Jornal Daqui (S. Gotardo/MG)
domingo, 19 de maio de 2019
segunda-feira, 15 de abril de 2019
sábado, 13 de abril de 2019
quarta-feira, 10 de abril de 2019
A primeira impressão
Não havia nada que a professora Shari Wilson desejasse mais do que uma noite selvagem com o vizinho do andar de baixo, o jornalista Luke Lawson...
Shari Wilson queria dar um beijo no carteiro
atrapalhado que entregava diariamente a correspondência no antigo edifício de
um bairro de Seattle, onde ela morava. Ele havia confundido pacotes mais uma
vez.
Entre as cartas endereçadas a ela, do apartamento
325, havia um envelope pardo para "L. Lawson", do apartamento 235. Agora, Shari
tinha uma nova desculpa para ver o gatão do Luke Lawson. Abraçou a encomenda,
como uma adolescente apaixonada.
Bem, na verdade, era uma professora apaixonada. O
vizinho do andar de baixo a fazia estremecer. Devia ser aquela combinação
infalível do sorriso irresistível com o corpo escultural e os olhos verdes
brilhantes e langorosos que a deixavam sem fôlego.
Havia muitos meses que o carteiro confundia os
números de seus apartamentos e entregava-lhe correspondência de Luke. Em todas
as vezes, percebera que as cartas, sem exceção, eram endereçadas apenas a ele.
Também não notou qualquer sinal de mulher nas ocasiões em que tinha ido ao
apartamento dele entregar as cartas. Parecia lógico deduzir que o rapaz era
solteiro.
Da mesma forma que ela.
Só de pensar em revê-lo, Shari sentiu um calorão
passar pelo corpo. O destino, personificado na figura do carteiro, os havia
unido repetidas vezes e a atração física fora imediata e mútua, pensou. Nas
últimas vezes, Luke a recebera na porta cheio de entusiasmo e com um olhar tão
sedutor e penetrante que dava a impressão de que os dois tinham acabado de fazer
amor. Ah, o poder que aqueles olhos exerciam sobre uma mulher!
Então, por que, apesar dos olhares provocadores
que trocavam nas rápidas e esporádicas visitas, Luke nunca tentava algo mais
ousado? Ou fazia alguma tentativa para conhecê-la melhor?
Shari mordeu os lábios, ao passar direto pelo
elevador e subir as escadas até o apartamento dele. Será que ele era tímido ou
estava inseguro quanto aos sentimentos dela ou suspeitava que ela não fosse
solteira?
Talvez fosse o momento de tomar a iniciativa e acabar
com qualquer dúvida que pudesse existir. Tinha que deixar claro que estava
completamente desimpedida e caidinha por ele.
A única forma de tirar aquela história a limpo
seria convidando Luke para sair. Nada muito íntimo, um cineminha e depois uma
pizza ou algo do gênero. Apenas um encontro sem compromisso para que se
conhecessem melhor.
Ela iria até a casa dele como quem não quer nada,
só para entregar o envelope extraviado. Aproveitaria e diria: "Então,
estou indo comer alguma coisa na rua, quer me fazer companhia?"
* * *
Era isso mesmo que ira fazer! Algo bem casual. Se
Luke recusasse o convite, pelo menos, ela saberia onde estava pisando e
acabaria de vez com as fantasias adolescentes que a consumiam fazia tempo. Bem,
as fantasias, na verdade, não tinham nada de adolescentes ou inocentes.
Suspirou fundo e decidiu levar seu plano adiante.
Responderia à altura as mensagens eróticas que ele lhe enviara com os olhos até
agora. Iria convidá-lo para sair.
E seria naquele dia à noite.
Uma olhada de relance no espelho a lembrou de que
dar aulas para um bando de alunos do ensino médio não era bem uma atividade
relaxante. Não poderia ir a lugar nenhum sem antes tomar uma chuveirada.
Depois de se secar, escovou os dentes, penteou os
cabelos e aplicou uma leve maquiagem no rosto. Vestiu um jeans, mas mudou de
idéia. Estava cansada de só usar jeans.
Uma saia sensual e elegante saiu de dentro do
armário direto para os seus braços. Adicionou uma blusa tomara-que-caia lilás
ao conjunto, brincos descontraídos, sandálias rasteiras e pronto. Não queria
que ele pensasse que tinha se arrumado para a ocasião. Não queria que
percebesse o óbvio.
