conservadorismo da elite
brasileira, que, travestida de bom-mocismo, apresenta o que chama de
pluralidade de ideias, quando tal pluralidade não há. Esse, sim, é o
grande problema da nota que a rádio divulgou. (Os problemas de português
seriam resolvidos se um revisor tivesse conferido o texto.)
Diz
a nota deles sobre o comentário que o Flavio fizera: “(...) A direção
da Rádio Clube reitera que não se trata de opinião da emissora,
tratando-se de livre manifestação do pensamento do profissional, sempre
permitida por essa empresa em toda sua história, e em especial neste
programa, criado para dar espaço a todas as vertentes de pensamentos.
Entretanto entendemos que houveram [sic] excessos e palavras mal
colocadas, que acabaram ofendendo pessoas, principalmente ligadas ao
nosso valoroso e pujante comércio local, a quem a Rádio Clube pede
desculpas”.
A
emissora diz haver nos microfones dela “espaço a todas as vertentes de
pensamentos”, mas alega ter havido “excessos e palavras mal colocadas”
por parte do Flavio. Em essência, o que Flavio disse foi que a elite não
está nem aí se os pobres não podem pagar por um exame de detecção da
covid-19 e que a elite não dá a mínima se os pobres não podem se dar o
luxo de se refugiarem contra a epidemia em espaços milionários. Por fim,
Flavio disse que uma elite burra pode servir de “púlpito para candidato
burro e despreparado”.
A
nota da emissora menciona que o discurso do Flavio ofendeu pessoas
“ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”. Não bastassem o
bairrismo e a pieguice do trecho, o que Flavio disse não é agressão
pessoal; em nenhum momento ele faz referência a nome(s). Ele diz que uma
elite burra cai em balela de candidato burro. Ora, pobre burro também
cai em balela de candidato burro. Os que se sentiram ofendidos poderiam
alegar, talvez, que o Flavio só criticou a elite burra, nada tendo sido
dito sobre os pobres burros. Que a emissora, então, apresentasse um
contraponto à opinião do Flavio. Não é isso o que ocorreu. Em vez de
apresentar o contraponto, preferiram calar as opiniões do jornalista sob
o argumento de que ele foi ofensivo.
Ainda
sobre a “livre manifestação do pensamento” alegada pela emissora:
quando lá trabalhei, o dono do meio de comunicação era candidato a
prefeito de Patos de Minas. Ele concederia uma coletiva para jornais,
rádios e TVs. Fui escalado para fazer pergunta em nome da Rádio Clube FM
(salvo engano, hoje é chamada apenas de 99FM, mas posso estar enganado
quanto a isso). Faltando mais ou menos uma hora para o início da
coletiva (não lembro mais onde ela ocorreu), um dos funcionários do
Sistema Clube de Rádio, envolvido com a campanha do político e superior a
mim na hierarquia da firma, pediu-me que eu mostrasse a ele a pergunta
que eu faria durante a coletiva. Depois de a ler, ele disse: “Pergunta
outra coisa”. A pergunta era: “Já foi dito que os políticos poderiam ser
melhores se mantivessem o hábito da leitura. O que o senhor tem lido?”.
A
pergunta era simples; ademais, a leitura ou a falta dela, em si mesmas,
nada garantem. O sujeito pode ser leitor e ser um péssimo político, bem
como pode nada ler e ser um excelente político. Ainda assim, fui
“orientado” a não fazer a pergunta que eu preparara. Não a fiz. Não me
recordo do que perguntei, mas como não me remanejaram (o que fizeram com
o Flavio), devo ter perguntado algo protocolar, algo que não ofendesse
pessoas “ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”.
A
opinião do Flavio não foi ofensiva; foi uma opinião sensata. Sobretudo,
ele teve uma admirável coragem, por ter dito o que disse no espaço em
que estava. Uma rádio pode adotar a política que quiser, pode manifestar
o espectro ideológico que quiser. Sei disso. O que critico é a postura
de quem se declara “um espaço democrático da comunidade”. É democrático
até o momento em que verdades sobre a elite não sejam ditas. Certos
espaços democráticos da comunidade não estão interessados em quem dá voz
às agruras dos pobres.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Editorial
Bolsonaro e Haddad, em seus discursos, reduziram em vários graus o tom belicoso da campanha eleitoral e conclamaram respeito às regras do jogo e prevalência do interesse nacional.
