terça-feira, 13 de novembro de 2018

O FIM DE UMA ERA

Lenda das HQs

Lenda das HQs, Stan Lee, cocriador dos principais super-heróis da Marvel Comics, morre ao 95 anos

Resultado de imagem para google stan lee rip
 Foto: Getty



O escritor, editor e executivo da indústria de quadrinhos Stan Lee morreu nesta segunda-feira, 12, aos 95 anos. A causa da morte não foi divulgada, mas ele foi levado ao hospital Cedars-Sinai, em Los Angeles, onde morreu. Em parceria com quadrinistas como Jack Kirby e Steve Ditko, o americano Stan Lee foi criador de alguns dos principais super-heróis da Marvel, uma das duas grandes casas editoriais do gênero. Entre suas contribuições mais conhecidas, estão o Homem de Ferro, o Quarteto Fantástico e os XMen. Ele morreu pouco mais de um ano após sua mulher, Joan Lee, e alguns meses depois de Steve Ditko, seu parceiro na concepção do Homem-Aranha.

Stan Lee fazia curtas e bemhumoradas aparições em todas as adaptações cinematográficas de seus quadrinhos, portanto, os fãs do autor ainda podem esperar imagens inéditas dele em Capitã Marvel e no quarto filme dos Vingadores, ambos com estreias previstas para 2019.

Nova-iorquino, nascido Stanley Martin Lieber, em 1922, ele foi um dos mais importantes nomes dos quadrinhos por décadas, mas não foi exatamente um quadrinista. Fez história principalmente no nicho dos super-heróis ao escrever argumentos, roteirizar HQs e conceber personagens e cenários. No entanto, Lee começou a carreira em 1939, como um mero assistente, sem assumir funções criativas.

Uma de suas primeiras criações foi o Destroyer (não confundir com o Demolidor, que também foi imaginado por Lee em parceria com Bill Everett), em 1941, mas o herói não obteve o sucesso de suas futuras contribuições. Suas principais obras vieram com a renovação dos quadrinhos nos anos 1950 e 1960, justamente quando Stan Lee estava pensando em mudar de carreira e sua mulher sugeriu que ele contasse as histórias que queria, independentemente de serem adequadas ou não às fórmulas de super-heróis. Esse conselho coincidiu com a intenção da Marvel de renovar seu rol de personagens.

Embora não tenha efetivamente lutado, Stan Lee serviu o exército durante a 2.ª Guerra Mundial (1939-1945), e retornou às atividades nos quadrinhos após cumprir as obrigações militares. A função de Stan Lee, intitulada “playwright” (algo como “roteirista”), consistia em escrever e adaptar textos, e foi compartilhada no exército americano por pouquíssimos nomes, como o dramaturgo William Saroyan, o cineasta italiano Frank Capra e o também cartunista Theodore Geisel.

Por mais que sua contribuição com os quadrinhos de super-heróis tenha sido voltada quase exclusivamente à Marvel, Stan Lee figura nas páginas de algumas HQs da empresa rival, a DC Comics. Quando seu parceiro de longa data, Jack Kirby, trabalhou na DC, ele criou Funky Flashman, personagem secundário de Mister Miracle (1972). Sem poderes sobre-humanos ou qualquer passado, Funky foi tido por muitos como uma sátira de Stan Lee, embora essa informação não seja canônica.

Lee ajudou o gênero de super-heróis a se reerguer após um período fraco. Os quadrinhos chegaram a ser extremamente políticos no início dos anos 1940 – Superman enfrentou Hitler antes mesmo de os Estados Unidos entrarem na 2.ª Guerra e o Capitão América surgiu como uma resposta patriótica americana à ascensão do nazismo. Mas, com a crescente censura imposta pelo código de conduta da Comics Code Authority, formada em 1954, aliada a um momento de crise nas vendas, os super-heróis perderam relevância.

