segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Niterói, 17/12/1961
Foi a trapezista Nena quem deu o alerta. Momentos antes, pendurada na barra de ferro, a quase vinte metros do chão, ela balançava-se confiando apenas em sua habilidade. Aos 39 anos, não se valia do sobrenome. Irmã do dono do circo, poderia ocupar função administrativa ou mais segura. Pouco mais cedo, suspenso de cabeça para baixo no trapézio, preso pelas pernas, seu marido e companheiro de número, Santiago Grotto, tinha dado o comando de partida, em inglês:
— Go!
Ao som do tema de Lara, do filme Doutor Jivago, que fazia muito sucesso na época, Nena, apelido de Antonietta Stevanovich, havia saltado da plataforma e segurado a barra. Após balançar, soltou-se, deu uma volta e meia no ar e foi agarrada pelas pernas por Grotto. Ele lançou-a de novo para o trapézio enquanto outro colega, Vicente Sanches, jogava-se até seus braços. Nena e Sanches se cruzaram no ar. Ele foi amparado por Grotto e ela alcançou a barra. Grotto arremessou Sanches em direção a Nena e os dois voltaram juntos para o alto da plataforma, encerrando o salto cruce, clímax do espetáculo.
Os três trapezistas preparavam-se para receber os aplausos de praxe quando Grotto teve sua atenção desviada para uma luz esverdeada na parte de baixo da lona, à sua direita. Não demorou a entender o que estava acontecendo. Fez sinal em direção aos colegas, pedindo pressa, mas eles também já haviam notado o problema. Grotto imediatamente saltou de costas rumo à rede de segurança e desceu para o chão. Nena pulou em seguida. O marido esperou que a rede parasse de balançar, pegou a mulher pela cintura e botou-a no picadeiro. Ela olhou para o alto, viu que Sanches ainda estava na plataforma e hesitou. “Se eu der o alarme agora, ele morre”, pensou. A trapezista esperou então que ele pulasse para gritar:
— Fogo!
Não lhe passou pela cabeça que as chamas se propagariam tão depressa. Os três saíram pela porta dos fundos, escapando ilesos.
Pouco antes, Semba tinha sido aplaudido por mais de 3 mil espectadores. Agora, também saía fugido do picadeiro. Aos 24 anos, sempre tivera um comportamento previsível. Evitava gestos bruscos, pois sabia que a punição lhe doía no couro. Preferia movimentos estudados, porque assim lhe fora ensinado. Como todo mundo no circo, ele havia acabado de ouvir o grito de fogo. O corre-corre do público provocou-lhe inquietação, a gritaria da multidão deixou-o irrequieto, mas somente quando um pedaço de lona queimada o atingiu ele percebeu que chegara a hora de deixar a prudência de lado e debandar. Sua escapada seria comentada anos à frente. Ele seria olhado com um misto de respeito e temor, admiração e cólera. Herói para uns, porque abriu espaço por onde muitos passaram, vilão para outros, porque provocou mortes em seu caminho, Semba acabou se salvando com poucas escoriações. Durante a fuga, moveu-se com uma desenvoltura incomum para suas quatro toneladas, o que poderia causar estranheza, não fosse ele um elefante — ou melhor, uma elefanta.
O fogo teve início a cerca de vinte metros da entrada, do lado esquerdo. Veio de baixo, a menos de três metros do chão, mas lambeu a lona com tamanha rapidez que, ao ser visto, não pôde mais ser contido. As labaredas avançaram com uma fúria inconcebível num espaço que até pouco antes era dominado pela alegria das crianças. A madeira das arquibancadas e a serragem no piso ajudaram a propagar o incêndio e a encher de fumaça o ambiente. Muitos espectadores estranharam o aumento súbito da temperatura, mas atribuíram o desconforto ao calor excessivo do dia. O ar abafado daquele domingo neutralizou as desconfianças e impediu que se suspeitasse de imediato de alguma anormalidade. O incêndio não democratizou as mortes. Suas vítimas foram principalmente os que estavam nos camarotes e nas cadeiras numeradas, mais caros, mais próximos do picadeiro, mais distantes da saída principal e separados das arquibancadas por uma cerca de madeira. Crianças, adultos e velhos foram atropelados e pisoteados quando tentavam escapar. O perigo também vinha do alto. À medida que as chamas avançavam pela cobertura, davam origem a uma chuva de gotas incandescentes, que atingiam corpos e cabeças.
