quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Duília

Debruçado à janela, José Maria olhava para a cidade embaixo e achava a vida triste. Saíra na véspera o decreto de aposentadoria. À medida que os meses passavam, foi tomando horror à expressão "funcionário público aposentado", que lhe cheirava a atestado de óbito.
 
O melhor mesmo era ficar debruçado à janela. E todas as manhãs, enquanto a criada abria a meio as venezianas para deixar sair a poeira da arrumação, José Maria as escancarava para fazer entrar a paisagem. Dali devassava recantos desconhecidos. Ilhas que jamais suspeitara. Acompanhava a evolução das nuvens, começava a distinguir as mutações da luz no céu e sobre as águas. Notava que tinha progredido alguma coisa na percepção dos fenômenos naturais. Começava a sentir realmente a paisagem. E se considerava quase livre da uréia burocrática. Esse noivado tardio com a natureza fê-lo voltar às impressões da adolescência. Duília!
 
Reviu-se na cidade natal com apenas dezesseis anos de idade, a acompanhar a procissão que ela seguia cantando. Foi nessa festa da igreja, num fim de tarde, que tivera a grande revelação. Passou a praticar com mais assiduidade a janela. Quanto mais o fazia, mais as colinas da outra margem lhe recordavam a presença corporal da moça. Às vezes chegava a dormir com a sensação de ter deixado a cabeça pousada no colo dela. As colinas se transformavam em seios de Duília. Espantava-se da metamorfose, mas se comprazia na evocação.
 
Era o aforamento súbito da namorada, seus seios reluzindo na memória como duas gemas no fundo d'água. Só agora se dava conta de que, sem querer, transferira para Adélia a imagem remota. Mas Adélia não podia perceber que era apenas a projeção da outra.

Fazia uma tarde bonita. Pela primeira vez Zé Maria achara agradável estar na rua. Mulheres sorrindo, vitrinas iluminadas. Parecia que a cidade, à última hora, caprichava em exibir-lhe alguns de seus encantos. Assim procede a mulher indiferente, ao ver partir o homem a quem fez sofrer.

* * * *
 
A Rancharia é pouso forçado para quem atravessou ou vai atravessar a Cordilheira. Reconheceu-a de longe o viajante, pelo pé de tamarindo. O mesmo de sempre. O pernoite ali, enquanto os animais recebiam ração mais forte de sal e capim, ia permitir ao metódico funcionário a recuperação das forças exaundas. Viagem violenta demais para um sedentário. Ficara-lhe nos ouvidos o Paraúna com o barulho de suas águas. Não era o desconforto da cama nem a pobreza do aposento que lhe tiravam o sono; nem o latido dos cães, nem o relinchar dos burros; nem uma sanfona triste que parecia exprimir toda a solidão lá fora: era o fato de se achar mais perto, dentro quase daquilo que não precisava mais evocar para sentir. Mais algumas léguas e tocaria o núcleo de seu sonho.
 
O que mais o espantara no gesto de Duília - recordava-se José Maria durante a insônia, agarrando-se ao travesseiro - foi a gratuidade inexplicável e a absurda pureza. Ela era moça recatada, ele um rapazinho tímido; apenas se namoravam de longe. Mal se conheciam. A procissão subia a ladeira, o canto místico perdia-se no céu de estrelas. De repente, o séquito parou para que as virgens avançassem, e na penumbra de uma árvore, ela dá com o olhar dele fixo em seu colo, parece que teve pena e, com simplicidade, abrindo a blusa, lhe disse:
   - Quer ver? - Ele quase morre de êxtase. Pálidos ambos, ela ainda repete:
   - Quer ver mais? - E mostra-lhe o outro seio branco, branco... E fechou calmamente a blusa. E prosseguiu cantando... Só isso. Durou alguns segundos, está durando uma eternidade. Apenas uma vez, depois do acontecimento, avistara Duília.
 