Foi com o surgimento do Quarteto Fantástico, primeira colaboração de Stan Lee e Jack Kirby, em 1961, que o estilo ganhou uma lufada de ar fresco, dando início a uma nova era de ouro capitaneada por ele. A reboque do sucesso, a Marvel deu carta branca para Lee conceber histórias e personagens que hoje são clássicos, como o Homem-Aranha, Thor e Doutor Estranho.

Nos anos 1960, Stan Lee não apenas criou heróis que permaneceram no imaginário coletivo, mas foi um dos grandes responsáveis por um maior engajamento no gênero. Ao mesmo tempo que os X-Men refletiam a discussão pelos direitos civis dos negros em voga nos EUA – o conflito entre Professor Xavier e Magneto tem paralelos evidentes com as disputas entre Martin Luther King Jr. e Malcolm X –, a superequipe também foi uma metáfora da luta LGBT: os mutantes tinham poderes, mas precisavam ocultálos de uma sociedade preconceituosa que os reprimia.

O Pantera Negra, criado antes mesmo do partido homônimo, também foi um herói que abriu as portas para a representatividade e a discussão sobre racismo nos quadrinhos. Já o Demolidor foi o primeiro super-herói a possuir uma deficiência, e usava sua cegueira não como um problema, mas como uma vantagem, dando um excelente exemplo de empoderamento social.

A variedade temática que as histórias dele abarcaram é enorme: desde o misticismo oriental do Doutor Estranho à mitologia nórdica de Thor, passando pela ode à ficção científica de Hulk, um misto de Frankenstein com O Médico e o Monstro. Não por acaso foi o grande maestro da orquestra cósmica que a Marvel criou com seu universo compartilhado, e que agora é replicada com sucesso nos cinemas. Stan Lee é certamente um dos responsáveis pelo atual momento da cultura pop, e sua marca permanecerá gravada no mundo nerd por anos a fio.

André Cáceres, in "O Estado de S. Paulo"


 REPERCUSSÃO:

"Durante décadas, ele ofereceu para jovens e velhos aventuras, escapismo, conforto, confiança, inspiração, força, amizade e alegria” Chris Evans - ATOR
  * * *
“Sem Stan, uma era realmente chega ao fim” Neil Gaiman- ESCRITOR
  * * *
“Ele foi um titã da criatividade. Deu início à era das HQs da Marvel e à era dos filmes de super-heróis que vivemos hoje” Rob Liefeld- QUADRINISTA
  * * *
“Ninguém exerceu mais impacto sobre minha carreira e tudo o que fazemos no Marvel Studios do que Stan Lee. Stan deixa um legado que sobreviverá a todos nós” Kevin Feige- PRODUTOR
  * * *
“Ele tinha o poder de inspirar, entreter e conectar” Bob Iger- CEO DA DISNEY

 

CRONOLOGIA

1961 Quarteto Fantástico
Primeira colaboração entre Stan Lee e o ilustrador Jack Kirby, abriu as portas para um renascimento dos quadrinhos de heróis

1962 Homem-Aranha
Seu personagem mais popular, criado em parceria com Steve Ditko, demonstrou o drama de conciliar vida pública e privada

1963 X-Men
Conflito entre Professor X e Magneto é paralelo entre as perspectivas de Martin Luther King e Malcolm X

1964 Demolidor
Concebido por Lee com Bill Everett, foi o primeiro herói deficiente e usou a sua cegueira como uma vantagem

1966 Pantera Negra
Criado antes do partido, de mesmo nome, virou ícone de representatividade e da luta antirracista nas HQs


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Stan "Excelsior!" Lee (1922-2018)


Arte: Olivier Coipel

Projeto Sirius: ‘Maracanã da pesquisa’


Máquina construída em Campinas será uma das fontes de luz síncrotron mais poderosas do mundo   

 Sirius
                 
O Sirius é um acelerador de elétrons, usado para produzir luz síncrotron. Funciona como um grande microscópio, que permite estudar praticamente qualquer material. 