Os artistas e funcionários pouco puderam ajudar. O tratorista do circo, Belmiro Cláudio Nunes, viu quando uma mulher e uma criança correram para o centro do picadeiro. Puxou-as para a saída dos fundos e tentou voltar para ver se salvava mais alguém, mas teve que desistir. O contorcionista Geraldo Alves e o anão Cebolinha assistiram impotentes ao drama dos espectadores. O domador Ramon dos Santos tratou de agir e correu para a jaula da zebra, afastando-a para longe. Os palhaços argentinos Oscar Raul Rodriguez e seu filho, Juan Raul Rodriguez, de doze anos, mais conhecidos como Astillita e Mosquito, estavam no carro-camarim quando ouviram os primeiros gritos da multidão. Com esforço, Juan conseguiu derrubar uma das chapas de zinco que cercavam o terreno do circo e saiu para a rua. Do lado de fora, observou o fogo contornar o pano e subir em direção ao mastro central. Pedaços de lona e madeira desabavam sobre a multidão. No salve-se quem puder, homens pisoteavam mulheres e crianças. Uma senhora, com as roupas em chamas, atirou-se contra as arquibancadas e rolou para apagar o fogo, com o rosto já desfigurado. Um senhor carregava uma mulher carbonizada nos braços. Três elefantes subiam sobre as patas traseiras e soltavam gritos horríveis. O que Juan viu se fixaria em sua memória para sempre.
Em meio ao caos, o domador Osvaldo Stevanovich tomou uma decisão que resultou oposta à que pretendia: soltou as amarras que sustentavam os mastros centrais, imaginando que assim a lona cairia para trás. Sem as oito cordas, as quatro estacas que amparavam o circo perderam o apoio e desabaram. Um estrondo anunciou a queda da última coluna, e a lona arriou por completo, pendendo para a frente, em direção à saída principal, e cobrindo quem ainda não havia escapado do atropelo nem se livrado da fumaça e driblado os pingos flamejantes. O Gran Circo Norte-Americano se transformou num “braseiro”, segundo a imprensa. Uma metáfora usada na época dizia que a cobertura aprisionou os espectadores como se fosse uma rede de peixe ardente. Uma comparação pertinente, já que a lona era enredada, isto é, guarnecida internamente por pequenos quadrados de corda.
O incêndio durou menos de dez minutos, o suficiente para que centenas de espectadores fossem queimados, pisoteados ou asfixiassem. Jamais tantos brasileiros morreram em tão pouco tempo e no mesmo lugar como naquele domingo em Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro.
O aviso de Nena se espalhou instantaneamente do circo para as rádios, das rádios para os ouvintes e alcançou o clínico geral Waldenir Bragança quando retornava com a família da cidade de Araruama, na Região dos Lagos. O médico deixou os parentes em casa e seguiu para o terreno do Gran Circo. Chegou a carregar vítimas de queimaduras para uma ambulância, até perceber que teria mais utilidade atendendo feridos no hospital. Mas, ao contrário do que seria de esperar, não foi para o Hospital Municipal Antonio Pedro (hmap), o principal da região. O motivo é que ele estava fechado, justamente no momento em que Niterói mais precisava. Tinha sido ocupado quinze dias antes por estudantes de medicina, insatisfeitos com as condições de trabalho. Bragança, que 22 anos depois se tornaria prefeito da cidade, encaminhou-se para o improvisado Hospital Psiquiátrico de Jurujuba.
A informação chegou a Maria Pérola em meio à festa de encerramento das atividades dos lobinhos, como são chamados os escoteiros de sete a onze anos, de Niterói. Um dos pais, parado junto ao carro no estacionamento da faculdade de arquitetura e engenharia, escutou a notícia e correu para alertá-la. Maria Pérola, que viria a desempenhar papel importante na tragédia, era akelá — chefe dos lobinhos — desde 1951. Ela imediatamente reuniu a chefia e incumbiu dois colegas, com a colaboração dos pais dos meninos, de encerrar a festividade sem criar pânico, ao mesmo tempo que os demais chefes seguiam em direção aos hospitais para doar sangue.
Nesse momento, Celso Peçanha repassava mentalmente a agenda, no carro oficial que o trazia de volta a Niterói. Ele tinha passado o dia em Santa Maria Madalena, no interior do estado, onde fora cumprir uma programação típica de governador: acompanhar a inauguração de obras no horto florestal da cidade e o início da construção da ponte de Santa Margarida, na estrada Campos-Madalena. Aproveitou a ocasião para fazer as promessas habituais. Anunciou que o serviço de abastecimento de água do município estava em fase de conclusão. Disse que instalaria mais uma escola na cidade, foi paraninfo das professoras da Escola Normal e pediu aos fazendeiros que colaborassem no Natal das crianças pobres e no auxílio ao Asilo da Velhice de Madalena, para que a instituição pudesse “comemorar a data magna da cristandade”. De lá, Peçanha seguiu para Conceição de Macabu, onde autorizou a criação de uma Escola Normal, anexa ao Ginásio Macabuense. Na estrada entre Maricá e Rio do Ouro, sua atenção foi despertada pela narração dramática de um locutor de rádio. O governador percebeu a gravidade da situação e pediu ao motorista que acelerasse.