Apanhou o envelope e já estava de saída quando viu
uma mancha na saia. Voltou ao banheiro. Deixou o envelope na beirada da pia
e... droga! Por causa da pressa, o sabonete acabou caindo no chão. Agachada,
achou o bendito sabonete e se levantou. E perdeu o ar. Ao subir, deixou o
envelope pardo cair na pia, molhando parte do pacote, mas não o suficiente para
danificar o conteúdo. Parecia um livro.
Era melhor ir rapidamente ao apartamento de Luke e
entregar a encomenda antes que a água encharcasse a parte de dentro. Limparia a
saia depois.
Apanhou as chaves, a jaqueta de couro, o embrulho
afogado e desceu correndo as escadas para o andar de baixo.
Em um minuto, estava em frente à porta dele,
ofegante. Respirou fundo, memorizou o convite que iria fazer e bateu na porta.
Silêncio.
Não lhe havia passado pela cabeça que Luke pudesse
não estar em casa. Sabia pelas conversas breves que era jornalista. Já havia
inclusive lido uma reportagem dele no jornal local. Foi apenas cogitar a
possibilidade de que ele não estava para ouvir o barulho do trinco da porta se
abrindo.
E então surgiu Luke Lawson, com seu olhar erótico
e irresistível, como sempre. Ele era, sem dúvida, o homem mais sexy que já
havia visto. Não importava quantas vezes o visse, aquela expressão facial
sempre a deixava com as pernas bambas. E era o que acontecia naquele instante.
O coração estava disparado, bombeando sangue para todas as zonas erógenas,
possíveis e imagináveis do corpo de Shari.
Não era apenas o olhar magnético dele, insinuando
intimidades que nunca haviam compartilhado, mas que poderiam, facilmente, ter.
Também não era só a covinha no queixo ou o cabelo preto despenteado que a faziam
se lembrar das manhãs de sábado preguiçosas. Era, concluiu, a forma tão
perfeita como todos aqueles elementos se combinavam.
Os lábios dele formaram um lindo sorriso ao vê-la
com o pacote na mão.
— Não vai me dizer que ele errou outra vez? — Não
parecia irritado com a constatação, mas sim exultante.
Shari tentou conter o risinho ao entregar o
envelope.
— Pois é, outra vez.
Ela sabia que tinha algo a dizer, mas o quê? Tudo
o que havia planejado e memorizado se esfumaçara na memória. Apenas o olhava
fascinada.
Luke a observou dos pés a cabeça, fazendo-a se
sentir nua.
— Nossa, você está demais. Vai a algum lugar
especial? Ah, era isso. Voltou a raciocinar. Ia convidá-lo para sair.
— Não, nada especial. Na verdade...
Não conseguiu ir adiante. O som de papel molhado
rasgando-se, seguido de algo caindo no chão, a interrompeu.
O livro havia caído pela extremidade do envelope.
A capa dura, virada para cima. O título, com letras garrafais em néon, poderia
ser lido a metros de distância: Sexo para idiotas completos — um guia
prático.
* * *
Não podia acreditar no que viam seus olhos. Suas
bochechas logo ficaram vermelhas. Não podia ser verdade. Se Luke encomendava um
livro daquele gênero, então... significava que... não!
Voltou a olhar o título tentando se convencer de
que, na verdade, o que havia lido tinha sido Guia para trabalhos em madeira —faça
você mesmo ou Estratégias financeiras para iniciantes. Porém, as
palavras permaneciam inalteradas. Era realmente um guia prático para homens que
não tinham idéia do que era sexo. Pelo menos, na prática.
Que decepção! Totalmente constrangida, não sabia
se pela situação ou por ele, o fato era que estava vermelha como um pimentão.
Depois de alguns minutos, que mais pareceram horas
intermináveis, Shari tomou coragem e o encarou. Ele segurava o envelope, meio
sem jeito, as bochechas levemente coradas.
— Me desculpa — falou em seguida. — A culpa foi
minha... deixei o envelope cair na pia. Esqueci de avisar... estava lavando a
louça e deixei cair... — Ai, era ela que agora falava como uma idiota completa.
Pressionou os lábios para que parasse de gaguejar.
— Acho que... — Luke pigarreou encabulado. — Que
se disser que encomendei esse livro para um amigo você não vai acreditar, não
é?
— Mas a encomenda está no seu nome — respondeu
ela, sentindo-se péssima um segundo depois de ter feito a observação.