Daqui a pouco vem o Chapadão, avisou Soero. Era o trecho mais imponente e difícil no acesso à região de Duília. Por ali transitara há mais de quatro decênios, fazia uma noite escura, só pelos relâmpagos podia suspeitar o panorama irreal que se desdobrava de dia. Ia então fazer os preparatórios em Ouro Preto, e caminhava cheio de medo para o Futuro; seu pai e um caixeiro-viajante o acompanharam até a primeira estação da Estrada de Ferro. Láo puseram no carro. Foi quando começou a ficar só no mundo, e pela primeira vez chorou o choro da tristeza.
 
* * * *
 
Num córrego de águas frescas, os animais desarreados mataram a sede. Os dois homens jantaram o que traziam nos bornais. Os couros Foram novamente estendidos. José Maria, amedrontado, perguntou a Soero se havia onças por ali. O camarada tranqüilizou-o. Enquanto para este era aquela uma noite de rotina, para o velho funcionário repetia-se, a céu descoberto, a aventura excitante das margens do Paraúna. Doíam-lhe tanto os membros e era tal o cansaço, que já não podia contemplar por muito tempo as estrelas que cintilavam pertinho. Mergulhou no sono pesado. Às onze horas do dia seguinte, entrava no Arraial do Camilinho. Aí se dispunha a refazer as energias para a etapa final. Tudo o que vinha percorrendo já era país de Duília.

Mais seis horas e estaria naquela cidadezinha, face a face com a mulher sonhada. Não imaginava agora fosse tão fácil aproximar-se do que tão longe lhe parecera no tempo ou no espaço. Detinha o burro a cada momento; olhava, hesitava. Nem mesmo se inquietara com a nuvem de chuva que vinha avançando do nordeste. Soero estranhou a indiferença do patrão. O aguaceiro caiu, molhou a ambos. José Maria tinha medo de chegar.

Passou a chuva, veio o sol, borboletas voejavam sobre a lama recente. E Pouso Triste se aproximando... perfil de colinas conhecidas... o riacho cristalino com um último faiscador... o sítio do Janjão. Agora, o cemitério onde dormem os seus pais... "Estarei sonhando?"
    - Pouso Triste!
Olhou confrangido. Era então aquilo!... E a cidade? Trazia na memória a visão de uma cidade: surgiu-lhe um arraial!... Pobre e inaceitável burgo, todo triste e molhado de chuva!... Foi descendo devagar. Passou em frente à igreja, entrou na praça vazia. Fantasmas desdentados conversavam à porta da venda.

Timidamente, pediu notícias à dona da pensão. A velha fez um esforço de memória. E tal como o passageiro da "jardineira", respondeu: 
   - Duília?... Dona Dudu, não é? Uma viúva? Ah! sumiu daqui já faz tempo. Ouvi dizer que está de professora no Monjolo. Ainda que mal lhe pergunte, vosmecê é parente dela? 
   - Não, disse José Maria. E para desarmar a curiosidade da velha:
   - Trago-lhe umas encomendas.
Deixou passar alguns instantes. Perguntou por perguntar:
   - Sabe dizer se tem filhos?
   - Filhos? Um horror de netos!... Que Deus me perdoe, o marido era uma peste.
Não quis saber do resto.
 
* * * *
 
Monjolo se anunciava por um som de sanfona que parecia o gemido constante do fundo do Brasil. Foi surgindo pela frente um arraial ainda menor e mais pobre que Pouso Triste. Os urubus não freqüentavam o céu, quase se deixavam pisar pelas patas da alimária. José Maria engoliu um soluço. Tomados de espanto, os poucos moradores espiavam o estrangeiro. O letreiro "Escola Rural" aparecia em tinta esmaecida. Uma casinha modesta, com chiqueiro no porão. A sala de espera limpa, com gravuras de santos enfeitados de flores de papel, e que tanto servia à Escola como à residência, nos fundos. As carteiras escolares estavam quebradas. O viajante apeou-se, bateu à porta. Uma senhora, muito pálida, veio atendê-lo em chinelos.
   - Eu queria falar com Duília... Dona Duília... corrigiu.