Naquele domingo, o pequeno empresário José Datrino, dono de uma transportadora de cargas em Guadalupe, no Rio de Janeiro, a quase quarenta quilômetros dali, estava com a mulher e os cinco filhos em casa, na rua Manoel Barata, quando escutou o comunicado e se viu tomado por uma sensação estranha, indefinível. Não deu maior atenção até que, seis dias depois, na antevéspera do Natal, aquela impressão vaga ganhou alguma concretude ao ouvir um aviso divino. Passava pouco do meio-dia e ele entregava mercadorias em Nova Iguaçu quando uma voz astral lhe ordenou que, já no dia seguinte, deixasse seus “afazeres materiais” e representasse Jesus de Nazaré na terra. Eram três chamados espirituais, um seguido do outro: Datrino deveria “perdoar toda a humanidade, ensinar a perdoar uns aos outros e mostrar o caminho da verdade que é o nosso Pai”. Seus ajudantes notaram que nesse exato instante o patrão ficou alegre. Seguiu fielmente a convocação. No dia 24 de dezembro, conforme determinado, largou os negócios, abandonou a família e dirigiu-se para Niterói. Começava a surgir aí o profeta Gentileza, que se tornaria no futuro o personagem-símbolo do incêndio.
Nessa altura, o mundo já tomara conhecimento do que a agência de notícias Associated Press classificou de “a maior tragédia circense da história”.
Trechos de "O ESPETÁCULO MAIS TRISTE DA TERRA - O incêndio do Gran Circo Norte-Americano", de Mauro Ventura. São Paulo: Companhia das Letras, 2011
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Imagens do ano (Associated Press)
Algumas fotos registradas pela agência norte-americana Associated Press (AP) em 2012.
(1)
Dave Martin, 4 de maio; (2) Vincent Thian, 28 de setembro; (3) Keystone/Martial Trezzini, 5 de fevereiro;
(4) Manish Swarup, 28 de março
Fonte: Best Associated Press Photos of the 2012 Year
domingo, 30 de dezembro de 2012
Suprema covardia
O pedido de Habeas Corpus de Olga Benário Prestes
"O caso de Olga é de uma violência jurídica que indica nódoa na história
do Direito brasileiro; grávida, havia mais interesses em
jogo."
A peça inicial do Habeas Corpus foi endereçada à Egrégia Corte Suprema. Seu autor era o advogado Heitor Lima. Iniciava-se com simplicidade, apontando que “o advogado Heitor Lima vem impetrar habeas corpus a favor de Maria Prestes, presa à disposição do Senhor Ministro da Justiça para ser expulsa do território nacional”. Em seguida, Heitor Lima indicava as razões da prisão de sua cliente:
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A peça inicial do Habeas Corpus foi endereçada à Egrégia Corte Suprema. Seu autor era o advogado Heitor Lima. Iniciava-se com simplicidade, apontando que “o advogado Heitor Lima vem impetrar habeas corpus a favor de Maria Prestes, presa à disposição do Senhor Ministro da Justiça para ser expulsa do território nacional”. Em seguida, Heitor Lima indicava as razões da prisão de sua cliente:
A paciente foi recolhida há meses à Casa de Detenção, onde ainda continua na mais rigorosa incomunicabilidade, sob a acusação de que participara, direta e indiretamente, nos graves acontecimentos [Intentona Comunista] de novembro último. A ela atribuem-se atos e fatos que, a serem verdadeiros, determinariam necessariamente a sua condenação como autora intelectual e cúmplice em vários delitos contra a ordem política e social.
O estilo
forense de meados do século passado, especialmente em matéria criminal,
era contundente, direto, e o pano de fundo político da questão
substancializava reflexões de cunho metajurídico, que tocam o leitor
contemporâneo, porque decorrentes de testemunha ocular de tempo de
triste memória. Heitor Lima escreveu parágrafo denso, invocando a
competência da União para processar criminosos no Brasil, engate lógico
que vai ensejar o pedido, no sentido de que a paciente ficasse no país:
Ora, dentro das nossas fronteiras a ninguém é lícito fugir à ação da soberania nacional, salvas as disposições dos tratados e as regras do direito das gentes. A lei penal é aplicável a todos os indivíduos, sem distinção de nacionalidade, que, em território brasileiro, praticarem fatos criminosos e puníveis. A União, sem dúvida, expulsará os estrangeiros perigosos à ordem pública ou nocivos aos interesses do país; mas não há de a expulsão assumir o caráter de burla às nossas leis penais, nem terá aspecto de prêmio ao alienígena que, abusando da nossa hospitalidade, aqui delinqüe, e, repatriado, vai livremente viver onde quiser.