Ele suspirou.
— É verdade.
O desconforto aumentou ainda mais entre ela, ali,
de pé no corredor do edifício e Luke, parado na porta. Ela estava mesmo
decepcionada. Apenas não entendia por quê, já que mal o conhecia e muito menos
sabia se algum dia rolaria algo entre os dois. Bem, pelo menos, houvera até o
momento uma ponta de esperança alimentada por ambos.
Será que tinha deixado a imaginação subir-lhe à
cabeça? Em suas fantasias, ele era um garanhão experiente e sensual.
Características improváveis para um homem que precisava de um guia sobre sexo.
Queria sair correndo dali e esquecer o incidente.
— Bem — forçou um sorriso. — Está na minha hora. —
Cruzou os braços, mordeu os lábios e torceu para que tivesse soado convincente.
— Claro. Obrigado pela... encomenda.
— Imagina! — Deu um aceno tímido e se virou de
imediato, rumo às escadas.
Luke ficou olhando a vizinha sexy correndo para as
escadas e ficou se perguntando como teria terminado aquele dia se o livro não
tivesse caído no chão, no momento mais inoportuno — e com o título virado para
cima.
Balançou a cabeça, ainda desnorteado com as
peripécias do destino e do serviço dos correios, e fechou a porta. Estudou o
livro em sua mão, olhando o título chamativo e demasiadamente óbvio: Sexo
para idiotas completos: um guia prático, por Lance Flagstaff.
— Lance, compadre, não podia ter escolhido uma
hora melhor?
Ficou olhando para o envelope molhado e destruído.
Se tivesse esperado alguns minutos mais para arrebentar...
* * *
Seu instinto masculino lhe dizia que teria tido um
programa para a noite se Lance não tivesse resolvido aparecer de repente.
Droga! O último artigo para a revista masculina já
estava pronto e, surpreendentemente, não havia nenhum trabalho por fazer.
Adoraria poder dar uma saída naquela noite e a única pessoa que tinha em mente
como companhia era a vizinha do andar de cima. Shari Wilson, apartamento 325 — uma
recompensa que cairia como uma luva depois de uma maratona de artigos para os
principais veículos da cidade.
Luke grunhiu de frustração ao se dar conta de que
o encontro tão esperado com Shari não aconteceria tão cedo. Graças ao Lance.
Havia alguns lugares para ir naquela noite, mas
não estava animado. Foi até a cozinha e abriu a geladeira. Apanhou uma cerveja
e voltou para o sofá, a fim de folhear seu novo livro.
— Capítulo um. "A primeira impressão". —
Luke deu uma risada irônica, lembrando-se da expressão no rosto de Shari ao ler
o título do livro. Ele havia causado uma impressão da qual ela se lembraria
para sempre. Infelizmente, não era aquilo que gostaria.que tivesse acontecido.
Por certo, não queria ser vista com um cara que
precisa de uma manual para satisfazer uma garota na cama.
Por que não havia contado a verdade?
Eu escrevi o maldito
livro.
Trecho de "Manual da conquista"
by Nancy Warren
by Nancy Warren
terça-feira, 9 de abril de 2019
STF: vergonha nacional
"Jornal Daqui" (2 de abril/2019)
Leia também:
CNJ institui censura de servidores e membros do Judiciário
segunda-feira, 8 de abril de 2019
terça-feira, 26 de março de 2019
Procura-se um presidente
Ocupado com questiúnculas que fazem a alegria de sua militância, o sr. Jair Bolsonaro parece ter abdicado de governar para todos.
O Estado de S.Paulo
EDITORIAL
O
presidente da República, Jair Bolsonaro, não parece satisfeito em criar
problemas em série no país que governa e passou a causar
constrangimentos também em países vizinhos. Em recente visita ao Chile,
Bolsonaro minimizou a ditadura do general Augusto Pinochet, ao dizer que
“tem muita gente que gosta, outros que não gostam”, deixando ao
presidente chileno, Sebastián Piñera, a tarefa de lidar com a péssima
repercussão interna dessa e de outras declarações desastradas da
comitiva brasileira. Dias antes, ao lado do presidente do Paraguai,
Mario Abdo Benítez, Bolsonaro elogiou o “nosso general Alfredo
Stroessner”, ditador que não foi nosso – foi deles, entre 1954 e 1989.
Segundo o presidente brasileiro, Stroessner foi um “homem de visão, um
estadista”.
