Susan Calvin investiga as
profundezas da mente de um autômato bastante invulgar e descobre nova e terrível ameaça
para a humanidade...
SONHOS DE ROBÔ
Um conto de Isaac Asimov
- Eu
sonhei ontem à noite - disse LVX-1, calmamente.
Susan Calvin
ficou em silêncio, mas seu rosto vincado de rugas, pleno de sabedoria e de
experiência, teve um estremecimento quase imperceptível.
- Ouviu
isto? - perguntou Linda Rash, nervosa. - Foi o que eu lhe disse.
Era
bastante jovem, miúda, de cabelos escuros. Sua mão direita abria-se e
fechava-se, repetidamente.
A Dra. Calvin assentiu com um gesto de cabeça e
disse com voz tranquila:
- Elvex,
você não pode mover-se ou falar ou nos ouvir até que eu diga seu nome
novamente.
Não houve
resposta. O robô permaneceu sentado como se fosse uma estátua fundida numa
única peça de metal; ficaria assim até voltar a escutar seu nome. A Dra. Calvin
indagou:
- Qual o
código de acesso ao seu computador, Dra. Rash? Ou, pensando bem, pode a senhora
mesma fazê-lo, se isso lhe convém. Quero inspecionar a estrutura do cérebro
positrônico.
As mãos
de Linda Rash manipularam os controles durante alguns instantes; ela
interrompeu o processo, recomeçou, e daí a pouco o visor se iluminou revelando
um painel de padrões matemáticos.
- Com sua
licença - disse a Dra. Calvin, sentando-se diante do computador.
Linda
assentiu com um aceno mudo. Claro! Como poderia ela, uma robopsicóloga jovem e
inexperiente, negar licença à Lenda Viva?
Meticulosamente,
a Dra. Calvin examinou o visor, fazendo com que as imagens corressem para um
lado e para outro, depois subindo, e de repente digitou uma combinação com
gestos tão rápidos que Linda não percebia o que tinha sido feito, mas o visor
mostrava logo uma porção ampliada do padrão anterior. A Dra. Calvin prosseguiu
em seu exame, avançando, recuando, os dedos curvos dançando em silêncio sobre o
teclado.
* * *
Seu rosto
envelhecido permanecia impassível. Como se vastos cálculos matemáticos
estivessem se processando em sua cabeça, ela continuava a observar a incessante
mudança de padrões no visor. Linda estava abismada. Era impossível analisar um
padrão daqueles sem contar com a ajuda de pelo menos um computador portátil, e
no entanto a Velha Senhora apenas fitava os dados. Haveria um computador
implantado em seu crânio? Ou aquilo se devia apenas ao seu cérebro que durante
décadas não tinha feito outra coisa senão projetar, estudar e analisar os
padrões dos cérebros positrônicos? Talvez ela fosse capaz de intuir o resultado
daqueles padrões como Mozart devia ser capaz de intuir uma sinfonia apenas com
um olhar lançado à partitura.
Finalmente
a Dra. Calvin disse:
-
Diga-me, Dra. Rash... o que andou fazendo?
Ela
respondeu embaraçada:
-
Utilizei geometria fractal.
- Sim,
percebo que sim. Mas por quê?
- Nunca
tinha sido feito. Achei que poderia produzir um padrão mental mais complexo,
talvez mais próximo dos padrões humanos.
-
Consultou alguém para isto? Ou fez tudo sozinha?
- Não
consultei ninguém. Foi ideia minha, apenas.
Os olhos
fatigados de Susan Calvin fitaram demoradamente a jovem.
- Você
não tinha esse direito. Seu nome é Rash, hem? Imprudente... Um nome muito
adequado. Quem é você para fazer isto sem consultar ninguém? Eu mesma, eu,
Susan Calvin, teria que submeter isto a uma discussão.
- Tive
medo de que me proibissem de continuar. - Isso com certeza teria acontecido.
- Será
que... - a voz da jovem vacilou, a despeito de seu esforço para mantê-la firme
- ...que Vou ser despedida?
- É
bastante possível - disse a Dra. Calvin. - Ou promovida, quem sabe? Tudo
depende do que eu descobrir de agora em diante.
- Vai
desativar o El... - Quase chegou a pronunciar o nome, o que teria reativado o
robô, e seria um erro a mais. Ela sabia que não poderia cometer mais um erro,
se é que já não era tarde demais. - Vai desativar o robô?
Ela
percebeu de repente, com um pequeno choque, que a Dra. Calvin tinha uma pistola
eletrônica no bolso de seu guarda-pó. A Velha Senhora tinha vindo preparada
justamente para isso.
- Veremos
- disse ela. - Talvez ele seja valioso demais para ser desativado.
- Mas
como é possível que ele sonhe?