* * *
Militante comunista que conviveu com Luís Carlos Prestes, e que com
ele fora presa, e que dele teve uma filha, Olga simboliza mulher que
viveu, lutou e morreu pelos ideais. Sua trajetória impressiona. Olga
viveu também o holocausto por conta de sua condição de judia. Olga,
segundo o escritor Fernando Morais, não se importava em
continuar na prisão. "O que a aterrorizava era a perspectiva de
ser enviada ao seu país de origem (...) cair nas mãos de Hitler, para
ela que, além de judia, era comunista, seria o fim de tudo" (MORAIS, cit., p. 187)*.
Invocou-se conceito de interesse público para
se justificar o movimento que conduziu à expulsão de Olga, e que não
foi obstaculizado pelo Supremo Tribunal Federal, como se verá.
* * *
A petição inicial de Habeas Corpus
protocolada pelo advogado Heitor Lima em defesa de Maria Prestes (Olga)
tinha como centro da argumentação a tese de que a paciente não poderia
ser expulsa e que deveria permanecer no Brasil, para aqui ser julgada
pelas autoridades nacionais. Tratou-se de Habeas Corpus inusitado. É o
que o remédio se presta historicamente para libertar o preso (chamado de
paciente). No caso de Olga pretendia-se o contrário; isto é, que
permanecesse encarcerada, condição única de sobrevivência, não obstante
os maus tratos. É que, judia, seria entregue à Gestapo, de onde seria
encaminhada para um campo de concentração, no qual a morte a esperava. E
foi o que aconteceu.
A tese de Heitor Lima centrava-se na afirmação de que criminosos deveriam ser punidos, depois de julgados, e não expulsos. No entanto, ainda segundo Heitor Lima, o estrangeiro nocivo, e só este, é que poderia ensejar expulsão. E porque a paciente supostamente teria cometido crime, aqui mesmo no Brasil deveria ser julgada, processada e eventualmente penalizada. E também pelo fato de que era estrangeira, porém não nociva, até porque estava grávida, não haveria razões justificativas de expulsão.
* * *
A tese de Heitor Lima centrava-se na afirmação de que criminosos deveriam ser punidos, depois de julgados, e não expulsos. No entanto, ainda segundo Heitor Lima, o estrangeiro nocivo, e só este, é que poderia ensejar expulsão. E porque a paciente supostamente teria cometido crime, aqui mesmo no Brasil deveria ser julgada, processada e eventualmente penalizada. E também pelo fato de que era estrangeira, porém não nociva, até porque estava grávida, não haveria razões justificativas de expulsão.
* * *
Heitor Lima insistia no fato de que havia crime a ser processado, e que por esta razão à paciente não se poderia conceder liberdade,
mediante expulsão. É neste sentido que o Habeas Corpus é diferente,
inusitado e inesperado. O impetrante pretendia manter a paciente
encarcerada. Além do que, a prestigiar-se a pretensão da Polícia, que
objetivava expulsar a interessada, ter-se-ia, por via indireta, invasão
de competência, de modo que a parte subtrairia conteúdo do todo, isto é,
a Polícia, subordinada, mitigaria a capacidade do Ministério da
Justiça.
Por outro lado, as autoridades policiais contavam
com argumento muito forte; é que se vivia Estado de Exceção, no qual
não há regras a serem respeitadas, pelo menos em favor dos que
estivessem contrários ao regime que se instala no poder.
* * *
A gravidez
de Olga fora aspecto essencial na discussão, de muito relevo, mas que
não foi adequadamente levado em conta pelos julgadores.
O advogado
de Olga insistia que a maternidade alterava profundamente o
comportamento da paciente. A passagem é demonstrativa de uma advocacia
diferente, talentosa, qualificadora de peça de rara beleza:
A paciente não quer mais deixar o Brasil. Grandes revoluções morais operam-se no coração de Maria Prestes. Dir-se-ia que, preparando-se para a maternidade, um novo mundo se elabora dentro da sua alma e novos horizontes se rasgam às suas aspirações. O modo como alude ao advento do ser que alimenta dentro de si com o próprio sangue, e fará vivê-la pelo amor, prenuncia radicais transformações na sua conduta futura. A maternidade vai mudar completamente a sua concepção da existência da sociedade e do universo.