Todos sabem, há muito tempo, quais são as opiniões do sr. Jair Bolsonaro a respeito das ditaduras militares latino-americanas. Quando deputado federal, Bolsonaro sempre foi notório defensor desses regimes, inclusive do recurso destes à tortura. Na condição de presidente da República, no entanto, Bolsonaro deveria saber que suas palavras adquirem enorme peso institucional, pois ele representa o Brasil no exterior, razão pela qual deveria guardar para si suas opiniões sobre ditadores e ditaduras em nações vizinhas, tema que naturalmente causa desconforto nesses países – ainda mais quando trazido à tona por autoridades brasileiras.
Esses episódios de incontinência verbal do sr. Jair Bolsonaro reiteram a impressão, cada dia mais próxima da certeza, de que o ex-deputado federal ainda não assumiu de fato a Presidência da República. Se tivesse assumido, Bolsonaro falaria como chefe de Estado – que engloba o conjunto dos brasileiros e da administração pública – e não como mero representante de seus eleitores. A cada dia que passa, Bolsonaro, sob as vestes extravagantes da “nova política” – como os chinelos e a camisa falsificada de time de futebol que o presidente usou numa reunião ministerial –, continua a agir como deputado do baixo clero.
Assim, sem entender qual é natureza da função para a qual foi escolhido pela maioria dos eleitores no ano passado, o sr. Bolsonaro drena as energias do País ao concentrar-se em temas de pouca relevância, mas com potencial de causar tumulto. O Estado noticiou, por exemplo, que o presidente está estimulando os militares a comemorar o aniversário do golpe militar de 31 de março de 1964. Tal iniciativa certamente trará grande satisfação para o eleitorado mais radical de Bolsonaro, mas pode criar desnecessário e inoportuno embaraço no momento em que o País precisa de união para aprovar duras reformas.
Ocupado com questiúnculas que fazem a alegria de sua militância, o sr. Jair Bolsonaro parece ter abdicado de governar para todos. Os problemas avolumam-se de forma preocupante – já se fala até de uma nova paralisação de caminhoneiros – e o presidente mostra-se alheio a eles, movendo-se ao sabor das redes sociais como se disso derivasse sua força e não sua fraqueza, como de fato acontece.
Segundo sua concepção de “nova política”, Bolsonaro não demonstra nenhum interesse em construir uma base parlamentar sólida o bastante para aprovar nem mesmo projetos simples, que dirá reformas complexas, como a da Previdência. Parece acreditar que, simbolizando a redenção do Brasil depois do flagelo lulopetista, todas as suas vontades serão convertidas em lei pelo Congresso, sem necessidade de negociação. Incorre, assim, numa arrogância sem limites, como quando foi cobrado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a buscar votos para aprovar a reforma da Previdência, e respondeu que “a bola está com ele (Rodrigo Maia), eu já fiz minha parte, entreguei (o projeto da reforma)”
Das duas, uma: ou Bolsonaro acredita ser um mero despachante de projetos de lei, e não um líder político, ou, o que é mais provável, ele crê que deputados e senadores devem aprovar seus projetos porque, se não o fizerem, estarão atuando contra o Brasil, que está “acima de tudo”, e contra Deus, que está “acima de todos”. E ele, afinal, está onde?
Seja como for, a deliberada desorganização política do governo, causada por um presidente cada vez mais desinteressado de suas tarefas políticas e institucionais, tem o potencial de agravar a crise, levando-a a patamares muito perigosos – e talvez seja isso mesmo o que muita gente quer.
Notas e Informações
26 de março de 2019
Todos sabem, há muito tempo, quais são as opiniões do sr. Jair Bolsonaro a respeito das ditaduras militares latino-americanas. Quando deputado federal, Bolsonaro sempre foi notório defensor desses regimes, inclusive do recurso destes à tortura. Na condição de presidente da República, no entanto, Bolsonaro deveria saber que suas palavras adquirem enorme peso institucional, pois ele representa o Brasil no exterior, razão pela qual deveria guardar para si suas opiniões sobre ditadores e ditaduras em nações vizinhas, tema que naturalmente causa desconforto nesses países – ainda mais quando trazido à tona por autoridades brasileiras.
