terça-feira, 29 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Rex
A família estava almoçando. Eram doze pessoas numa pequena casa. Pai e mãe estavam taciturnos. Os filhos, sempre correndo, passariam poucos minutos em casa, antes de voltar correndo para o trabalho.
Então, no quintal, ouvem um alvoroço. A princípio, não souberam bem do que se tratava. Depois, ouviram o latido grave do cachorro. As galinhas, assustadas, cacarejavam. A matriarca, lacônica: “É aquele cachorro de novo”. Voltou a comer. Nem um minuto se passou e o fuzuê começou de novo no quintal. A matriarca, lacônica: “João, vai lá e dá um jeito naquele cachorro”.
João, calmamente, silenciosamente, mastigou a comida, engoliu, enfiou mais um bocado na boca e, inexpressivo, caminhou para o quintal. Chamou pelo cachorro, que logo atendeu, indo contente ao encontro do dono, abanando o rabo. Pela coleira, levou o imenso animal até o local em que ele ficava quando amarrado. Prendeu o cão e, inexpressivo, apanhou um pedaço de pau.
Começou a bater no cachorro. Os integrantes da família que estavam em casa lá continuaram. O bicho tentava se safar, mas as pancadas eram impiedosas e cheias de raiva. Quanto mais Rex tentava se safar, mais a raiva de João aumentava, não se importando onde o cachorro era atingido. A boca dele já estava sangrando.
No fundo da casa em que a família mora há uma fabriqueta. O espaço é alugado pela família. Dois dos funcionários da pequena fábrica, alarmados pelo desespero do cachorro, deixaram o trabalho e saíram, para ver o que acontecia. Assim que chegaram ao umbral que dava para fora, puderam ouvir a matriarca, que havia saído de casa e dava ordens: “Isso, João. Capricha. Agora quero ver se ele não aprende a não incomodar mais as galinhas”. O filho caprichava. O cachorro já não mais oferecia muita resistência. Cansado, resfolegando, perdera o ímpeto que tivera quando a surra começou. Aceitava as pancadas, que não cessavam, não mais tentando arrebentar a corda que o prendia. Seguindo o instinto, investira contra o dono, o que só fez com que este, colérico, com mais força batesse.
Os funcionários, vendo o estado em que o cão já estava, pensaram em intervir, certos de que o rapaz acabaria matando o viçoso Rex. Nisso, a mãe, ao ver que mais alguns filhos estavam também saindo de casa para ver o fato, mandou que um deles buscasse um porrete maior, para o qual ela apontara. O menino obedeceu. “Leva pro João”, disse ela. João apanhou o pedaço de pau maior e mais pesado e pareceu dobrar sua força. O cachorro já era só passividade. Os empregados, quando começaram a caminhar, receberam de outro dos irmãos a admoestação: “Para o bem de vocês, voltem pro trabalho”.
Suado, cansado, João tirou a camisa sob um sol de meio-dia que não dava trégua. Jogou no chão o pedaço de pau e passou a chutar Rex, que estava deitado, sangrando, de olhos fechados. “Isso é pra você aprender a não mexer mais com as galinhas. Toma!”. O cachorro não achava forças para se movimentar, mas era sacudido pelos golpes. João o pegou pelo pescoço, começou a enforcá-lo: “Vai mexer mais com as galinhas? Vai?”. Rex, inerte, abriu os olhos. João apanhou um pedaço de pau menor que estava por perto e o enfiou na boca do cachorro, empurrando-o o mais forte que podia pela goela do bicho. Ao deixar livre a boca do cachorro, acomodou as mãos na boca de Rex e começou a abri-la o máximo que conseguiu. Depois, o largou, lavou as mãos e foi comer mais um pouco.
Rex está morto.
By Lívio Soares
In: Anacrônico
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Se teu Fusca falasse'...
Capa da Playboy americana – confirmada para janeiro –, a atriz Lindíssima Lohan tira a roupa para pagar dívidas.
Viva o capitalismo!
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
O suplício de Damiens
[Damiens fora condenado, a 2 de março de 1757], a pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroça, na praça de Greve, e sobre um patíbulo que aí será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e às partes em que será atenazado aplicar-se-ão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento.
Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d'Amsterdam]. Essa última operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos à tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas...
Afirma-se que, embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador, nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios; apenas as dores excessivas faziam-no dar gritos horríveis, e muitas vezes repetia: "Meu Deus, tende piedade de mim; Jesus, socorrei-me". Os espectadores ficaram todos edificados com a solicitude do cura de Saint-Paul que, a despeito de sua idade avançada, não perdia nenhum momento para consolar o paciente.