DESARMANDO
OS ESPÍRITOS
O Estado de S. Paulo
Tanto o presidente
eleito Jair Bolsonaro como o candidato derrotado Fernando Haddad, tão logo o
resultado da eleição presidencial foi conhecido, trataram de acalmar os ânimos
da sociedade, bastante exaltados ao longo da campanha eleitoral, especialmente
na reta final. Dado o nível da disputa, muito abaixo do que seria considerado
civilizado, não surpreende que os dois contendores tenham sido incapazes de
respeitar a etiqueta prevista para a ocasião – isto é, nem o candidato
derrotado telefonou para o vencedor nem o vencedor mencionou o nome do
derrotado ao fazer seu discurso da vitória.
No entanto, Bolsonaro e Haddad, em
seus discursos, reduziram em vários graus o tom belicoso da campanha eleitoral
e conclamaram respeito às regras do jogo e prevalência do interesse nacional.
É
evidente que há uma distância muito grande entre o discurso e a prática, mas,
no momento, esses pronunciamentos servem de baliza para o comportamento da
militância de parte a parte e também para enquadrar as expectativas do País,
ajudando a desanuviar um pouco o clima de apocalipse que se instaurou há
algumas semanas.
Bolsonaro
fez dois discursos. O primeiro foi de improviso, feito para as redes sociais,
ambiente no qual o eleito fez praticamente toda a sua campanha. Ali, pareceu
dirigir-se a seus aguerridos simpatizantes, ao criticar a “grande mídia” e ao
dizer que o País não podia mais “continuar flertando com o socialismo, com o
comunismo e com o populismo” – numa referência ao PT, seu alvo predileto
durante a campanha. Nem parecia que a campanha havia se encerrado.
Felizmente,
o presidente eleito fez logo em seguida outro pronunciamento, este sim,
dirigido ao conjunto da sociedade – quando então manifestou seu compromisso de
ser “um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade”.
A palavra
“liberdade”, aliás, foi uma das mais repetidas por Bolsonaro: “O que ocorreu
hoje nas urnas não foi a vitória de um partido, mas a celebração de um país
pela liberdade. (...) Liberdade é um princípio fundamental. Liberdade de ir e
vir, andar nas ruas em todos os lugares deste país. Liberdade de empreender.
Liberdade política e religiosa. Liberdade de informar e ter opinião. Liberdade
de fazer escolhas e ser respeitado por elas”.
A ênfase
nas liberdades e no respeito ao Estado Democrático de Direito pareceu ser uma
resposta à frequente acusação de que Bolsonaro flerta com soluções autoritárias
– afinal, em sua carreira política, fez elogios à ditadura e a torturadores.
Assim, é importante que Bolsonaro tenha se sentido na obrigação de reafirmar
seu respeito à Constituição e aos primados da democracia, pois nada, nem agora
nem no futuro, pode justificar a violação desses princípios.
O mesmo
se pode dizer da oposição que o PT pretende liderar. O discurso de Fernando
Haddad ao admitir a derrota fez constar as referências de praxe à prisão do
chefão Lula da Silva e ao impeachment de Dilma Rousseff, por ele considerados
atos de exceção, mas em seguida dirigiu-se a “todo o povo brasileiro”, ao dizer
que “nós temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesses
nacionais (...) acima de tudo”. E Haddad acrescentou: “Vamos defender os nossos
pontos de vista, respeitando a democracia, respeitando as instituições, mas sem
deixar de colocar o nosso ponto de vista”.
É
alvissareiro, vindo de um petista, que haja declarada disposição de fazer
oposição pensando no interesse do País, e não, como é costume no partido de
Lula da Silva, pensando nas estratégias eleitoreiras do demiurgo de Garanhuns.