* * *
Nas considerações finais, que antecedem ao
pedido propriamente dito, Heitor Lima apelou para a Corte, invocando uma
compreensão mais ampla dos fatos:
No processo de expulsão há somente três depoimentos de investigadores de polícia, ouvidos na ausência da acusada; os investigadores limitam-se a informar que na Delegacia de Segurança Política a expulsanda é tida por agitadora, e por isso os depoentes afirmam que ela constitui perigo para a segurança nacional, nada mais. Não seria preferível o decreto de expulsão puro e simples, sem essa simulação de respeito às fórmulas jurídicas?
Porque Olga não possuía recursos
financeiros para providenciar o recolhimento de custas e protocolar o
pedido, a petição ainda explicitava os porquês do descumprimento da
referida exigência legal:
A presente petição não vai selada, nem devidamente instruída, porque a paciente se encontra absolutamente desprovida de recursos. O vestido que traz hoje é o mesmo que usava quando foi presa; e o pouco dinheiro, os valores e as roupas que a polícia apreendeu na sua residência até hoje não lhe foram restituídos.
Heitor Lima, por fim, deduzia o pedido:
Requer, pois, o impetrante que esta Egrégia Corte Suprema: 1º — Determine que o presente pedido se processe sem custas. 2º — Solicite do Snr. Ministro da Justiça informações sobre o alegado neste requerimento, do qual se lhe remeterá cópia. 3º — Requisite os autos do processo de expulsão. 4º — Ordene o comparecimento da paciente para a sessão de julgamento. 5º — Faça submeter a paciente a uma perícia médica, no sentido de precisar o seu estado de gravidez. 6º — Solicite que o Snr. Chefe de Polícia informe se, no inquérito a que, juntamente com Luiz Carlos Prestes, responde a paciente, é Maria Prestes acusada de vários delitos contra a ordem política e social. 7º — Conceda afinal a ordem de hábeas corpus, a fim de que a paciente não seja expulsa do território nacional, sem prejuízo do processo ou processos a que esteja respondendo ou venha a responder.
Heitor Lima datava a petição, 3 de junho de 1936,
assinando-a. Bento de Faria, então presidente do Supremo Tribunal
Federal, no mesmo dia, 3 de junho, despachou em manuscrito, determinando
que o impetrante recolhesse as custas, querendo. Heitor Lima,
provavelmente enfurecido, datilografou réplica, de riqueza e de coragem e
de nobreza de espírito inalcançáveis:
Se a justiça masculina, mesmo quando exercida por uma consciência do mais fino quilate, como o insigne presidente da Corte Suprema, tolhe a defesa a uma encarcerada sem recursos, não há de a história da civilização brasileira recolher em seus anais judiciários o registro desta nódoa: a condenação de uma mulher, sem que a seu favor se elevasse a voz de um homem no Palácio da Lei. O impetrante satisfará as despesas do processo. Rio de Janeiro, 4 de junho de 1936. Heitor Lima.
* * *
O pedido de Habeas Corpus foi negado pelo Supremo
Tribunal Federal. Por maioria, não se conheceu do pedido, com base no
artigo 2º do Decreto 702, de 21 de março de 1936, que vedava a
utilização do remédio, naquele caso. Segue o teor da decisão:
Vistos, relatados e discutidos estes autos de habeas-corpus impetrado pelo Dr. Heitor Lima em favor de Maria Prestes, que ora se encontra recolhida á casa de detenção, a fim de ser expulsa do território nacional, como perigosa á ordem pública e nociva aos interesses do país: A Corte suprema indeferindo, não somente a requisição dos autos do respectivo processo administrativo, como também o comparecimento da paciente e bem assim a perícia médica afim de, constatar o seu alegado estado de gravidez, e atendendo a que a mesma paciente é estrangeira e a sua permanência no país compromete a segurança nacional, conforme se depreende das informações prestadas pelo Exmo. Sr. Ministro da Justiça; atendendo a que, em caos tais não a como invocar a garantia constitucional do habeas-corpus, á vista do disposto no art. 2º do decreto nº 702 de 21 de Março deste ano. ACORDA, por maioria, não tomar conhecimento do pedido. Custas pelo impetrante. Corte Suprema, 17 de Junho de 1936.
Os
ministros do Supremo Tribunal Federal não conheceram do pedido, com
exceção dos ministros Carlos Maximiliano, Carvalho Mourão e Eduardo
Espínola, que conheciam e indeferiram.