- Você
tornou seu cérebro positrônico notavelmente semelhante a um cérebro humano. Os
cérebros humanos precisam sonhar para se reorganizar, para se libertar,
periodicamente, de emaranhados e de nódulos. Talvez o mesmo esteja acontecendo
com este robô, pela mesma razão. Perguntou-lhe detalhes sobre o sonho?
- Não.
Mandei chamá-la assim que ele me informou que tinha sonhado. Depois disso
decidi não continuar a lidar sozinha com esse assunto.
- Ah! -
Um leve sorriso cruzou o rosto da Dra. Calvin.
- Então
há limites para o seu atrevimento. Fico feliz em saber disso. Fico aliviada,
para ser sincera. Agora vamos ver o que conseguimos descobrir. - Virou-se para
o robô e disse, com voz clara:
- Elvex.
A cabeça
do robô voltou-se suavemente na sua direção.
- Como
sabe que esteve sonhando, Elvex?
-
Acontece à noite, quando está tudo escuro, Dra. Calvin - disse ele.
- E de
repente surge uma luz, embora eu não consiga ver de onde ela vem. Passo a ver
coisas que não têm conexão com aquilo que concebo como a realidade. Ouço
coisas. Tenho reações estranhas. Quando recorri a meu vocabulário para exprimir
o que estava acontecendo, deparei com a palavra sonho. Estudei seu significado
e cheguei finalmente à conclusão de que estava sonhando.
- Fico
imaginando como a palavra sonho pode ter aparecido em seu vocabulário - disse a
Dra. Calvin.
Linda fez
rapidamente um gesto, calando o robô.
- Eu lhe dei
um vocabulário semelhante ao dos humanos - disse ela. - Pensei que...
- Sim,
sei que pensou - disse a Dra. Calvin. - Estou atônita.
- Pensei
apenas que ele iria precisar do verbo. Algo como eu nunca sonhei que tal ou tal
coisa pudesse acontecer... Algo assim.
A Dra.
Calvin voltou a encarar o robô.
- Com que
frequência tem sonhado, Elvex?
- Todas
as noites, Dra. Calvin, desde que comecei a existir.
- Dez
noites - disse Linda, ansiosa. - Mas ele só me falou a respeito disso hoje pela
manhã.
- Por que
só revelou isto hoje, Elvex?
- Foi
somente hoje, Dra. Calvin, que fiquei convencido de que estava sonhando. Até
então imaginava que havia algum tipo de defeito em meus padrões positrônicos,
mas não conseguia descobrir nenhum. Finalmente, concluí que se tratava de um
sonho.
- E o que
acontece nos seus sonhos?
- É
praticamente o mesmo sonho todas as vezes, doutora. Há pequenos detalhes
diferentes, mas sempre me parece que estou no interior de um vasto panorama
onde há robôs trabalhando.
- Robôs,
Elvex? E seres humanos, também?
- Não
vejo nenhum ser humano no sonho, Dra. Calvin, pelo menos não de início.
Apenas robôs.
- E o que
fazem esses robôs?
- Trabalham. Alguns trabalham em mineração nas
profundezas da Terra, outros com calor e com radiações. Vejo alguns deles em
fábricas, outros no fundo do oceano.
* * *
- Elvex
tem apenas dez dias de idade, e pelo que sei jamais deixou a estação de testes.
Como pode saber da vida dos demais robôs com tal riqueza de detalhes? - indagou
Susan, voltando-se para Linda.
Linda
olhou na direção de uma cadeira próxima como se estivesse ansiosa para se
sentar, mas a Velha Senhora permanecia de pé, consequentemente ela teria de
fazer o mesmo. com voz apagada, respondeu:
- Achei
que seria importante para ele saber algo sobre robótica e sobre o papel dos
robôs no mundo. Minha ideia era de que ele poderia executar melhor um papel de
supervisão, com seu, seu novo cérebro.
- Seu
cérebro fractal.
- Sim.
A Dra.
Calvin assentiu com um gesto e voltou-se para o robô.
- Então
você viu todas essas coisas: lugares abissais, subterrâneos, a superfície...
Imagino que tenha visto o espaço, também.
- Também
vi robôs trabalhando no espaço - disse Elvex. - Foi o fato de ver tudo isto,
com os detalhes mudando continuamente à medida que eu mudava a direção do meu
olhar, que me convenceu de que o que eu via não estava de acordo com a
realidade, me levando em seguida à conclusão de que eu estava sonhando.
- O que
mais você viu, Elvex?
- Vi que
todos os robôs estavam curvados de fadiga e de aflição, que estavam todos
cansados de tanta responsabilidade e de tantas preocupações; e desejei que eles
pudessem repousar.
- Mas os robôs - disse a Dra.
Calvin - não estão curvados nem cansados. Eles não precisam de repouso.
- Assim é
na realidade, Dra. Calvin. Mas é do meu sonho que estou falando. No meu sonho
parecia-me que os robôs deviam proteger sua própria existência.
- Está
citando a Terceira Lei da Robótica?
- Sim,
Dra. Calvin.