Quando diz que “daqui a quatro anos nós teremos uma nova eleição”, Haddad
sinaliza à militância que deve respeitar o mandato conferido a Bolsonaro, coisa
incomum em se tratando do PT, campeão de pedidos de impeachment quando esteve
na oposição. Resta saber qual será a representatividade de Haddad no PT, pois,
até onde se sabe, o partido continuará a ser dirigido de uma cela em Curitiba.
Vencido e
vencedor parecem ter compreendido que o discurso de ódio, uma vez apurada a
vontade soberana da Nação, levaria a uma perigosa ruptura. Atenderam, portanto,
ao chamado da razão, também para não serem estigmatizados por uma Nação que só
deseja concórdia e prosperidade.
(30/10/18)
domingo, 1 de abril de 2018
A palavra 'roupa' já transmite ideia de plural quando se refere a traje completo
Trecho de reportagem publicada hoje no "Estadão", com chamada na primeira página (ATO CONTRA LULA TEVE ATÉ 'VAQUINHA'): "No meio da confusão de domingo, o responsável pelo Boneco (sic) de Lula com roupas de presidiários não apareceu".
Desnecessário o plural "roupas", haja vista que, neste contexto, o singular traz consigo a noção de "conjunto". Não satisfeito, o diário ainda flexionou indevidamente o complemento: "roupas de presidiários". Será que a intenção é dizer que tanto o personagem quanto o seu idealizador trajavam da mesma forma, daí o termo "presidiários"?
Eis uma forma correta, desfazendo-se qualquer ambiguidade: "o responsável pelo Pixuleco (boneco de Lula com roupa de presidiário) não apareceu".
Mais adiante, a reportagem afirma que a PM "teve de pedir reforços em Cascavel para manter os ânimos". Obviamente a reportagem quis dizer "para CONTER", "para ARREFECER os ânimos".
domingo, 8 de fevereiro de 2015
domingo, 26 de outubro de 2014
Caso Veja: indefensável
A edição de 29 de outubro antecipada por "Veja" traz como verdade absoluta a denúncia de um criminoso confesso, o doleiro Alberto Youssef:
ELES SABIAM DE TUDO afirma a capa, sem aspas, ilustrada pela imagem de Lula e Dilma.
No interior da revista, porém, o leitor se depara com a informação de que o doleiro ("caixa do esquema de corrupção da Petrobras") não apresentou nem lhe foi pedido nenhuma prova. Uma tentativa desesperada para influenciar o resultado das eleições de hoje, exatamente como fez a Rede Globo ao editar o debate entre Collor e Lula às vésperas das eleições presidenciais em 1989.
O que Youssef disse não poderia mesmo ficar escondido até o fechamento das urnas. Mas daí a alçar a notícia ao status que lhe foi dado, e ainda induzir o (e) leitor a erro? Os editores chamaram para si a responsabilidade ao assumirem a acusação, cabendo-lhes o ônus da prova.
A depredação da sede da editora Abril foi lamentável, mas qual teria sido o maior atentado à democracia? Se o depoimento fosse favorável a Dilma e a Lula a revista abraçaria a versão do delator com o mesmo açodamento e dar-lhe-ia a mesma credibilidade e igual publicidade? Obviamente, caso o delator dissesse que o alto escalão do governo não soubesse do esquema não haveria manchete na capa — muito menos ela seria ELES SÃO INOCENTES.
Pedra angular do Direito, o contraditório também é um princípio do jornalismo, e aos acusados deveria ser dado o direito de se defenderem, o que não foi respeitado pela publicação. Pelo contrário, a empresa recorreu ao STF para barrar o direito de resposta determinado judicialmente.
* * *
Quem veio em defesa da revista, claro, foi Aécio. Notório censor, agora se traveste de arauto da liberdade de imprensa, com o mesmo cinismo de quando ataca a adversária de forma baixa e agressiva afirmando que não o fará.