A senhora fê-lo entrar e sentar-se. Pediu licença, deixou a sala. Momentos depois, voltou mais arrumada. Seus cabelos eram grisalhos, a voz meio rouca, o sorriso agradável, apesar dos dentes cariados. Ainda não tinha sessenta anos, e aparentava mais.
   - A senhora também é professora?
Duas crianças gritaram da porta:
   - Dona Dudu! Dona Dudu!
Ela respondeu:
   - Vão brincar lá fora. E virando-se para o estranho:
   - Não se pode ficar sossegada um minuto. Esses meninos acabam com a gente.

José Maria sentiu como que uma pancada na nuca. Baixou as pálpebras, confuso. A professora ficou esperando que ele se identificasse. Notou-lhe a fisionomia alterada, um começo de vertigem.
   - Está-se sentindo mal?
Saiu e voltou com um copo d'água.
   - Não foi nada. O cansaço da viagem. Já passou.
Olhava para ela estarrecido. A mulher, aflita por que o desconhecido desse o nome.
   - Veio a passeio, não é?
   - Não. Não vim propriamente a passeio...
   - Um lugar tão distante... Ultimamente as jazidas têm atraído muitos estrangeiros para cá.
   - Eu não sou estrangeiro - respondeu o visitante. Sou brasileiro... E daqui... de bem perto daqui. Sou também de Pouso Triste...

Uma expressão de surpresa e simpatia clareou o rosto da professora. José Maria encarou-a com dolorosa intensidade. Subitamente empalideceu. Chegara o momento culminante. Fechou os olhos como se não quisesse ver o efeito das próprias palavras. A professora pressentiu que algo de grave trouxera até ali o sombrio visitante. Atordoada, esperou. José Maria principiou a falar:
   - Lembra-se de um rapazinho, há muitos anos, que a viu numa procissão?
A mulher abriu os olhos.
   - Nós tínhanos parado debaixo de uma árvore... lembra-se? Ela ainda está lá... não morreu. Eu olhava como um louco para você, Duília...
Ao ouvir pronunciar seu nome com intimidade cúmplice, a professora teve um arrepio. O homem não sabia como continuar. Hesitou um momento.
   - Depois... depois eu larguei Pouso Triste. Nunca mais me esqueci. E só agora...

Parou no meio da frase. Tremia-lhe o queixo. A mulher, assustada, reconhecera nele o rapazinho de outrora. Fitou-o longamente. Passou-lhe pelo rosto um lampejo de mocidade. Volvendo a cabeça para o chão, enrubesceu com quarenta anos de atraso...
 
* * * *
 
Quedaram-se por alguns momentos. O vazio do mundo pesava sobre o sossego do povoado. Grunhiam os porcos embaixo. Um cheiro de lavagem e de goiaba madura entrava pela janela, e parecia a exalação do passado. José Maria suspirou fundo. Aquela mulher, flor de poesia, era agora aquilo! Fantasma da outra, ruína de Duília... Dona Duília... Dudu! A mulher interrompeu a longa pausa:
   - Tudo aqui envelheceu tanto! disse, erguendo a cabeça. Que veio fazer nesse fim de mundo, seu José Maria?
Ouvindo-a por sua vez pronunciar-lhe o nome, sentiu-se José Maria menos distante dela. Parecia que davam juntos o mesmo salto no tempo.
   - Vim à procura de meu passado, respondeu.
   - Viajar tão longe para se encontrar com uma sombra!
E volvendo-se para si mesma:
   - Veja a que fiquei reduzida.
José Maria pousou o olhar no colo murcho, local do memorável acontecimento. Aquilo que ali estava poderia ser a mãe de Duília, da Duília que ele trazia na memória, jamais a própria.
   - Não devia ter feito isso, advertiu a mulher, como que despertando da profunda cisma.
   - O quê?
   - Voltar ao lugar das primeiras ilusões.
"Sim, é verdade", pensou o homem, não devia ter vindo. O melhor de seu passado não estava ali, estava dentro dele. A distância alimenta o sonho. Enganara-se. Tal como Fernão Dias com as esmeraldas...
 