Esses episódios de incontinência verbal do sr. Jair Bolsonaro reiteram a impressão, cada dia mais próxima da certeza, de que o ex-deputado federal ainda não assumiu de fato a Presidência da República. Se tivesse assumido, Bolsonaro falaria como chefe de Estado – que engloba o conjunto dos brasileiros e da administração pública – e não como mero representante de seus eleitores. A cada dia que passa, Bolsonaro, sob as vestes extravagantes da “nova política” – como os chinelos e a camisa falsificada de time de futebol que o presidente usou numa reunião ministerial –, continua a agir como deputado do baixo clero.
Assim, sem entender qual é natureza da função para a qual foi escolhido pela maioria dos eleitores no ano passado, o sr. Bolsonaro drena as energias do País ao concentrar-se em temas de pouca relevância, mas com potencial de causar tumulto. O Estado noticiou, por exemplo, que o presidente está estimulando os militares a comemorar o aniversário do golpe militar de 31 de março de 1964. Tal iniciativa certamente trará grande satisfação para o eleitorado mais radical de Bolsonaro, mas pode criar desnecessário e inoportuno embaraço no momento em que o País precisa de união para aprovar duras reformas.
Ocupado com questiúnculas que fazem a alegria de sua militância, o sr. Jair Bolsonaro parece ter abdicado de governar para todos. Os problemas avolumam-se de forma preocupante – já se fala até de uma nova paralisação de caminhoneiros – e o presidente mostra-se alheio a eles, movendo-se ao sabor das redes sociais como se disso derivasse sua força e não sua fraqueza, como de fato acontece.
Segundo sua concepção de “nova política”, Bolsonaro não demonstra nenhum interesse em construir uma base parlamentar sólida o bastante para aprovar nem mesmo projetos simples, que dirá reformas complexas, como a da Previdência. Parece acreditar que, simbolizando a redenção do Brasil depois do flagelo lulopetista, todas as suas vontades serão convertidas em lei pelo Congresso, sem necessidade de negociação. Incorre, assim, numa arrogância sem limites, como quando foi cobrado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a buscar votos para aprovar a reforma da Previdência, e respondeu que “a bola está com ele (Rodrigo Maia), eu já fiz minha parte, entreguei (o projeto da reforma)”
Das duas, uma: ou Bolsonaro acredita ser um mero despachante de projetos de lei, e não um líder político, ou, o que é mais provável, ele crê que deputados e senadores devem aprovar seus projetos porque, se não o fizerem, estarão atuando contra o Brasil, que está “acima de tudo”, e contra Deus, que está “acima de todos”. E ele, afinal, está onde?
Seja como for, a deliberada desorganização política do governo, causada por um presidente cada vez mais desinteressado de suas tarefas políticas e institucionais, tem o potencial de agravar a crise, levando-a a patamares muito perigosos – e talvez seja isso mesmo o que muita gente quer.
Notas e Informações
26 de março de 2019
segunda-feira, 25 de março de 2019
domingo, 24 de março de 2019
Alter ego
"Olhamos no espelho com cautela, temendo ver outro rosto que não o nosso, talvez nem um rosto humano, mas alguma outra coisa que espreita do fundo de nossos pesadelos, com a convicção inconsciente de que é a nossa verdadeira identidade."
L. MANFREDI
quarta-feira, 20 de março de 2019
terça-feira, 19 de março de 2019
O "assassinato da civilização" imortalizado em óleo sobre tela

"Guernica" (quadro acima) retrata habitantes da cidade homônima massacrada pelos nazistas em 26 de abril de 1937, durante a Guerra Civil Espanhola.
O espanhol Pablo Picasso, autor da obra, omitiu símbolos políticos. Mesmo assim, a enorme tela conseguiu transmitir a angústia da população e o poder de destruição da força militar.
Ao visitar a exposição em Paris, onde Picasso estava exilado, um oficial da SS, impressionado com a pintura, teria perguntado ao artista: "Você fez isso?" — ao que o gênio respondeu:
—Não, foi você!
Fonte: DW Brasil
domingo, 24 de fevereiro de 2019
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
Mediocridade moral
Condenado pela segunda vez por corrupção e lavagem de dinheiro, o ex-presidente recorre à retórica embolorada da “perseguição política” porque, ao fim e ao cabo, não têm como se defender ante as provas reunidas nos processos em que foi condenado.