O País de fato precisa de mudança, que nenhum dos candidatos representa. Mas, a julgar pela capa e pelo uso eleitoreiro pelo noticiário ("golpe contra a liberdade de imprensa" etc.), se Aécio for vitorioso a imprensa deverá ser menos vigilante e combativa — para não dizer complacente — em seu governo.
domingo, 10 de agosto de 2014
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
sábado, 1 de fevereiro de 2014
'Manual de redação e estilo', de Eduardo Martins (repost)

Obra de leitura OBRIGATÓRIA e de consulta permanente para profissionais e estudantes de todas as áreas de atuação:
"MANUAL DE REDAÇÃO E ESTILO" (ESTADÃO) - versão online
Para baixar a versão em PDF clique AQUI.
Leia também:
"Novo Manual da Redação" - Folha de São Paulo (sinopse);
"Manual de Redação Último Segundo";
"Manual de Redação da Presidência da República";
"Manual de Redação do Banco do Brasil";
"Pequeno Manual de Estilo";
"Português ao alcance de todos";
"Redação forense".
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Niterói, 17/12/1961
Foi a trapezista Nena quem deu o alerta. Momentos antes, pendurada na barra de ferro, a quase vinte metros do chão, ela balançava-se confiando apenas em sua habilidade. Aos 39 anos, não se valia do sobrenome. Irmã do dono do circo, poderia ocupar função administrativa ou mais segura. Pouco mais cedo, suspenso de cabeça para baixo no trapézio, preso pelas pernas, seu marido e companheiro de número, Santiago Grotto, tinha dado o comando de partida, em inglês:
— Go!
Ao som do tema de Lara, do filme Doutor Jivago, que fazia muito sucesso na época, Nena, apelido de Antonietta Stevanovich, havia saltado da plataforma e segurado a barra. Após balançar, soltou-se, deu uma volta e meia no ar e foi agarrada pelas pernas por Grotto. Ele lançou-a de novo para o trapézio enquanto outro colega, Vicente Sanches, jogava-se até seus braços. Nena e Sanches se cruzaram no ar. Ele foi amparado por Grotto e ela alcançou a barra. Grotto arremessou Sanches em direção a Nena e os dois voltaram juntos para o alto da plataforma, encerrando o salto cruce, clímax do espetáculo.
Os três trapezistas preparavam-se para receber os aplausos de praxe quando Grotto teve sua atenção desviada para uma luz esverdeada na parte de baixo da lona, à sua direita. Não demorou a entender o que estava acontecendo. Fez sinal em direção aos colegas, pedindo pressa, mas eles também já haviam notado o problema. Grotto imediatamente saltou de costas rumo à rede de segurança e desceu para o chão. Nena pulou em seguida. O marido esperou que a rede parasse de balançar, pegou a mulher pela cintura e botou-a no picadeiro. Ela olhou para o alto, viu que Sanches ainda estava na plataforma e hesitou. “Se eu der o alarme agora, ele morre”, pensou. A trapezista esperou então que ele pulasse para gritar:
— Fogo!
Não lhe passou pela cabeça que as chamas se propagariam tão depressa. Os três saíram pela porta dos fundos, escapando ilesos.
Pouco antes, Semba tinha sido aplaudido por mais de 3 mil espectadores. Agora, também saía fugido do picadeiro. Aos 24 anos, sempre tivera um comportamento previsível. Evitava gestos bruscos, pois sabia que a punição lhe doía no couro. Preferia movimentos estudados, porque assim lhe fora ensinado. Como todo mundo no circo, ele havia acabado de ouvir o grito de fogo. O corre-corre do público provocou-lhe inquietação, a gritaria da multidão deixou-o irrequieto, mas somente quando um pedaço de lona queimada o atingiu ele percebeu que chegara a hora de deixar a prudência de lado e debandar. Sua escapada seria comentada anos à frente. Ele seria olhado com um misto de respeito e temor, admiração e cólera. Herói para uns, porque abriu espaço por onde muitos passaram, vilão para outros, porque provocou mortes em seu caminho, Semba acabou se salvando com poucas escoriações. Durante a fuga, moveu-se com uma desenvoltura incomum para suas quatro toneladas, o que poderia causar estranheza, não fosse ele um elefante — ou melhor, uma elefanta.