[O comissário de polícia Bouton relata]: Acendeu-se o enxofre, mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. Depois, um executor, de mangas arregaçadas acima dos cotovelos, tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc, medindo cerca de um pé e meio de comprimento, atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita, depois a coxa, daí passando às duas partes da barriga do braço direito; em seguida os mamilos. Este executor, ainda que forte e robusto, teve grande dificuldade em arrancar os pedaços de carne que tirava em suas tenazes duas ou três vezes do mesmo lado ao torcer, e o que ele arrancava formava em cada parte uma chaga do tamanho de um escudo de seis libras.
Depois desses suplícios, Damiens, que gritava muito sem contudo blasfemar, levantava a cabeça e se olhava; o mesmo carrasco tirou com uma colher de ferro do caldeirão daquela droga fervente e derramou-a fartamente sobre cada ferida. Em seguida, com cordas menores se ataram as cordas destinadas a atrelar os cavalos, sendo estes atrelados a seguir a cada membro ao longo das coxas, das pernas e dos braços.
O senhor Lê Breton, escrivão, aproximou-se diversas vezes do paciente para lhe perguntar se tinha algo a dizer. Disse que não; nem é preciso dizer que ele gritava, com cada tortura, da forma como costumamos ver representados os condenados: "Perdão, meu Deus! Perdão, Senhor". Apesar de todos esses sofrimentos referidos acima, ele levantava de vez em quando a cabeça e se olhava com destemor. As cordas tão apertadas pelos homens que puxavam as extremidades faziam-no sofrer dores inexprimíveis. O senhor Lê Breton aproximou-se outra vez dele e perguntou-lhe se não queria dizer nada; disse que não. Achegaram-se vários confessores e lhe falaram demoradamente; beijava conformado o crucifixo que lhe apresentavam; estendia os lábios e dizia sempre: "Perdão, Senhor".
Os cavalos deram uma arrancada, puxando cada qual um membro em linha reta, cada cavalo segurado por um carrasco. Um quarto de hora mais tarde, a mesma cerimônia, e enfim, após várias tentativas, foi necessário fazer os cavalos puxar da seguinte forma: os do braço direito à cabeça, os das coxas voltando para o lado dos braços, fazendo-lhe romper os braços nas juntas. Esses arrancos foram repetidos várias vezes, sem resultado. Ele levantava a cabeça e se olhava. Foi necessário colocar dois cavalos, diante dos atrelados às coxas, totalizando seis cavalos. Mas sem resultado algum.
Enfim o carrasco Samson foi dizer ao senhor Lê Breton que não havia meio nem esperança de se conseguir e lhe disse que perguntasse às autoridades se desejavam que ele fosse cortado em pedaços. O senhor Lê Breton, de volta da cidade, deu ordem que se fizessem novos esforços, o que foi feito; mas os cavalos empacaram e um dos atrelados às coxas caiu na laje. Tendo voltado os confessores, falaram-lhe outra vez. Dizia-lhes ele (ouvi-o falar): "Beijem-me, reverendos". O senhor cura de Saint-Paul não teve coragem, mas o de Marsilly passou por baixo da corda do braço esquerdo e beijou-o na testa. Os carrascos se reuniram, e Damiens dizia-lhes que não blasfemassem, que cumprissem seu ofício, pois não lhes queria mal por isso; rogava-lhes que orassem a Deus por ele e recomendava ao cura de Saint-Paul que rezasse por ele na primeira missa.
Depois de duas ou três tentativas, o carrasco Samson e o que lhe havia atenazado tiraram cada qual do bolso uma faca e lhe cortaram as coxas na junção com o tronco do corpo; os quatro cavalos, colocando toda força, levaram-lhe as duas coxas de arrasto, isto é: a do lado direito por primeiro, e depois a outra; a seguir fizeram o mesmo com os braços, com as espáduas e axilas e as quatro partes; foi preciso cortar as carnes até quase aos ossos; os cavalos, puxando com toda força, arrebataram-lhe o braço direito primeiro e depois o outro.
Uma vez retiradas essas quatro partes, desceram os confessores para lhe falar; mas o carrasco informou-lhes que ele estava morto, embora, na verdade, eu visse que o homem se agitava, mexendo o maxilar inferior como se falasse. Um dos carrascos chegou mesmo a dizer pouco depois que, assim que eles levantaram o tronco para o lançar na fogueira, ele ainda estava vivo. Os quatro membros, uma vez soltos das cordas dos cavalos, foram lançados numa fogueira preparada no local sito em linha reta do patíbulo, depois o tronco e o resto foram cobertos de achas e gravetos de lenha, e se pôs fogo à palha ajuntada a essa lenha.
...Em cumprimento da sentença, tudo foi reduzido a cinzas. O último pedaço encontrado nas brasas só acabou de se consumir às dez e meia da noite. Os pedaços de carne e o tronco permaneceram cerca de quatro horas ardendo. Os oficiais, entre os quais me encontrava eu e meu filho, com alguns arqueiros formados em destacamento, permanecemos no local até mais ou menos onze horas.