CAMPINAS -  Por fora, parece um disco voador, do tamanho do estádio do Maracanã. Por dentro, a sensação é de estar caminhando em outro mundo, na fronteira da tecnologia, cercado de inovação por todos os lados. E o mais incrível: quase tudo feito por aqui mesmo, projetado por cientistas brasileiros, desenvolvido por empresas nacionais e construído – a muito custo – no período de maior aperto financeiro da ciência nacional.

Assim é o Sirius, a nova fonte de luz síncrotron do Brasil, que está próxima de entrar em operação no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas. Orçado em R$ 1,8 bilhão, é o projeto mais grandioso e tecnologicamente complexo da ciência brasileira.
O prédio, de 15 metros de altura e 68 mil metros quadrados, será inaugurado oficialmente nesta quarta-feira pelo presidente Michel Temer e o ministro de Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab.

A máquina propriamente dita – um acelerador de elétrons com mais de 500 metros de circunferência, que produz a luz síncrotron – está em fase final de montagem, e deve entrar em operação no segundo semestre de 2019. Com ela, cientistas poderão fazer imagens 3D de altíssima resolução e investigar a fundo a estrutura molecular de qualquer tipo de material.

Se o dinheiro não minguar e as milhares de peças que compõem o acelerador funcionarem com a precisão nanométrica necessária, o Sirius será uma das fontes de luz síncrotron mais poderosas do mundo, num país onde os investimentos em ciência só caíram nos últimos anos.

“Resiliência é o nome do jogo”, diz o físico Antônio José Roque da Silva, que pilota o projeto desde 2009, inicialmente como diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e agora, como diretor-geral do CNPEM.

Não foram poucos os momentos em que o projeto esteve ameaçado pela falta de recursos. A construção começou em 2015, em meio à explosão da crise econômica nacional.

A salvação, segundo Silva, foi a inclusão do Sirius no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a partir de 2016, o que deu ao projeto um status diferenciado dentro da estrutura política e administrativa do governo federal. “Foi o que nos permitiu sobreviver, mesmo com todas as dificuldades.”

Made in Brazil.  A concepção do projeto começou em 2009, quando ficou claro que a atual fonte de luz síncrotron do LNLS – chamada UVX, de 1997 – estava tecnologicamente defasada, apesar de funcionar muito bem e até hoje atender mais de 1 mil pesquisadores por ano.

Inicialmente, seria uma máquina de terceira geração, como tantas outras que estavam sendo construídas no mundo. Em 2012, porém, um comitê recomendou que fosse feito um “upgrade”, para uma máquina de quarta geração – coisa que ainda não existia no mundo. E o desafio foi aceito.

“Em vez de começar atrás, era a oportunidade de sair na frente”, lembra Silva. Muitos disseram que era impossível, mas o projeto foi em frente. “Reprojetamos tudo, e o Sirius ganhou destaque mundial. Todo mundo começou a desenhar novas máquinas com base na nossa tecnologia.”

Cerca de 85% do projeto está sendo contratado dentro do Brasil, incluindo o desenvolvimento e a fabricação das peças mais sofisticada do acelerador e das estações experimentais, chamadas de “linhas de luz”.

O primeiro feixe de elétrons foi gerado em maio, no aparelho conhecido como Linac, que agora está sendo conectado ao primeiro anel de aceleração, conhecido como Booster.

O anel principal, de onde são extraídos os feixes de luz síncrotron, está em fase inicial de montagem, com conclusão prevista para abril ou maio. Terá início, então, uma longa fase de testes, até que o Sirius possa ser aberto para uso da comunidade científica. Nessa primeira fase, estão previstas seis linhas de luz, com mais sete planejadas para 2021. Mas o prédio foi construído para abrigar até 40.

“É uma máquina que será competitiva por muitos anos”, diz o diretor científico do LNLS, Harry Westfahl Junior.


 


Luz vai permitir investigar estrutura interna de materiais

A complexidade tecnológica de uma fonte de luz síncrotron como o Sirius é imensa. De uma forma geral, porém, essas máquinas podem ser pensadas como grandes microscópios, ou tomógrafos, que os cientistas utilizam para fazer imagens, enxergar a estrutura molecular e estudar as propriedades de materiais.

