Jair
Bolsonaro ainda não assumiu a Presidência da República, mas é natural
que tudo o que ele e seus principais assessores digam ou façam no
período de transição tenha considerável repercussão. Assim, o presidente
eleito e aqueles que se apresentam ou são tidos como seus porta-vozes
precisam ter em mente que suas palavras e atos, mesmo que não sejam
propriamente decisões de governo, pois em sua maioria não passam de
intenções, servem para criar ou frustrar expectativas em toda a
sociedade brasileira e, dado o peso econômico do Brasil, mesmo na
comunidade internacional.
Sendo
assim, o recomendável seria que todos os envolvidos na transição fossem
mais prudentes, evitando, como se tem visto até aqui, atropelos,
desorganização e voluntarismo – que, em alguns casos, pode
irrefletidamente atar o País a compromissos de caráter ideológico ou
religioso que atenderiam a supostos desejos dos eleitores de Bolsonaro,
mas claramente prejudicam o interesse nacional.
Foi assim, por
exemplo, que Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente eleito, foi
aos Estados Unidos para, na condição de enviado especial do pai,
oferecer, sem esperar contrapartida, o apoio integral do Brasil à agenda
do presidente norte-americano, Donald Trump. Deputado federal mais
votado nas últimas eleições e fortemente identificado com o presidente
eleito, Eduardo Bolsonaro parece ter esquecido que suas palavras e atos
têm consequências, seja para si mesmo, seja para seu partido, para o
próximo governo e para o País.
Tamanha
temeridade foi coroada com a imagem de Eduardo Bolsonaro com um boné da
campanha de Trump à reeleição, em 2020. Com isso, sugeriu que o futuro
governo Bolsonaro torce pela vitória eleitoral do atual presidente
norte-americano, quando o bom senso manda manter-se neutro nas disputas
eleitorais alheias, já que o governo terá de lidar com quem quer que
seja eleito em 2020 nos Estados Unidos.
O tour de Eduardo
Bolsonaro é apenas um dos vários episódios desse período de transição
que mostram preocupante prevalência de algo parecido com ideologia sobre
a sensatez. Além da aproximação aparentemente incondicional com os
Estados Unidos, o futuro governo Bolsonaro, mimetizando Trump, ameaça
retirar o Brasil do Acordo de Paris, compromisso firmado por 195 países
para conter o aquecimento global. Ao informar que ele mesmo pediu ao
governo de Michel Temer para que desistisse de oferecer o Brasil como
sede da próxima Conferência do Clima, em 2019, Bolsonaro deixou claro
que o motivo era justamente evitar a saia-justa de "anunciar uma
possível ruptura (do acordo) dentro do Brasil". Não parece ter havido
reflexão suficiente, por parte do futuro governo, para que se tomasse
tão drástica decisão.
Do mesmo modo, quase todo o noticiário
sobre a transição indica preocupante desorientação sobre o que realmente
pretende o presidente eleito. Depois de prometer um Ministério enxuto,
com 15 pastas, Bolsonaro deverá tomar posse com mais de 20, em razão de
uma aparente confusão de objetivos. Bolsonaro e sua equipe já anunciaram
Ministérios que mais tarde foram cancelados, e depois anunciaram a
extinção de Ministérios que foram ressuscitados. O presidente eleito já
teve que desmentir declarações de seus futuros ministros e comunica
decisões com potencial gravidade em entrevistas coletivas confusas e
improvisadas.
Sinalizações ambíguas são especialmente alarmantes
quando se referem aos maiores desafios da próxima gestão. Quando Eduardo
Bolsonaro diz a investidores norte-americanos que "talvez não
consigamos" fazer a reforma da Previdência, e seu pai é obrigado a vir a
público para dizer que "pode ser que ele tenha se equivocado, o garoto,
né?", revela-se inquietante desordem, até porque a frase seguinte põe
em dúvida a tramitação do projeto que está no Congresso.
Alguns
assessores de Bolsonaro, e talvez o próprio presidente eleito, parecem
acreditar que tudo afinal se organizará simplesmente a partir de suas
certezas ideológicas. Como escreveu o futuro chanceler, Ernesto Araújo,
Bolsonaro foi eleito para promover nada menos que a "regeneração
nacional" e, para isso, deve-se destruir tudo o que está aí. O problema é
que Bolsonaro parece não saber exatamente o que remover e o que colocar
naquele lugar.