Alguns pretendem tirar conclusões do fato de um cão se haver deitado no dia seguinte no lugar onde fora levantada a fogueira, voltando cada vez que era enxotado. Mas não é difícil compreender que esse animal achasse o lugar mais quente do que outro.
Michel Foucault
In: "Vigiar e punir: a história da violência nas prisões"
Tradução: Raquel Ramalhete
domingo, 16 de outubro de 2011
Eles, os sindicalistas, vistos por um sociólogo
Na década de 90, elas [Força Sindical e CUT] não passavam do mesmo lado da rua. Hoje, quem não é ministro quer uma secretaria no governo. Ambos estiveram na gestão Lula e agora estão na da Dilma. Isso mostra a capacidade que o Lula teve de cooptar no aparato de Estado uma parte importante da cúpula do sindicalismo brasileiro. Trouxe a Força Sindical, porque não é difícil trazer a Força Sindical para governo nenhum. E trouxe a CUT, porque a CUT tem relações ontogenéticas com o PT, são em certo sentido aparentados. Num governo petista, ainda que com tudo que está lá dentro, é evidente que a CUT se sente mais em casa do que se sentia no do PSDB.
***
A CUT é contra o imposto sindical, mas não o devolve. Aliás, uma das piores coisas do governo Lula, das mais nefastas, foi ter ampliado o imposto sindical para as centrais, coisa que nem o Getúlio ousou fazer. As centrais sindicais hoje têm uma fatia de dinheiro enorme, que vai para elas direto. A nenhum associado é perguntado se quer descontar esse imposto ou não. A única entidade sindical que não o aceita e, nesse ponto, é absolutamente coerente é a Conlutas. Ela diz que vai viver do pagamento autônomo dos associados. Porque, quando se vive de um recurso que o Estado arrecada e repassa, desvirtuou-se a autonomia.
***
O Lula é um dos casos mais bem-sucedidos da política brasileira do self-made man, daquele indivíduo que vai subindo as escadas e chega ao alto. Cada degrau da sua ascensão foi um valor que ele deixou para trás.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
sábado, 17 de setembro de 2011
terça-feira, 13 de setembro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Onze de Setembro: o relatório ilustrado

Os atentados do 11 de Setembro segundo o governo americano:
"The 9/11 report: a graphic adaptation".
Quadrinizado por Ernie Colón e Sid Jacobson.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
sábado, 6 de agosto de 2011
A instabilidade
O projeto do cientista era assombroso: deter a marcha do tempo para estudar uma estrela bem de perto, daqui a 27,5 milhões de anos. O plano funcionou perfeitamente. Só faltou um detalhe.
By Isaac Asimov
© COPYRIGHT OBSERVER SPECIAL FEATURES
In: Superinteressante nº 20, pp.40-41
Maio de 1989
By Isaac Asimov
© COPYRIGHT OBSERVER SPECIAL FEATURES
– A percepção do tempo depende da estrutura do Universo. Quando o Universo se expande, percebemos o tempo indo para a frente; caso contraísse, perceberíamos o tempo indo para trás. Se de alguma forma pudéssemos forçar o Universo a ficar estático, sem se expandir nem se contrair, o tempo permaneceria imóvel.
– Mas não se pode tornar o Universo estático – disse Mr. Atkins, fascinado.
– E no entanto eu posso tornar estática uma pequena porção do Universo – disse o professor. – Apenas o bastante para conter uma nave. O tempo deter-se-á e poderemos andar para a frente e para trás à vontade, e a viagem inteira vai durar menos que um instante. Mas todas as partes do Universo vão se mover enquanto ficarmos parados, fixados ao tecido do Universo. A Terra gira em volta do Sol, o Sol se move rumo ao centro da Galáxia, a Galáxia se desloca ao redor de um centro de gravidade – todas as galáxias se movem. Calculei esses movimentos e descobri que daqui a 27,5 milhões de anos uma estrela anã-vermelha irá ocupar a posição do nosso Sol hoje. Então, se avançarmos 27,5 milhões de anos no futuro, em menos de um instante a anã-vermelha estará perto de nossa nave espacial e nós poderemos voltar para casa depois de estudá-la.
Atkins disse:
– Será que isso é possível?
– Eu já enviei animais de laboratório através do tempo, mas não consigo fazer com que eles regressem automaticamente. Se você e eu formos, poderemos manipular os controles de modo a voltar.
– E você quer que eu vá junto?
– Claro. É preciso haver dois. É mais fácil acreditar em duas pessoas do que uma. Venha. Será uma aventura incrível!