* * * *
 
Ante o silêncio sombrio do visitante, a professora teve medo. Procurou aliviar-lhe o desespero contido.
   - Vai voltar para o Rio?
Ao ouvir a voz mansa, José Maria enterneceu-se. Sentia-lhe no timbre a ressonância musical da antiga. Sentou-se de novo; e fechando o rosto com as mãos, caiu no pranto. Achou-se ridículo, pediu desculpas. Duília, compassiva, tomou-lhe a mão, procurou consolá-lo. Um sentimento comum aproximava-os. Espantou-se a professora ao se dar conta do que estava fazendo: dar a mão ao quase desconhecido de há pouco. Por longo tempo, as duas mãos enrugadas se aqueceram uma na outra. Mudos, transidos de emoção, ambos cerraram os olhos. Duas sombras dentro da sala triste... O homem não se conteve. Ergueu-se, saiu precipitadamente. A professora correu atrás:
   - José Maria! Senhor José Maria!...
A voz rouca mais parecia soluço do que apelo.
   - José Maria!
Os moradores se alvoroçaram:
   - O que terá havido com a professora?
   - Foi depois que chegou aquele estrangeiro alto!
   - Quem será esse indivíduo?
 
E já se preparavam para perseguir o intruso, munindo-se de pedras e pedaços de pau. Mas o desconhecido desapareceu na escuridão. Parada no meio do largo, Duília arquejava. Ninguém lhe ouvia mais a voz nem lhe distinguia o vulto. Alguns soluços cortaram a treva.
 
By Aníbal Machado 
 

sábado, 27 de outubro de 2012

domingo, 14 de outubro de 2012

VLC versão 2.0.3


O player famoso por tocar absolutamente tudo agora é compatível com formatos HD e possui suporte à aceleração gráfica.

http://www.baixaki.com.br/download/vlc-media-player.htm

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Estado são eles

 


Os ministros do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, [...] dois advogados medíocres, cultivados à sombra do poder petista para chegar onde chegaram, [...] possivelmente seja o primeiro caso comprovado de juízes de laboratório.
 
Alguns inocentes chegaram a acreditar que Dias Toffoli se declararia impedido de votar no processo do mensalão, por ter advogado para o PT durante anos a fio. Participar do julgamento seria muita cara de pau, dizia-se nos bastidores. Ora, essa é justamente a especialidade da casa.
 
[...] Quando se deu o escândalo do mensalão, Dias Toffoli era nada menos do que subchefe da assessoria jurídica de José Dirceu na Casa Civil. Os empréstimos fictícios e contratos fantasmas pilotados por Marcos Valério [...] eram coordenados exatamente da Casa Civil. O ministro está julgando um processo no qual poderia até ser réu.
 
[...] Seria coincidência, ou esses funcionários da revolução têm como pré-requisito a mediocridade?
 
Como se sabe, antes da varinha de condão de Dirceu, Dias Toffoli tentou ser juiz duas vezes em São Paulo e foi reprovado em ambas. Aí sua veia revolucionária foi descoberta e ele não precisou mais entrar em concursos. [...] Graças ao petismo, Toffoli foi ser procurador no Amapá, e depois de advogar em campanhas eleitorais do partido alçou voo à Advocacia-Geral da União. É claro que uma carreira brilhante dessas tinha que acabar no Supremo Tribunal Federal.
 
O advogado Lewandowski vivia de empregos na máquina municipal de São Bernardo do Campo. Aqui, um parêntese: está provado que as máquinas administrativas loteadas politicamente têm o poder de transformar militantes medíocres em grandes personalidades nacionais – como comprova a carreira igualmente impressionante de Dilma Rousseff. Lewandowski virou juiz com uma mãozinha do doutor Márcio Thomaz Bastos, ex-advogado de Carlinhos Cachoeira, que enxergou o potencial do amigo da família de Marisa Letícia, esposa do bacharel Luiz Inácio.
 
Desembargador obscuro, sem nenhum acórdão digno de citação em processos relevantes, Lewandowski reuniu portanto as credenciais exatas para ocupar uma cadeira na mais alta esfera da Justiça brasileira.
 