Lula
da Silva não desiste. Condenado pela segunda vez por corrupção e
lavagem de dinheiro, o ex-presidente da República continua a se dizer
vítima de “perseguição política”. Com isso, quer fazer crer que todos os
magistrados que decidiram contra ele – na 13.ª Vara da Justiça Federal
de Curitiba, no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, no Superior
Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal – estão mancomunados,
junto com “a imprensa, o mercado e os poderosos do Brasil e de fora”,
para “apagar a lembrança” de Lula da “memória do povo pobre e
trabalhador do Brasil”, conforme diz uma nota oficial do PT, que ele
continua controlando.
No texto, o partido diz que Lula é alvo de “uma vingança política sem precedentes na história do Brasil”. Afirma que a primeira condenação que sofreu, no caso relativo ao triplex no Guarujá, se prestou a “impedir que Lula voltasse a ser eleito presidente da República pela vontade do povo”.
Com a nova condenação, afirma a nota lulopetista, o Judiciário tenta “influenciar a opinião pública internacional” justamente “no momento em que Lula é indicado ao Prêmio Nobel da Paz por mais de meio milhão de apoiadores” – referência a uma campanha inventada pelo partido para tentar tirar o chefão petista do limbo político e midiático em que ele se encontra, como presidiário em Curitiba.
Lula e seus devotos querem fazer crer que o País vive ares carregados semelhantes aos da ditadura militar e recorrem à retórica embolorada da “perseguição política” porque, ao fim e ao cabo, não têm como se defender ante as provas reunidas nos processos em que o ex-presidente foi condenado.
Ademais, afirmar que Lula é um “preso político” é uma afronta aos que padeceram nos porões do regime de exceção e uma ofensa aos que efetivamente lutaram pelo restabelecimento do Estado de Direito – o mesmo Estado de Direito que garantiu ao ex-presidente ampla defesa e amplas possibilidades de recurso. Com o discurso da “perseguição política”, o PT tenta escamotear o fato de que Lula da Silva, que se tem em altíssima conta – na nota, o partido o qualifica simplesmente de “o maior presidente da história do País” –, é hoje apenas um corrupto condenado e preso.
E as contas que o ex-presidente tem a acertar com a Justiça, no âmbito da Lava Jato, não param de aumentar. Depois de ter sido condenado a 12 anos e 1 mês de prisão no caso do triplex – pena que ele cumpre desde 7 de abril de 2018 –, Lula da Silva foi sentenciado a 12 anos e 11 meses de cadeia por corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro, na ação que investigou a reforma no sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP). Lula ainda responde a uma terceira ação, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro em caso que envolve propina para a compra de um terreno que abrigaria o Instituto Lula, em São Paulo.
Na sentença relativa ao sítio de Atibaia, a juíza Gabriela Hardt, da 13.ª Vara Federal de Curitiba, explicitou o vínculo de Lula com o esquema de corrupção na Petrobrás, do qual foi beneficiário na forma de mimos de empreiteiras – como a reforma do sítio – pagos como retribuição pelos contratos com a estatal. A juíza cita um depoimento do empreiteiro Emílio Odebrecht em que ele diz que “a reforma seria uma retribuição do Grupo Odebrecht pela atuação dele (Lula) ‘em prol da organização’, com referência expressa em seguida à atuação dele (Lula) em favor da Odebrecht no setor petroquímico, Braskem, e na Petrobrás”.
A sentença afirma que “Luiz Inácio Lula da Silva tinha pleno conhecimento de que a empresa Odebrecht era uma das partícipes do grande esquema ilícito que culminou no direcionamento, superfaturamento e pagamento de propinas em grandes obras licitadas em seu governo, em especial na Petrobrás” e “contribuiu diretamente para a manutenção do esquema criminoso”. Logo, diz a juíza, Lula sabia muito bem que o dinheiro que bancou seu bem-estar em Atibaia só podia ser fruto da roubalheira.
Diante desse monumento à corrupção chamado petrolão, uma reforma modesta num sítio em Atibaia pode soar apenas pitoresco – mas serve para simbolizar a pequenez moral dos envolvidos.
Mais 12 anos de cadeia
No texto, o partido diz que Lula é alvo de “uma vingança política sem precedentes na história do Brasil”. Afirma que a primeira condenação que sofreu, no caso relativo ao triplex no Guarujá, se prestou a “impedir que Lula voltasse a ser eleito presidente da República pela vontade do povo”.