O fogo teve início a cerca de vinte metros da entrada, do lado esquerdo. Veio de baixo, a menos de três metros do chão, mas lambeu a lona com tamanha rapidez que, ao ser visto, não pôde mais ser contido. As labaredas avançaram com uma fúria inconcebível num espaço que até pouco antes era dominado pela alegria das crianças. A madeira das arquibancadas e a serragem no piso ajudaram a propagar o incêndio e a encher de fumaça o ambiente. Muitos espectadores estranharam o aumento súbito da temperatura, mas atribuíram o desconforto ao calor excessivo do dia. O ar abafado daquele domingo neutralizou as desconfianças e impediu que se suspeitasse de imediato de alguma anormalidade. O incêndio não democratizou as mortes. Suas vítimas foram principalmente os que estavam nos camarotes e nas cadeiras numeradas, mais caros, mais próximos do picadeiro, mais distantes da saída principal e separados das arquibancadas por uma cerca de madeira. Crianças, adultos e velhos foram atropelados e pisoteados quando tentavam escapar. O perigo também vinha do alto. À medida que as chamas avançavam pela cobertura, davam origem a uma chuva de gotas incandescentes, que atingiam corpos e cabeças.
Os artistas e funcionários pouco puderam ajudar. O tratorista do circo, Belmiro Cláudio Nunes, viu quando uma mulher e uma criança correram para o centro do picadeiro. Puxou-as para a saída dos fundos e tentou voltar para ver se salvava mais alguém, mas teve que desistir. O contorcionista Geraldo Alves e o anão Cebolinha assistiram impotentes ao drama dos espectadores. O domador Ramon dos Santos tratou de agir e correu para a jaula da zebra, afastando-a para longe. Os palhaços argentinos Oscar Raul Rodriguez e seu filho, Juan Raul Rodriguez, de doze anos, mais conhecidos como Astillita e Mosquito, estavam no carro-camarim quando ouviram os primeiros gritos da multidão. Com esforço, Juan conseguiu derrubar uma das chapas de zinco que cercavam o terreno do circo e saiu para a rua. Do lado de fora, observou o fogo contornar o pano e subir em direção ao mastro central. Pedaços de lona e madeira desabavam sobre a multidão. No salve-se quem puder, homens pisoteavam mulheres e crianças. Uma senhora, com as roupas em chamas, atirou-se contra as arquibancadas e rolou para apagar o fogo, com o rosto já desfigurado. Um senhor carregava uma mulher carbonizada nos braços. Três elefantes subiam sobre as patas traseiras e soltavam gritos horríveis. O que Juan viu se fixaria em sua memória para sempre.
Em meio ao caos, o domador Osvaldo Stevanovich tomou uma decisão que resultou oposta à que pretendia: soltou as amarras que sustentavam os mastros centrais, imaginando que assim a lona cairia para trás. Sem as oito cordas, as quatro estacas que amparavam o circo perderam o apoio e desabaram. Um estrondo anunciou a queda da última coluna, e a lona arriou por completo, pendendo para a frente, em direção à saída principal, e cobrindo quem ainda não havia escapado do atropelo nem se livrado da fumaça e driblado os pingos flamejantes. O Gran Circo Norte-Americano se transformou num “braseiro”, segundo a imprensa. Uma metáfora usada na época dizia que a cobertura aprisionou os espectadores como se fosse uma rede de peixe ardente. Uma comparação pertinente, já que a lona era enredada, isto é, guarnecida internamente por pequenos quadrados de corda.
O incêndio durou menos de dez minutos, o suficiente para que centenas de espectadores fossem queimados, pisoteados ou asfixiassem. Jamais tantos brasileiros morreram em tão pouco tempo e no mesmo lugar como naquele domingo em Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro.
O aviso de Nena se espalhou instantaneamente do circo para as rádios, das rádios para os ouvintes e alcançou o clínico geral Waldenir Bragança quando retornava com a família da cidade de Araruama, na Região dos Lagos. O médico deixou os parentes em casa e seguiu para o terreno do Gran Circo. Chegou a carregar vítimas de queimaduras para uma ambulância, até perceber que teria mais utilidade atendendo feridos no hospital. Mas, ao contrário do que seria de esperar, não foi para o Hospital Municipal Antonio Pedro (hmap), o principal da região. O motivo é que ele estava fechado, justamente no momento em que Niterói mais precisava. Tinha sido ocupado quinze dias antes por estudantes de medicina, insatisfeitos com as condições de trabalho. Bragança, que 22 anos depois se tornaria prefeito da cidade, encaminhou-se para o improvisado Hospital Psiquiátrico de Jurujuba.