Suas diversas manobras para tumultuar o julgamento do mensalão enchem de orgulho seus padrinhos. A estratégia de fuzilar o cachorro morto Marcos Valério, para depois parecer independente ao inocentar o mensaleiro João Paulo, certamente passará à antologia do Supremo – como um marco da nova Justiça com prótese partidária.
 
Guilherme Fiuza
In: "Batman e Robin em ação no Supremo". Época, ed. 747, p.16.

sábado, 8 de setembro de 2012

Personagens que mudaram o mundo

Aconteceu quando estava autografando livros. Uma negra de meia-idade aproximou-se e perguntou:

–Você é Martin Luther King?

–Sim, sou eu.

Uma simples e polida troca de palavras; com resultados estarrecedores. A mulher deu um grito e cravou-lhe no peito um abridor de cartas.

Martin Luther King foi levado às pressas ao hospital. Depois de uma longa espera, a lâmina foi removida cirurgicamente. Com muita paciência, havia obedecido às enfermeiras e permanecera absolutamente parado, apesar das dores, pois o corte provocado pela lâmina alcançara uma fração de centímetro de uma artéria principal. O médico disse, depois da crise, que um mero espirro poderia tê-lo matado.

O incidente foi divulgado pelos jornais e Luther King ficou particularmente agradecido ao ler uma carta escrita a ele por uma jovem de quinze anos.

"Caro doutor King.
"Sou aluna da nona série da escola secundária de White Plains. Embora não tenha importância, gostaria de mencionar que sou uma garota branca. Li no jornal sobre seu infortúnio e seu sofrimento e que, se você espirrasse, teria morrido.
"Escrevo simplesmente para lhe dizer que estou muito contente por você não ter espirrado."

Valerie Schloredt e Pam Brown
In: "Personagens que mudaram o mundo: os grandes humanistas."

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Charge

By Nate Beeler
"The Columbus Dispatch"

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Destaque internacional

O jornal americano The New York Times (5/8) dedicou a capa de sua edição com uma matéria sobre a busca pela verdade da violência política da ditadura militar brasileira (1964-1985) e a figura da presidente Dilma Rousseff, informou o portal Terra.
"NYT" destacou busca do Brasil pela verdade sobre torturas na ditadura

Assinada pelo jornalista Simon Romero, "A tortura da líder nos anos 70 agita fantasmas no Brasil" relata a história de Dilma falando da oposicionista torturada na juventude à presidente.

O texto destaca a discrição com que a presidente trata o assunto. "[Dilma] recusou-se a desempenhar o papel de vítima quando sutilmente pressiona por maior transparência [dos fatos ocorridos] nos anos da ditadura militar brasileira", diz trecho da matéria.
Fonte: Portal Imprensa

Leia também

sábado, 4 de agosto de 2012

Rock of Ages - O Filme



Em 1987, o rock agoniza nas mãos de astros entupidos de uísque, sexo, anfetaminas e falta de motivação, como Stacee Jaxx (Tom Cruise), vocalista do Arsenal. As boys band estão em alta, a música virou só um grande negócio. Os rock stars só conseguem cantar ainda em porões infectos, como o do Bourbon Room, em Los Angeles, outrora grandioso (uma espécie de CBGB do B). O próprio proprietário do clube, Dennis Dupree (Alec Baldwin) agoniza, enfrentando os impostos em atraso e a Liga das Senhoras Católicas local, encabeçada pela primeira-dama Patricia Whitmore (Catherine Zeta-Jones).
Mas o núcleo do musical importa pouco. O filme é um veículo para uma performance memorável de Tom Cruise. A entrevista que seu personagem, Stacee Jaxx, concede para uma repórter da revista Rolling Stone (Malin Akerman, em seu momento Paris Hilton definitivo), no filme, é um tratado da demência no star system. É a mais engraçada caricatura de um rock star em muitos anos de cinema. E, desde "Grease", o rock não tinha um filme tão expressivo como retrato de um período da música e da cultura populares.
Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

domingo, 8 de julho de 2012

A corporação


"Dilbert"
By Scott Adams

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Watchmen: ano um


Abaixo, linque para download da primeira edição da polêmica minissérie lançada hoje nos EUA (clique em "low speed download" e aguarde a contagem regressivade 30 segundos):