Com a nova condenação, afirma a nota lulopetista, o Judiciário tenta “influenciar a opinião pública internacional” justamente “no momento em que Lula é indicado ao Prêmio Nobel da Paz por mais de meio milhão de apoiadores” – referência a uma campanha inventada pelo partido para tentar tirar o chefão petista do limbo político e midiático em que ele se encontra, como presidiário em Curitiba.
Lula e seus devotos querem fazer crer que o País vive ares carregados semelhantes aos da ditadura militar e recorrem à retórica embolorada da “perseguição política” porque, ao fim e ao cabo, não têm como se defender ante as provas reunidas nos processos em que o ex-presidente foi condenado.
Ademais, afirmar que Lula é um “preso político” é uma afronta aos que padeceram nos porões do regime de exceção e uma ofensa aos que efetivamente lutaram pelo restabelecimento do Estado de Direito – o mesmo Estado de Direito que garantiu ao ex-presidente ampla defesa e amplas possibilidades de recurso. Com o discurso da “perseguição política”, o PT tenta escamotear o fato de que Lula da Silva, que se tem em altíssima conta – na nota, o partido o qualifica simplesmente de “o maior presidente da história do País” –, é hoje apenas um corrupto condenado e preso.
E as contas que o ex-presidente tem a acertar com a Justiça, no âmbito da Lava Jato, não param de aumentar. Depois de ter sido condenado a 12 anos e 1 mês de prisão no caso do triplex – pena que ele cumpre desde 7 de abril de 2018 –, Lula da Silva foi sentenciado a 12 anos e 11 meses de cadeia por corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro, na ação que investigou a reforma no sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP). Lula ainda responde a uma terceira ação, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro em caso que envolve propina para a compra de um terreno que abrigaria o Instituto Lula, em São Paulo.
Na sentença relativa ao sítio de Atibaia, a juíza Gabriela Hardt, da 13.ª Vara Federal de Curitiba, explicitou o vínculo de Lula com o esquema de corrupção na Petrobrás, do qual foi beneficiário na forma de mimos de empreiteiras – como a reforma do sítio – pagos como retribuição pelos contratos com a estatal. A juíza cita um depoimento do empreiteiro Emílio Odebrecht em que ele diz que “a reforma seria uma retribuição do Grupo Odebrecht pela atuação dele (Lula) ‘em prol da organização’, com referência expressa em seguida à atuação dele (Lula) em favor da Odebrecht no setor petroquímico, Braskem, e na Petrobrás”.
A sentença afirma que “Luiz Inácio Lula da Silva tinha pleno conhecimento de que a empresa Odebrecht era uma das partícipes do grande esquema ilícito que culminou no direcionamento, superfaturamento e pagamento de propinas em grandes obras licitadas em seu governo, em especial na Petrobrás” e “contribuiu diretamente para a manutenção do esquema criminoso”. Logo, diz a juíza, Lula sabia muito bem que o dinheiro que bancou seu bem-estar em Atibaia só podia ser fruto da roubalheira.
Diante desse monumento à corrupção chamado petrolão, uma reforma modesta num sítio em Atibaia pode soar apenas pitoresco – mas serve para simbolizar a pequenez moral dos envolvidos.
Mais 12 anos de cadeia
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
"Doçura e sabedoria"
Senhor, nada valho.
Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada.
Ponho folhas e haste e se me ajudares, Senhor, mesmo planta de acaso, solitária,
dou espigas e devolvo em muitos grãos,
o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo,
E de mim não se faz o pão alvo, universal.
O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra,
onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre.
Alimento de rústicos e animais do jugo.
Quando os deuses da Hélade corriam pelos bosques,
Coroados de rosas e de espigas,
Quando os hebreus iam em longas caravanas
Buscar na terra do Egito o trigo dos faraós,
Quando Rute respigava cantando nas searas de Booz
E Jesus abençoava os trigais maduros,
Eu era apenas o bró nativo das tabas ameríndias.
Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante.
Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha. Alimento de porcos e do triste mu de carga.
O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o carcarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizeste necessário
e humilde.
Sou o milho.
"Oração do Milho"
Cora Coralina
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Omissão criminosa
Espera-se que os responsáveis por esse desastre de proporções inéditas, que cobriu o País de vergonha e indignação, sejam devidamente castigados, à altura do crime cometido. Pois é de crime que se trata.