A informação chegou a Maria Pérola em meio à festa de encerramento das atividades dos lobinhos, como são chamados os escoteiros de sete a onze anos, de Niterói. Um dos pais, parado junto ao carro no estacionamento da faculdade de arquitetura e engenharia, escutou a notícia e correu para alertá-la. Maria Pérola, que viria a desempenhar papel importante na tragédia, era akelá — chefe dos lobinhos — desde 1951. Ela imediatamente reuniu a chefia e incumbiu dois colegas, com a colaboração dos pais dos meninos, de encerrar a festividade sem criar pânico, ao mesmo tempo que os demais chefes seguiam em direção aos hospitais para doar sangue.
Nesse momento, Celso Peçanha repassava mentalmente a agenda, no carro oficial que o trazia de volta a Niterói. Ele tinha passado o dia em Santa Maria Madalena, no interior do estado, onde fora cumprir uma programação típica de governador: acompanhar a inauguração de obras no horto florestal da cidade e o início da construção da ponte de Santa Margarida, na estrada Campos-Madalena. Aproveitou a ocasião para fazer as promessas habituais. Anunciou que o serviço de abastecimento de água do município estava em fase de conclusão. Disse que instalaria mais uma escola na cidade, foi paraninfo das professoras da Escola Normal e pediu aos fazendeiros que colaborassem no Natal das crianças pobres e no auxílio ao Asilo da Velhice de Madalena, para que a instituição pudesse “comemorar a data magna da cristandade”. De lá, Peçanha seguiu para Conceição de Macabu, onde autorizou a criação de uma Escola Normal, anexa ao Ginásio Macabuense. Na estrada entre Maricá e Rio do Ouro, sua atenção foi despertada pela narração dramática de um locutor de rádio. O governador percebeu a gravidade da situação e pediu ao motorista que acelerasse.
Naquele domingo, o pequeno empresário José Datrino, dono de uma transportadora de cargas em Guadalupe, no Rio de Janeiro, a quase quarenta quilômetros dali, estava com a mulher e os cinco filhos em casa, na rua Manoel Barata, quando escutou o comunicado e se viu tomado por uma sensação estranha, indefinível. Não deu maior atenção até que, seis dias depois, na antevéspera do Natal, aquela impressão vaga ganhou alguma concretude ao ouvir um aviso divino. Passava pouco do meio-dia e ele entregava mercadorias em Nova Iguaçu quando uma voz astral lhe ordenou que, já no dia seguinte, deixasse seus “afazeres materiais” e representasse Jesus de Nazaré na terra. Eram três chamados espirituais, um seguido do outro: Datrino deveria “perdoar toda a humanidade, ensinar a perdoar uns aos outros e mostrar o caminho da verdade que é o nosso Pai”. Seus ajudantes notaram que nesse exato instante o patrão ficou alegre. Seguiu fielmente a convocação. No dia 24 de dezembro, conforme determinado, largou os negócios, abandonou a família e dirigiu-se para Niterói. Começava a surgir aí o profeta Gentileza, que se tornaria no futuro o personagem-símbolo do incêndio.
Nessa altura, o mundo já tomara conhecimento do que a agência de notícias Associated Press classificou de “a maior tragédia circense da história”.
Trechos de "O ESPETÁCULO MAIS TRISTE DA TERRA - O incêndio do Gran Circo Norte-Americano", de Mauro Ventura. São Paulo: Companhia das Letras, 2011
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Imagens do ano (Associated Press)
Algumas fotos registradas pela agência norte-americana Associated Press (AP) em 2012.
(1)
Dave Martin, 4 de maio; (2) Vincent Thian, 28 de setembro; (3) Keystone/Martial Trezzini, 5 de fevereiro;
(4) Manish Swarup, 28 de março
Fonte: Best Associated Press Photos of the 2012 Year
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