* * *
A paciente foi
deportada. Estava grávida. Presa na Alemanha, aguardando a morte em um
campo de concentração, cuidando da criança recém-nascida, Olga manteve
permanente correspondência com Prestes. Enquanto aguardava desfecho de
situação imprevisível, Olga cuidava da criança que nasceu na prisão
alemã. Trata-se do deslocamento da pena, em desfavor de algum que
transcende à acusada que, a propósito, ainda não fora efetivamente
julgada. Em 7 de setembro de 1937, Olga, em passo de muita ternura,
descrevia para Prestes os avanços da pequena garota:
Estes últimos tempos, o desenvolvimento da Anita avança cada vez mais rapidamente; quase que diariamente ela “sabe” alguma coisa nova. É interessante como a curiosidade e as brincadeiras são os motores de um desenvolvimento físico sempre novo. Ao pé da minha cama, encontra-se uma mesinha. Quando ela está sentada, não consegue ver tudo o que se passa. No início, ela fazia força para subir pela grade da sua cama, mas agora já consegue ficar em pé e suas mãozinhas pegam tudo que se encontra na mesa. Um dia destes, quando eu ainda não havia absolutamente entendido a nova situação, procurava desesperadamente o meu pedaço de pão, que acabavam de me dar. Finalmente, descobri que estava com a pequenina, que mastigava com fervor seu novo "brinquedo".
Em 8 de novembro
de 1937 Olga escrevia a Prestes que fora obrigada a desmamar a pequena
garota que tinham. Pressentia que em breve a criança seria afastada. Em
carta de 12 de fevereiro de 1938, quando Olga completava 30 anos,
escrevia e lembrava que passara os dias mais tristes da vida: a criança
fora dela retirada. Com a avó, a garota encontrava-se fora da prisão. Em
11 de março Olga escrevia que fora removida para a Alemanha Central,
dizia-se acamada, com febre, devido a uma crise de fígado. Em 5 de
novembro de 1941 Olga escrevia a última carta que dela Prestes recebeu.
Nela, Olga perguntava que flores Prestes preferiria na mesa: tulipas
vermelhas, ou rosas? A execução teria vindo logo em seguida.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Massacre em Sandy Hook e o fim do mundo
O fim do mundo esperado (mais ou menos ansiosamente) por alguns (ou por muitos) não é o sumiço definitivo e completo da espécie. Ao contrário: em geral, quem fantasia com o fim do mundo se vê como um dos sobreviventes e, imaginando as dificuldades no mundo destruído, aparelha-se para isso.Em todos os fins do mundo que povoam os devaneios modernos, alguns ou muitos sobrevivem (entre eles, obviamente, o sonhador), mas o que sempre sucumbe é a ordem social. A catástrofe, seja ela qual for, serve para garantir que não haverá mais Estado, condado, município, lei, polícia, nação ou condomínio.Esse é o desejo dos sonhos do fim do mundo: o fim de qualquer primazia da vida coletiva sobre nossas escolhas particulares. O que nos parece justo, no nosso foro íntimo, sempre tentará prevalecer sobre o que, em outros tempos, teria sido ou não conforme à lei.[A mãe] do jovem que massacrou 20 crianças e seis adultos numa escola primária de Newtown, Connecticut, era uma "survivalist"; ela se preparava para o fim do mundo. Talvez, junto com as armas e as munições acumuladas, ela tenha transmitido ao filho alguma versão de seu devaneio.
Contardo Calligaris, psicanalista.
Íntegra AQUI.
sábado, 22 de dezembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Duília
Debruçado à janela, José Maria olhava para a cidade embaixo e achava a vida triste. Saíra na véspera o decreto de aposentadoria. À medida que os meses passavam, foi tomando horror à expressão "funcionário público aposentado", que lhe cheirava a atestado de óbito.
O melhor mesmo era ficar debruçado à janela. E todas as manhãs, enquanto a criada abria a meio as venezianas para deixar sair a poeira da arrumação, José Maria as escancarava para fazer entrar a paisagem. Dali devassava recantos desconhecidos. Ilhas que jamais suspeitara. Acompanhava a evolução das nuvens, começava a distinguir as mutações da luz no céu e sobre as águas. Notava que tinha progredido alguma coisa na percepção dos fenômenos naturais. Começava a sentir realmente a paisagem. E se considerava quase livre da uréia burocrática. Esse noivado tardio com a natureza fê-lo voltar às impressões da adolescência. Duília!