Notas & Informações | O Estado de S.Paulo
29 Janeiro 2019
EDITORIAL
Em meio à comoção geral que esses terríveis eventos suscitam, autoridades se apressam a prometer rigor na investigação dos fatos, na identificação dos culpados e na edição de medidas para impedir que os desastres se repitam. As empresas envolvidas pedem desculpas e se comprometem a renovar seus protocolos de segurança, e o Ministério Público promete caçada implacável aos criminosos. O País já viu esse filme incontáveis vezes, sempre com o resultado da impunidade geral.
Espera-se que, ante as centenas de vítimas soterradas sob 12 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos de mineração, nesse desastre de proporções inéditas que cobriu o País de vergonha e indignação, os responsáveis sejam devidamente castigados, à altura do crime cometido. Pois é de crime que se trata.
Mas o fato é que, passados alguns dias da ruptura da barragem da mineradora Vale, tudo se repete como nas tragédias anteriores. O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, pediu “desculpas a todos os atingidos, à sociedade brasileira”, embora considere o desastre “indesculpável”. Em seguida, porém, assegurou que a Vale, “uma empresa muito séria”, “fez um esforço imenso” e tomou “uma lista infindável de ações” para “deixar nossas barragens na melhor condição possível” – tudo isso, disse o executivo, “especialmente depois de Mariana”.
A cidade mineira de Mariana virou sinônimo de tragédia ambiental em novembro de 2015, quando houve ali a ruptura de uma barragem de rejeitos de mineração, soterrando sob 43 milhões de metros cúbicos de lama vários distritos da região, matando 19 pessoas e causando o que até agora era considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil. A barragem era de responsabilidade da mineradora Samarco, controlada por uma joint venture entre a Vale e a mineradora anglo-australiana BHP Billiton. Na ocasião, a direção da Samarco também garantiu ter cumprido todas as exigências de segurança para prevenir acidentes como aquele.
Ou as empresas envolvidas nessas tragédias faltam com a verdade quando dizem ter seguido todos os procedimentos de segurança, ou esses procedimentos são evidentemente insuficientes. Tanto em Mariana como em Brumadinho, as barragens eram consideradas de “baixo risco” de acidente pelas autoridades responsáveis pela fiscalização. Não é preciso ser especialista para concluir que há algo de errado nessas avaliações, até porque, nos dois casos, não houve acidente natural. O que houve foi a escolha deliberada de tipos de barragem de baixo custo e alto risco, acrescida de fiscalização e controle no mínimo desidiosos.
Depois do que aconteceu em Mariana, esperava-se que a comoção nacional gerasse ações concretas para impedir sua repetição. Na ocasião, constatada a insuficiência da fiscalização, foram feitas promessas de maior rigor na manutenção das barragens e garantiu-se que haveria reparação para as famílias atingidas. Três anos depois, a fiscalização continua insuficiente, poucas famílias receberam indenização e nenhum executivo ou autoridade respondeu por seus atos ou omissões.
O governo montou um “gabinete de crise” para acompanhar os desdobramentos do desastre de Brumadinho, mas a maior crise a ser administrada é moral, e isso “gabinete de crise” nenhum será capaz de fazer.
A tragédia de Mariana, os deslizamentos de terra que mataram centenas de pessoas em morros do Rio de Janeiro, o incêndio da boate Kiss, que matou 242 pessoas há cinco anos, e outras catástrofes que revoltaram os brasileiros nos últimos tempos têm algo em comum entre elas, além do grande número de vítimas: em nenhum dos casos, os responsáveis foram punidos. E a sequência dos casos sinistros é a evidência de que “fiscalização”, para o poder público, é um amontoado de letras sem qualquer significado.
Agora, no caso de Brumadinho, urge que o Estado aja com firmeza para que os culpados realmente paguem pelo que fizeram – dos empresários que, além de arriscar seus capitais, colocaram vidas em perigo, até os funcionários públicos, que se omitiram criminosamente. Aí está a chave para evitar que tais desastres se repitam.
Quando a impunidade mata
domingo, 27 de janeiro de 2019
Justiça determina bloqueio de R$ 11 bilhões da Vale
O rompimento da barragem de Brumadinho, na sexta-feira, deverá gerar um “dano humano” maior do que o provocado pelo desastre de Mariana (MG), lamentou Fabio Schvartsman, presidente da Vale. Bloqueio judicial se justifica diante da “incerteza do futuro financeiro” da mineradora.
Leia AQUI a decisão judicial na íntegra.

Lama que atingiu a cidade de Brumadinho/MG. Foto: Washington Alves/Reuters
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