Pode ser uma proteína, uma célula, um osso, um grão de areia, uma planta, uma rocha, um plástico, uma liga metálica ou um fóssil. Qualquer coisa.

Além da pesquisa acadêmica, a técnica é muito usada pelas indústrias químicas, de petróleo, fármacos e cosméticos.

A física Nathaly Archilha, pesquisadora do CNPEM, por exemplo, utiliza a luz síncrotron para estudar as propriedades de rochas que formam reservatórios de petróleo e gás natural. “Entender essa estrutura é fundamental para otimizar os processos de extração do óleo”, explica.

Com a luz síncrotron do UVX, já é possível enxergar a malha porosa interna das rochas, onde fica estocado o óleo – com o diâmetro de alguns fios de cabelo. Já com o Sirius, será possível fazer uma tomografia 4D dessas amostras, visualizando em tempo real, e condições reais de temperatura e pressão, como o óleo flui por dentro desses poros.

Além disso, o tamanho das amostras poderá ser muito maior, e o tempo de imageamento será muito menor. Uma imagem que leva horas para ser feita no UVX poderá ser feita em segundos no Sirius.


Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

domingo, 11 de novembro de 2018

Patrimônio nacional






As modelos brasileiras Lais Ribeiro (acima) e Adriana Lima (abaixo, despedindo-se como "Angel") em desfile na Victoria's Secret Fashion Show em Nova York.




Fotos: Timothy A. Clary / AFP

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

domingo, 4 de novembro de 2018

Crônica


“Na cabeça de alguém sóbrio até poderia passar ileso, mas um ébrio jamais deixaria de achar um grande mistério”



Teste de gravidez
 RUTH MANUS*


Chegou em casa meio embriagada. Nada preocupante, apenas trilili. Colocou o pijama, chutou os sapatos do meio do caminho. Lembrou-se de tirar a maquiagem – coisa que jamais aconteceria aos 18, mas que aos quase 30 começa a tornar-se imperiosa. Ao jogar o algodão no lixo, viu o elemento. Coisa estranha, uma caixa de remédios amassada, torcida, como se quisesse esconder sua própria face. Algo que, na cabeça de alguém sóbrio até poderia passar ileso, mas que um ébrio jamais deixaria de achar um grande mistério.

Não teve dúvidas. Enfiou o braço no lixo e pegou a caixa. Desamassou-a, com algum esforço. Seus olhos se arregalaram, sua boca se abriu e sua garganta puxou o ar, emitindo aquele ruído de profunda surpresa. Era um teste de gravidez. Ficou confusa. Quem? Quando? Como assim? Levou a mão ao queixo, como uma aprendiz de Sherlock Holmes. Quais as mulheres que haviam passado por aquele banheiro? Sua mãe, de 68 anos. A empregada, de 74. Sua sobrinha de 2 anos. Sua outra sobrinha de 13 – NEM BRINCA. E, sim, sua irmã, de 34, mãe da pequena de 2. Faz sentido. Meio bêbada, porém ainda sagaz.

Pegou o celular, tirou uma foto da caixa e mandou para a irmã, com a carinhosa legenda “mano, que merda é essa?”. Eram 2 da manhã. Foi para a cama confusa. Será? Outro sobrinho, já? Que delícia. Só faço a parte do entretenimento mesmo. Adormeceu, mas algumas horas depois acordou pensando: se a caixa estava lá, o teste também deve estar. Levantou-se apressada, sentou-se no chão do banheiro e começou a cavocar o lixo. Não sabemos ao certo se a culpa era do álcool ou do amor de irmã. Até que encontrou e lá estavam elas, evidentes: duas tirinhas cor de rosa. Positivo. Tentou ligar para a irmã, que nem acordou com o toque do celular. 5 da manhã e ela já não conseguia dormir.