Reviu-se na cidade natal com apenas dezesseis anos de idade, a acompanhar a procissão que ela seguia cantando. Foi nessa festa da igreja, num fim de tarde, que tivera a grande revelação. Passou a praticar com mais assiduidade a janela. Quanto mais o fazia, mais as colinas da outra margem lhe recordavam a presença corporal da moça. Às vezes chegava a dormir com a sensação de ter deixado a cabeça pousada no colo dela. As colinas se transformavam em seios de Duília. Espantava-se da metamorfose, mas se comprazia na evocação.
Era o aforamento súbito da namorada, seus seios reluzindo na memória como duas gemas no fundo d'água. Só agora se dava conta de que, sem querer, transferira para Adélia a imagem remota. Mas Adélia não podia perceber que era apenas a projeção da outra.
Fazia uma tarde bonita. Pela primeira vez Zé Maria achara agradável estar na rua. Mulheres sorrindo, vitrinas iluminadas. Parecia que a cidade, à última hora, caprichava em exibir-lhe alguns de seus encantos. Assim procede a mulher indiferente, ao ver partir o homem a quem fez sofrer.
* * * *
A Rancharia é pouso forçado para quem atravessou ou vai atravessar a Cordilheira. Reconheceu-a de longe o viajante, pelo pé de tamarindo. O mesmo de sempre. O pernoite ali, enquanto os animais recebiam ração mais forte de sal e capim, ia permitir ao metódico funcionário a recuperação das forças exaundas. Viagem violenta demais para um sedentário. Ficara-lhe nos ouvidos o Paraúna com o barulho de suas águas. Não era o desconforto da cama nem a pobreza do aposento que lhe tiravam o sono; nem o latido dos cães, nem o relinchar dos burros; nem uma sanfona triste que parecia exprimir toda a solidão lá fora: era o fato de se achar mais perto, dentro quase daquilo que não precisava mais evocar para sentir. Mais algumas léguas e tocaria o núcleo de seu sonho.
O que mais o espantara no gesto de Duília - recordava-se José Maria durante a insônia, agarrando-se ao travesseiro - foi a gratuidade inexplicável e a absurda pureza. Ela era moça recatada, ele um rapazinho tímido; apenas se namoravam de longe. Mal se conheciam. A procissão subia a ladeira, o canto místico perdia-se no céu de estrelas. De repente, o séquito parou para que as virgens avançassem, e na penumbra de uma árvore, ela dá com o olhar dele fixo em seu colo, parece que teve pena e, com simplicidade, abrindo a blusa, lhe disse:
- Quer ver? - Ele quase morre de êxtase. Pálidos ambos, ela ainda repete:
- Quer ver mais? - E mostra-lhe o outro seio branco, branco... E fechou calmamente a blusa. E prosseguiu cantando... Só isso. Durou alguns segundos, está durando uma eternidade. Apenas uma vez, depois do acontecimento, avistara Duília.
- Quer ver? - Ele quase morre de êxtase. Pálidos ambos, ela ainda repete:
- Quer ver mais? - E mostra-lhe o outro seio branco, branco... E fechou calmamente a blusa. E prosseguiu cantando... Só isso. Durou alguns segundos, está durando uma eternidade. Apenas uma vez, depois do acontecimento, avistara Duília.
Daqui a pouco vem o Chapadão, avisou Soero. Era o trecho mais imponente e difícil no acesso à região de Duília. Por ali transitara há mais de quatro decênios, fazia uma noite escura, só pelos relâmpagos podia suspeitar o panorama irreal que se desdobrava de dia. Ia então fazer os preparatórios em Ouro Preto, e caminhava cheio de medo para o Futuro; seu pai e um caixeiro-viajante o acompanharam até a primeira estação da Estrada de Ferro. Láo puseram no carro. Foi quando começou a ficar só no mundo, e pela primeira vez chorou o choro da tristeza.
* * * *
Num córrego de águas frescas, os animais desarreados mataram a sede. Os dois homens jantaram o que traziam nos bornais. Os couros Foram novamente estendidos. José Maria, amedrontado, perguntou a Soero se havia onças por ali. O camarada tranqüilizou-o. Enquanto para este era aquela uma noite de rotina, para o velho funcionário repetia-se, a céu descoberto, a aventura excitante das margens do Paraúna. Doíam-lhe tanto os membros e era tal o cansaço, que já não podia contemplar por muito tempo as estrelas que cintilavam pertinho. Mergulhou no sono pesado. Às onze horas do dia seguinte, entrava no Arraial do Camilinho. Aí se dispunha a refazer as energias para a etapa final. Tudo o que vinha percorrendo já era país de Duília.