* * *
Atkins inspecionou a nave. Era um modelo 2217 Glenn movido a fusão e parecia lindo.– Suponha – ele disse – que ela pouse dentro da anã-vermelha.
– Isso não acontecerá – disse o professor –, mas se acontecer é o risco que corremos.
– Mas, quando voltarmos, o Sol e a Terra terão se movido. Ficaremos no espaço.
– Claro, mas quanto o Sol e a Terra podem se mover nas poucas horas em que ficaremos observando a estrela? com esta nave alcançaremos nosso amado planeta. Está pronto, Mr. Atkins?
– Pronto – suspirou Atkins.
O professor Firebrenner fez os ajustes necessários e fixou a nave no tecido do Universo, enquanto 27,5 milhões de anos se passaram. E então, mais rápido que um relâmpago, o tempo começou a mover-se para a frente de novo, como sempre, e tudo no Universo moveu-se com ele...
Pela escotilha da nave, o professor Firebrenner e Mr. Atkins podiam ver a pequena esfera da estrela anã-vermelha. O professor sorriu.
– Você e eu, Atkins, somos os primeiros a ver de perto uma estrela que não é o nosso próprio Sol.
Eles ficaram ali duas horas e meia fotografando a estrela e seu espectro e tantas estrelas próximas quanto puderam. Fizeram ainda observações coronagráficas especiais, testaram a composição química do gás interestelar e então, com alguma relutância, o professor Firebrenner disse:
– Acho melhor a gente voltar agora.
* * *Novamente os controles foram ajustados e novamente a nave foi fixada ao tecido do Universo. Eles viajaram 27,5 milhões de anos rumo ao passado e, mais depressa que um relâmpago, estavam de volta ao local de partida.
O espaço estava negro. Não havia nada.
Atkins disse:
– Que aconteceu? Onde estão a Terra e o Sol?
O professor franziu a testa. Disse:
– Andar para trás no tempo deve ser diferente. O Universo inteiro deve ter-se movido.
– Para onde?
– Não sei. Outros objetos mudam de posição dentro do Universo, mas o Universo como um todo tem de mover-se numa determinada direção. Aqui estamos no vácuo absoluto, no Caos original.
– Mas nós estamos aqui. Não é mais o Caos original.– Exatamente. Isto quer dizer que introduzimos uma instabilidade neste lugar em que existimos, e isso quer dizer...
No mesmo instante em que ele disse "isso", uma Grande Explosão os aniquilou. Um novo Universo surgiu e começou a se expandir.
In: Superinteressante nº 20, pp.40-41
Maio de 1989
quinta-feira, 28 de julho de 2011
sábado, 16 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
Madeleine
* * *
E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedacinho de madeleine que minha tia Léonie me dava aos domingos pela manhã em Combray (porque nesse dia eu não saía antes da hora da missa), quando ia lhe dar bom-dia no seu quarto, depois de mergulhá-lo em sua infusão de chá ou de tília. A vista do pequeno biscoito não me recordara coisa alguma antes que o tivesse provado; talvez porque, tendo-o visto desde então, sem comer, nas prateleiras das confeitarias, sua imagem havia deixado aqueles dias de Combray para se ligar a outros mais recentes; talvez porque, dessas lembranças abandonadas há tanto fora da memória, nada sobrevivesse, tudo se houvesse desagregado; as formas – e também a da pequena conchinha de confeitaria, tão gordamente sensual sob as suas estrias severas e devotas – tinham sido abolidas, ou, atormentadas, haviam perdido a força de expansão que lhes teria permitido alcançar a consciência. Mas, quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações.
E logo que reconheci o gosto do pedaço da madeleine mergulhado no chá que me dava minha tia (embora não soubesse ainda e devesse deixar para bem mais tarde a descoberta de porque essa lembrança me fazia tão feliz), logo a velha casa cinzenta que dava para a rua, onde estava o quarto dela, veio como um cenário de teatro se colar ao pequeno pavilhão, que dava para o jardim, construído pela família nos fundos (o lanço truncado que era o único que recordara até então); e com a casa, a cidade, da manhã à noite e em todos os tempos, a praça para onde me mandavam antes do almoço, as ruas aonde eu ia correr, os caminhos por onde se passeava quando fazia bom tempo. E como nesse jogo em que os japoneses se divertem mergulhando numa bacia de porcelana cheia de água pequeninos pedaços de papel até então indistintos que, mal são mergulhados, se estiram, se contorcem, se colorem, se diferenciam, tornando-se flores, casas, pessoas consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque do Sr. Swann, e as ninféias do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas residências, e a igreja, e toda Combray e suas redondezas, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha xícara de chá.
Marcel Proust, in "No caminho de Swann" (Ediouro, pp.52-53)
(Ilustração: Lívio Soares)
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