Eram mais de 10 quando a irmã ligou e disse que não se conformava que ela tivesse vasculhado o lixo. “Parece que não me conhece, sou assim desde sempre”. A irmã disse que, mesmo com o resultado positivo, não estava assim tão certa. Queria fazer mais um teste “o digital, sabe? Que mostra de quantas semanas você está grávida.”. Ela não sabia, mas disse que compraria na farmácia antes de irem para o jantar de aniversário do pai delas.

Chegaram ao restaurante alemão. Na mesa: os pais, a avó, tios, um primo, a pequena de 2 anos e os seus dois maridos. Faltou o irmão. Paciência. Dez minutos depois da chegada, ela piscava para a irmã e apontava para o banheiro. Sussurrava “vamos, vamos logo, comprei essa porcaria e você ainda fica me enrolando?”. Foram. Ela pediu um copo de plástico para o garçom, que prontamente a atendeu, perguntando: deseja gelo? Não, não precisa. Apesar de não beber whisky, detestou imaginar um copo de xixi com pedras de gelo boiando. A irmã fez o teste. Aqueles segundo de espera até sair o resultado são mesmo tão angustiantes quanto os minutos de espera por uma porção de fritas que demora. Mas pronto: confirmado. Mais um bebê. Abraço longo.

“Olha, vou enrolar o resultado em papel e dar de aniversário pro pai”. Jura? “Ah, já que vou contar que estou grávida, pelo menos aproveito o mistério”. Voltaram para a mesa. A irmã teve a sensatez de avisar seu marido antes. Depois, entregou o rolo de papel ao pai, que abriu e, para surpresa de ambas, deu um sorriso amarelo e disse: ah, legal, obrigada. Estranharam. A mãe perguntou o que era e ele respondeu: um termômetro. Caíram na gargalhada. “Não é um termômetro. Tô grávida de novo.” E aí a família toda gritou e chorou, foi aquela cafonice afetuosa.

Nove meses se passaram. Aquela bebê já avisou que seu negócio é chegar chegando. Vem Pipa, tá na hora. A tia está te esperando com mais alegria e ansiedade do que quando espera batata frita. Vem, querida, estamos doidos para te conhecer.


 (*) Escreve aos domingos, em "O Estado de S. Paulo"

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Especialistas veem Moro sob suspeição para julgar Lula


Juiz Sérgio Moro aceitou o convite para assumir o Ministério da Justiça no Governo Bolsonaro
Heuler Andrey / AFP




O simples encontro do juiz federal Sergio Moro com o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), já o coloca sob suspeição para continuar julgando processos do ex-presidente Lula, segundo advogados ouvidos pela reportagem. Uma reunião de Bolsonaro com Moro ocorreu nesta quinta-feira (1º) para discutirem a ida do juiz para o Ministério da Justiça. Pouco após o encontro, o magistrado anunciou ter aceitado a missão.

Moro marcou uma audiência para interrogar Lula no dia 14 de novembro no caso do sítio de Atibaia, no qual o presidente é acusado de ter recebido propina da Odebrecht, da OAS e do pecuarista José Carlos Bumlai em forma de obras no imóvel. O juiz também deve julgar no próximo mês a ação penal na qual o ex-presidente é apontado como beneficiário de suborno da Odebrecht na compra de um imóvel em São Paulo que seria destinado ao Instituto Lula.

Suspeição ocorre num processo quando um juiz deixa de ser imparcial, ou seja, quando adota uma postura que compromete a sua isenção para ponderar uma decisão.

O advogado Andrei Zanker Schmitt, professor de processo penal da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Porto Alegre, diz que Moro precisa se afastar já dos casos envolvendo Lula.

"A atuação de um juiz não pode ser pautada por interesses pessoais. Um juiz que confessa possuir aspiração política colidente com casos a ele submetidos não pode julgá-los, sob pena de colocar em dúvida a imparcialidade de sua atuação", afirma. "Suspeição significa suspeita. O cheiro de parcialidade já é motivo para o afastamento de um juiz".