Before Watchmen - The Minutemen (vol. 01)

Algumas revistarias boicotarão a venda em apoio ao cocriador dos personagens, Alan Moore, que alega usurpação do clássico original, "Watchmen", a obra do gênero mais vendida de todos os tempos e única HQ a figurar na lista dos 100 maiores livros do século 20, da revista "Time".

sábado, 26 de maio de 2012

Pobre menina




Talvez o desabafo seja o ponto final de uma demorada e penosa trajetória. Muitas vezes, vítimas de abuso só conseguem falar abertamente sobre o que aconteceu quando sublimam, de alguma forma, a violência. Este parece ser o caso de Xuxa. As feridas, que impedem pensar uma vida amorosa, ainda estão expostas.
O primeiro sinal deveria ser percebido no lar. A criança muda de comportamento com alguma pessoa. Pode também aumentar a agressividade ou, ao contrário, o isolamento. Geralmente, o molestador é conhecido.
Pensemos nos milhares de crianças que estão sendo abusadas – e que tal exposição propiciou que isso viesse à tona. As denúncias cresceram 30% após o depoimento. Xuxa, que se conecta com crianças, ajudou-as e a seus pais ao falar de forma tão pessoal de um tema tabu. 

Marta Suplicy, hoje, na "Folha"  (com adaptações).

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Estadão disponibiliza acervo integral na internete



O jornal "O Estado de S. Paulo" (originalmente, "A Provincia de São Paulo") disponibiliza a partir de hoje todas as suas edições. São mais de 2 milhões de páginas abrangendo três séculos de história, entre as quais se destacam a Abolição da Escravatura, a cobertura da Revolta de Canudos feita por Euclides da Cunha e as matérias originais censuradas pela Ditadura.

Acesse gratuitamente: acervo.estadao.com.br

domingo, 13 de maio de 2012

Gênio do mal

Advogado criminal nascido e criado em Patos de Minas faz fortuna em Brasília defendendo políticos denunciados por corrupção


ELE CONQUISTOU FAMA E MUITOS MILHÕES DE DÓLARES utilizando informações privilegiadas e se especializando em salvar o couro de colarinhos-branco, notadamente os do Distrito Federal. O perfil do criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, vulgo "Kakay", foi o destaque da revista Piauí de novembro, cuja capa remete a usurários e publicanos da Idade Média.

Ele é membro de família tradicional de Patos de Minas e sobrinho do glorioso Altino Caixeta de Castro. A mídia local não repercutiu a notícia, enviada a este colunista por um leitor.

"O entrevistado, inclusive, é meu parente, mas o que me chamou a atenção foi a arrogância, e, aparentemente, os métodos nada ortodoxos do fulano para 'se dar bem' na profissão. Como pode alguém se orgulhar de pessoas como José Sarney, ACM etc. a ponto de ter quadros seus (deles) pendurados na parede?"

O fato de os expedientes "nada ortodoxos" citados pelo prezado leitor baterem de frente com o Estatuto da Ordem não impede que o profissional seja promovido em publicações financiadas pela instituição.

* * * *

Antônio Carlos também está no centro do mais recente escândalo nacional: o suposto envolvimento de seu cliente, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), na rede de jogos ilícitos investigada pela Operação Monte Carlo, da Polícia Federal.

“O caso, juridicamente, é simples, esse inquérito não tem como prosseguir”, declarou na semana passada, dois dias antes de o parlamentar renunciar à sigla e evitar sua expulsão do partido. “Há que se investigar o Ministério Público que durante três anos o gravou ilegalmente e há que se investigar por que o juiz determinou que ele fosse gravado durante três anos.”

A inconstitucionalidade dos grampos telefônicos por longos períodos foi tópico de palestra ministrada por Antônio Carlos a estudantes do curso de direito do Unipam, em 2010 (“O advogado criminal no Estado de Direito”), quando discorreu mais sobre os telefonemas que recebe de chefes e ministros de Estado, dentre outras autoridades, do que propriamente sobre escutas clandestinas.