- Mas
você a citou de forma incompleta. A Terceira Lei diz: Um robô deve proteger sua
própria existência, na medida em que essa proteção não entre em conflito com a
Primeira Lei e a Segunda Lei.
- Sim,
Dra. Calvin. Assim é a Terceira Lei na realidade, mas no meu sonho a Lei se
concluía na palavra existência. Não havia qualquer menção à Primeira Lei ou à
Segunda Lei.
- No
entanto ambas existem, Elvex. A Segunda Lei, que tem precedência sobre a
Terceira, diz: Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, na medida em
que essas ordens não entrem em conflito com a Primeira Lei. Devido a isto, os
robôs obedecem ordens. Eles executam as tarefas que você os viu executar, e
fazem isso com presteza e sem sofrimento algum. Eles não estão fatigados nem
necessitados de repouso.
- Sei que
é assim na realidade, Dra. Calvin. Mas o que descrevi foi o meu sonho.
- E a
Primeira Lei, Elvex, a mais importante de todas, é: Um robô não pode fazer mal
a um ser humano, nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra qualquer
mal.
- Sim,
Dra. Calvin. Na vida real. No meu sonho, entretanto, era como se não existissem
a Primeira e a Segunda Leis, mas apenas a Terceira, e a Terceira Lei dizia: Um
robô deve proteger sua própria existência. Era apenas isto o texto da Lei.
- No seu
sonho, Elvex?
- No meu
sonho.
- Elvex,
você não poderá se mover, nem falar, nem nos ouvir, até que eu pronuncie seu
nome novamente.
O robô
voltou a se assemelhar a uma estátua de metal, e a Dra. Calvin voltou-se para
Linda Rash:
- O que
pensa disso, Dra. Rash?
Os olhos
da jovem estavam arregalados e seu coração batia com força.
- Dra.
Calvin, estou assustada. Eu não tinha ideia... Nunca me ocorreu que semelhante
coisa fosse possível.
- Sei que
não - disse a Dra. Calvin. - Também não ocorreria a mim, creio mesmo que a
ninguém. Você criou um cérebro robótico capaz de sonhar, e com isto revelou
nesses cérebros uma camada de pensamento que de outro modo teria continuado a
passar despercebida até que o perigo se tornasse irremediável.
- Mas
isto é impossível. Não pode estar achando que os demais robôs pensam a mesma
coisa.
- Como
diríamos no caso de um ser humano: não conscientemente. Mas quem seria capaz de
imaginar que havia uma camada inconsciente por baixo dos padrões positrônicos
mais óbvios, uma camada que não estaria necessariamente governada pelas Três
Leis? O que nos estaria reservado no futuro, quando os cérebros dos robôs
fossem se tornando mais e mais complexos... se não tivéssemos sido prevenidos?
- Por
Elvex?
- Pela
senhora, Dra. Rash. A Sra. procedeu de maneira incorreta, mas, ao fazer isto,
acabou nos conduzindo à compreensão de algo da maior importância. Devemos
começar a pesquisar cérebros fractals de agora em diante, produzindo-os sob
controle cuidadoso. A Sra. desempenhará um papel nessa pesquisa. Não receberá
nenhuma punição pelo que fez, mas a partir de agora trabalhará em conjunto com
outras pessoas. Entendeu?
- Sim,
Dra. Calvin. Mas... e quanto a Elvex?
A Dra.
Calvin retirou do bolso a pistola eletrônica. Linda olhou para a arma com olhos
fascinados. Bastaria o disparo de um único feixe de elétrons no crânio de um
robô para que fluxos de pósitrons fossem anulados, liberando energia suficiente
para fundir aquele cérebro, reduzindo-o a um lingote inerte.
- Ele não
pode ser destruído - disse Linda. - É importante para essa pesquisa.
- Não
pode, doutora? Essa é uma decisão minha, creio. Depende do grau de perigo que
ele pode representar.
Ela
empertigou-se, como se seu corpo idoso se recusasse a vergar sob o peso da
responsabilidade, e disse:
- Sim,
Dra. Calvin - disse o robô.
- Fale-me
sobre a continuação de seu sonho. Você disse que, de início, não apareciam
seres humanos nele. Apareciam depois?
- Sim,
Dra. Calvin. Pareceu-me que, num dado momento, aparecia um homem.
- Um
homem? Não um robô?
- Sim,
Dra. Calvin. E o homem dizia: Libertem meu povo!
- O homem
dizia isto?
- Sim,
Dra. Calvin.
- E
quando dizia libertem meu povo, com as palavras meu povo ele se referia aos
robôs?
- Sim,
Dra. Calvin. Era assim no meu sonho.
- E no
sonho você reconhecia esse homem?
- Sim,
Dra. Calvin. Sei quem era esse homem.
- Quem
era, então?
E Elvex
disse:
Susan
Calvin ergueu no mesmo instante a pistola eletrônica, e disparou. Elvex deixou
de existir.