Juliano Breda, advogado que atua na Lava Jato e preside a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Paraná, diz que a posição de Moro de que pensaria no convite de Bolsonaro já denota suspeição. "A declaração evidencia uma aproximação político-partidária incompatível para a isenção que se espera de um magistrado que, neste caso, julgaria o ex-adversário político do presidente eleito", afirma.

Segundo Breda, pela lei brasileira é "praticamente impossível" comprovar a quebra de isenção do juiz. O Código de Processo Penal prevê que o juiz se declare suspeito "se for amigo íntimo ou inimigo capital", se for "cônjuge, ascendente ou descendente", "se for credor ou devedor" ou sócio de algum réu do processo.

Mas ele não vê essa dificuldade no caso da decisão de Moro de se encontrar com Bolsonaro: "Parece ser claro que houve perda total de imparcialidade com a cogitação pública de exercer um dos principais cargo de confiança de quem chegou a pregar a eliminação dos 'petralhas'".

O criminalista Alberto Toron diz que o encontro com Bolsonaro implica perda da imparcialidade por conta da oposição e confrontos entre Bolsonaro e Lula – o presidente eleito disse que Lula deveria apodrecer na prisão. "Se ele é partidário do Bolsonaro, há uma antinomia em relação a Lula", afirma.

O encontro com Bolsonaro, segundo Toron, precisa ser somado a um histórico de fatos polêmicos do juiz em relação ao ex-presidente, entre os quais ele inclui a divulgação de conversas telefônicas de Lula quando a então presidente, Dilma Rousseff, cogitava nomeá-lo ministro, em 2016, e da delação de Antonio Palocci àss vésperas do primeiro turno das eleições.

Há visões discordantes sobre a eventual perda da imparcialidade do juiz. O advogado Thiago Bottino, coordenador do curso de direito da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, diz não ver problemas no convite. "De todas as situações em que o juiz se manifestou politicamente, falando fora dos autos, comentando casos, dizer que vai pensar no convite é o menos problemático do ponto de vista da imparcialidade".

A parcialidade, de acordo com Bottino, precisa ser analisada a partir de atos nos processos que tiveram um viés contra o ex-presidente, como a divulgação das conversas de Lula em 2016 e da delação de Palocci. Nesses casos, afirma, Moro foi parcial.

O juiz Moro diz que só comenta questões dos processos que julga nos autos.


© Copyright 2018. Folha de Pernambuco.
www.folhape.com.b

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Editorial


Bolsonaro e Haddad, em seus discursos, reduziram em vários graus o tom belicoso da campanha eleitoral e conclamaram respeito às regras do jogo e prevalência do interesse nacional.


DESARMANDO OS ESPÍRITOS


O Estado de S. Paulo




 


Tanto o presidente eleito Jair Bolsonaro como o candidato derrotado Fernando Haddad, tão logo o resultado da eleição presidencial foi conhecido, trataram de acalmar os ânimos da sociedade, bastante exaltados ao longo da campanha eleitoral, especialmente na reta final. Dado o nível da disputa, muito abaixo do que seria considerado civilizado, não surpreende que os dois contendores tenham sido incapazes de respeitar a etiqueta prevista para a ocasião – isto é, nem o candidato derrotado telefonou para o vencedor nem o vencedor mencionou o nome do derrotado ao fazer seu discurso da vitória.

No entanto, Bolsonaro e Haddad, em seus discursos, reduziram em vários graus o tom belicoso da campanha eleitoral e conclamaram respeito às regras do jogo e prevalência do interesse nacional.
É evidente que há uma distância muito grande entre o discurso e a prática, mas, no momento, esses pronunciamentos servem de baliza para o comportamento da militância de parte a parte e também para enquadrar as expectativas do País, ajudando a desanuviar um pouco o clima de apocalipse que se instaurou há algumas semanas.