Talentoso, imoral e exibicionista, Antônio Carlos se gaba de pagar quarenta mil reais em um único jantar e de ter roupa de cama personalizada com suas iniciais no Emiliano, referência em “hospitalidade de luxo". Todas as suas causas têm origem em sua rede de influência.

Abaixo, trechos da reportagem de Daniela Pinheiro.

* Ao longo dos anos, de fato, Kakay desenvolveu um acurado canal de comunicação com a mídia. Fala com colunistas, repórteres, diretores de redação e patrões, a quem municia com informações que interessam a eles e a si próprio. Quando precisa se posicionar publicamente sobre um caso, pede que o entrevistem ou que publiquem seus artigos, no que quase sempre é atendido.

* Em três semanas, Kakay publicara três artigos (na Folha, n’O Globo e n’O Estado de S. Paulo), participara de quatro programas de televisão, falara no Jornal Nacional, aparecera na capa de um jornal da OAB.

* Recentemente, Kakay comprou um cemitério em Belo Horizonte. Explicou por quê: “É o melhor investimento para retorno imobiliário hoje. Você compra em alqueire e vende a terra em palmos.” Um amigo arrisca que seu patrimônio ultrapasse 100 milhões de reais.

* Com uma porta de quase 7 metros de altura em madeira de demolição, e a enorme escultura de um rinoceronte na entrada, a casa de Kakay tem 1 500 metros quadrados e três pavimentos. Uma vez, um amigo paulista que o visitava ficou encantado com o clube que admirava da varanda. “Clube? É meu quintal!”, respondeu Kakay. Quando a área, no Lago Sul, era um terreno baldio, ele soube de antemão que o projeto de uma ponte vizinha fora aprovado. Arrematou o terreno por uma pechincha.

* Além da casa em Brasília, tem um apartamento de 400 metros quadrados de frente para o mar, em Ipanema, outros imóveis e participação em várias empresas. Dentre elas, há uma firma especializada na instalação de lombadas eletrônicas e radares de trânsito – com contratos com o governo federal – e a Divitex, responsável pela construção de um loteamento no sítio do Pericumã, em Brasília. Seu sócio na empresa, José Sarney, costumava passar ali os finais de semana.

* No primeiro governo Lula, o banqueiro Daniel Dantas envolveu-se numa briga de morte pelo naco mais lucrativo da telefonia, chegando a contratar a empresa de espionagem Kroll. A certa altura, chamou Kakay. A Polícia Federal fez uma batida no escritório do banqueiro e descobriu uma nota fiscal de 8 milhões de reais, relativos aos honorários do advogado. Outros dois advogados de Dantas no caso ganharam, respectivamente, 1 milhão e 3 milhões de reais. Especulou-se que Kakay encaminharia o excedente da remuneração que recebeu à cúpula do PT.

Clique AQUI para conferir o texto na íntegra.
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Outras páginas do autor: duck city fakebook / post script epitaphius / ombudsboy / portfolio

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Constituição e Código Civil em áudio para download


Dica para concurseiros: baixe na Biblioteca Digital do Senado Federal a Constituição da República (atualizada até a Emenda 66) e o Código Civil Brasileiro, dentre outras normas, no formato mp3, pra você ouvir no trajeto até o trabalho ou durante atividades físicas.

(Altamente recomendado também pra quem sofre de insônia. Resultado 100% garantido)

domingo, 22 de abril de 2012

A corporação




"Dilbert"
By Scott Adams

sábado, 14 de abril de 2012

O comentarista Positivo


Tião Abatia, Tim Tim e Jonas Silva, o “Joanas”
Na década de 80, as equipes do Paranaíba da Vila Operária e do Clube Atlético Olaria travavam grandes clássicos pelo Campeonato Amador da Liga Patense de Desportos. Na época, eu estava começando minha carreira de repórter esportivo.

Em uma tarde de sábado, embarcamos na velha Brasília da Rádio Clube de Patos e descemos até o Campo do Peixe para transmitir um jogo entre os dois times. Jonas Silva era o narrador, o comentarista era Sólon Pereira, eu trabalhava como repórter de campo, o zeloso Antônio Carlos Tim Tim era o responsável pela ligação dos equipamentos e também o piloto da viatura. (...)