Bolsonaro fez dois discursos. O primeiro foi de improviso, feito para as redes sociais, ambiente no qual o eleito fez praticamente toda a sua campanha. Ali, pareceu dirigir-se a seus aguerridos simpatizantes, ao criticar a “grande mídia” e ao dizer que o País não podia mais “continuar flertando com o socialismo, com o comunismo e com o populismo” – numa referência ao PT, seu alvo predileto durante a campanha. Nem parecia que a campanha havia se encerrado.
Felizmente, o presidente eleito fez logo em seguida outro pronunciamento, este sim, dirigido ao conjunto da sociedade – quando então manifestou seu compromisso de ser “um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade”.

A palavra “liberdade”, aliás, foi uma das mais repetidas por Bolsonaro: “O que ocorreu hoje nas urnas não foi a vitória de um partido, mas a celebração de um país pela liberdade. (...) Liberdade é um princípio fundamental. Liberdade de ir e vir, andar nas ruas em todos os lugares deste país. Liberdade de empreender. Liberdade política e religiosa. Liberdade de informar e ter opinião. Liberdade de fazer escolhas e ser respeitado por elas”.

A ênfase nas liberdades e no respeito ao Estado Democrático de Direito pareceu ser uma resposta à frequente acusação de que Bolsonaro flerta com soluções autoritárias – afinal, em sua carreira política, fez elogios à ditadura e a torturadores. Assim, é importante que Bolsonaro tenha se sentido na obrigação de reafirmar seu respeito à Constituição e aos primados da democracia, pois nada, nem agora nem no futuro, pode justificar a violação desses princípios.

O mesmo se pode dizer da oposição que o PT pretende liderar. O discurso de Fernando Haddad ao admitir a derrota fez constar as referências de praxe à prisão do chefão Lula da Silva e ao impeachment de Dilma Rousseff, por ele considerados atos de exceção, mas em seguida dirigiu-se a “todo o povo brasileiro”, ao dizer que “nós temos a responsabilidade de fazer uma oposição colocando os interesses nacionais (...) acima de tudo”. E Haddad acrescentou: “Vamos defender os nossos pontos de vista, respeitando a democracia, respeitando as instituições, mas sem deixar de colocar o nosso ponto de vista”.

É alvissareiro, vindo de um petista, que haja declarada disposição de fazer oposição pensando no interesse do País, e não, como é costume no partido de Lula da Silva, pensando nas estratégias eleitoreiras do demiurgo de Garanhuns. Quando diz que “daqui a quatro anos nós teremos uma nova eleição”, Haddad sinaliza à militância que deve respeitar o mandato conferido a Bolsonaro, coisa incomum em se tratando do PT, campeão de pedidos de impeachment quando esteve na oposição. Resta saber qual será a representatividade de Haddad no PT, pois, até onde se sabe, o partido continuará a ser dirigido de uma cela em Curitiba.

Vencido e vencedor parecem ter compreendido que o discurso de ódio, uma vez apurada a vontade soberana da Nação, levaria a uma perigosa ruptura. Atenderam, portanto, ao chamado da razão, também para não serem estigmatizados por uma Nação que só deseja concórdia e prosperidade.

(30/10/18)

domingo, 28 de outubro de 2018

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

ALTER EGOS

Imagem relacionadaImagem relacionada

by POLONSKY, David (2017)/ by DA VINCI, Leonardo (1506)


Faltam poucas páginas para eu concluir a leitura da fantástica Grafic Novel "O diário de Anne Frank" (imagem acima) e sinto um enorme vazio. Quantas Annes Franks foram ceifadas na Segunda Guerra e quem pagou por esses crimes? Tive uma "maratona" de pesadelos nas duas últimas noites.
Annelies Marie Frank estaria hoje com 89 anos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Charge

Esta charge sobre Bolsonaro foi censurada por site de notícia de Patos de Minas (MG).

domingo, 8 de julho de 2018

Acesse conteúdos restritos a assinantes (sem burocracia)






Basta fazer a busca, no Google, da matéria que você deseja acessar e selecione a opção EM CACHE, conforme figura acima. Pronto. Se preferir, você pode salvar o arquivo em PDF instalando um  software como a impressora virtual CUTEPDF.

Fotocharge




Recebido via WhatsApp