Entretanto, quando o Sólon ia falar o nome do nosso narrador, eu não sei o que ele aprontava, mas sempre acrescentava a letra “a” no meio da palavra, de modo que Jonas virava “Joanas”.

– O jogo está muito disputado no meio-campo, o Olaria encontra dificuldade para armar sua grande jogada com Branco pelo lado esquerdo. O setor está muito bem marcado pelo João Bandeja. Certo, JOANAS?

E o Garotinho já estava implicado com o fato de o comentarista falar seu nome errado e respondeu:

– Certo não, Sólon, meu nome não é JOANAS, meu nome é JONAS.

Seguiram-se mais uns quatro ou cinco comentários no primeiro tempo. E em todos, o Positivo encerrava seu raciocínio com a pergunta: “Está certo, JOANAS?”. E ele sempre fazia a correção e explicava que seu nome não era JOANAS, mas JONAS. Até que o árbitro Pedro Dias Cardoso, o Bolero, trilhou seu apito e encerrou a primeira etapa. Entrei no campo, fiz algumas entrevistas com os craques do jogo e retornei o comando da jornada para o narrador.

Geralmente, dos 15 minutos do intervalo de uma partida de futebol, pelo menos 10 eram reservados para o comentarista fazer uma análise geral do desempenho dos times, dos atletas e até do árbitro. Mas, naquele dia, o locutor esportivo resolveu quebrar a escrita. Antes de anunciar os comentários intermediários, ele decidiu ensinar o Sólon a falar o seu nome corretamente. Ficamos eu, Tim Tim e Walico encostados no alambrado observando e nos divertindo com a aula radiofônica:

– Não tem erro, são só duas sílabas: JO-NAS. Veja bem, não é JO-ANAS, é JO-NAS. Repita comigo: JO-NAS.

Ao que o Sólon respondia:

– JO-A-NAS.

– Não é JO-A-NAS. É JO-NAS.

E o comentarista insistia:

– JO-A-NAS, JO-A-NAS, JO-A-NAS.

E o outro corrigia:

– JO-NAS, JO-NAS, JO-NAS.

Repetiram o exercício fonético umas trinta ou quarenta vezes até que finalmente o esforçado aluno passou a soletrar: “JO-NAS, JO-NAS, JONAS”. Satisfeito com o seu nome sendo pronunciado de forma correta, o narrador aplaudiu o colega e anunciou a análise do primeiro tempo do jogo.

– Comos senhores, o “comentarista Positivo”.

O Zé de Pádua, o famoso Zé do Céu, acionou a velha cartucheira de rolo na técnica central e a vinheta ecoou nas ondas da Rádio Clube: SÓLON PEREIRA. E aí o Sólon começou:

– Tivemos um primeiro tempo bastante disputado aqui na Vila Operária, meu caro JO-A-NAS.

Naquele momento, o Jonas já havia deixado o fone e o microfone sobre a mesa e se preparava para chupar um picolé. Mas quando ouviu o seu nome ser falado errado mais uma vez, ele pegou novamente o microfone e deu uma bronca bem-humorada:

– Olha, Sólon, faz uma hora que estou ensinando você a falar meu nome e você vem de novo com essa história de JO-A-NAS. Olha, eu tô achando que é mais fácil eu ir lá no Cartório e pedir pra mudar o meu nome do que você aprender a falar JONAS. Alô, Biezinho, vá preparando a papelada que amanhã eu passo aí pra mudar meu nome.

Biezinho é o dono do Cartório lá em Carmo do Paranaíba. Naquela altura eu, Walico e Tim Tim estávamos às gargalhadas na beira do campo. O Sólon coçou o bigode com o polegar e o indicador e deu uma piscadinha em nossa direção. Até hoje eu não sei se ele fazia aquilo de sacanagem.

Adamar Gomes
In: “Radio Clube: setenta anos e suas histórias”

sábado, 24 de março de 2012

Moebius

Heróis Marvel e DC no traço singular do artista francês Jean Giraud, morto na semana passada.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012