Mais seis horas e estaria naquela cidadezinha, face a face com a mulher sonhada. Não imaginava agora fosse tão fácil aproximar-se do que tão longe lhe parecera no tempo ou no espaço. Detinha o burro a cada momento; olhava, hesitava. Nem mesmo se inquietara com a nuvem de chuva que vinha avançando do nordeste. Soero estranhou a indiferença do patrão. O aguaceiro caiu, molhou a ambos. José Maria tinha medo de chegar.
Passou a chuva, veio o sol, borboletas voejavam sobre a lama recente. E Pouso Triste se aproximando... perfil de colinas conhecidas... o riacho cristalino com um último faiscador... o sítio do Janjão. Agora, o cemitério onde dormem os seus pais... "Estarei sonhando?"
- Pouso Triste!
Olhou confrangido. Era então aquilo!... E a cidade? Trazia na memória a visão de uma cidade: surgiu-lhe um arraial!... Pobre e inaceitável burgo, todo triste e molhado de chuva!... Foi descendo devagar. Passou em frente à igreja, entrou na praça vazia. Fantasmas desdentados conversavam à porta da venda.
Timidamente, pediu notícias à dona da pensão. A velha fez um esforço de memória. E tal como o passageiro da "jardineira", respondeu:
Timidamente, pediu notícias à dona da pensão. A velha fez um esforço de memória. E tal como o passageiro da "jardineira", respondeu:
- Duília?... Dona Dudu, não é? Uma viúva? Ah! sumiu daqui já faz tempo. Ouvi dizer que está de professora no Monjolo. Ainda que mal lhe pergunte, vosmecê é parente dela?
- Não, disse José Maria. E para desarmar a curiosidade da velha:
- Trago-lhe umas encomendas.
Deixou passar alguns instantes. Perguntou por perguntar:
- Sabe dizer se tem filhos?
- Filhos? Um horror de netos!... Que Deus me perdoe, o marido era uma peste.
Não quis saber do resto.
Não quis saber do resto.
* * * *
Monjolo se anunciava por um som de sanfona que parecia o gemido constante do fundo do Brasil. Foi surgindo pela frente um arraial ainda menor e mais pobre que Pouso Triste. Os urubus não freqüentavam o céu, quase se deixavam pisar pelas patas da alimária. José Maria engoliu um soluço. Tomados de espanto, os poucos moradores espiavam o estrangeiro. O letreiro "Escola Rural" aparecia em tinta esmaecida. Uma casinha modesta, com chiqueiro no porão. A sala de espera limpa, com gravuras de santos enfeitados de flores de papel, e que tanto servia à Escola como à residência, nos fundos. As carteiras escolares estavam quebradas. O viajante apeou-se, bateu à porta. Uma senhora, muito pálida, veio atendê-lo em chinelos.
- Eu queria falar com Duília... Dona Duília... corrigiu.
A senhora fê-lo entrar e sentar-se. Pediu licença, deixou a sala. Momentos depois, voltou mais arrumada. Seus cabelos eram grisalhos, a voz meio rouca, o sorriso agradável, apesar dos dentes cariados. Ainda não tinha sessenta anos, e aparentava mais.
- A senhora também é professora?
Duas crianças gritaram da porta:
- Dona Dudu! Dona Dudu!
Ela respondeu:
- Vão brincar lá fora. E virando-se para o estranho:
- Não se pode ficar sossegada um minuto. Esses meninos acabam com a gente.
José Maria sentiu como que uma pancada na nuca. Baixou as pálpebras, confuso. A professora ficou esperando que ele se identificasse. Notou-lhe a fisionomia alterada, um começo de vertigem.
- Está-se sentindo mal?
Saiu e voltou com um copo d'água.
- Não foi nada. O cansaço da viagem. Já passou.
Olhava para ela estarrecido. A mulher, aflita por que o desconhecido desse o nome.
- Veio a passeio, não é?
- Não. Não vim propriamente a passeio...
- Um lugar tão distante... Ultimamente as jazidas têm atraído muitos estrangeiros para cá.
- Eu não sou estrangeiro - respondeu o visitante. Sou brasileiro... E daqui... de bem perto daqui. Sou também de Pouso Triste...
Uma expressão de surpresa e simpatia clareou o rosto da professora. José Maria encarou-a com dolorosa intensidade. Subitamente empalideceu. Chegara o momento culminante. Fechou os olhos como se não quisesse ver o efeito das próprias palavras. A professora pressentiu que algo de grave trouxera até ali o sombrio visitante. Atordoada, esperou. José Maria principiou a falar:
- Lembra-se de um rapazinho, há muitos anos, que a viu numa procissão?
A mulher abriu os olhos.
- Nós tínhanos parado debaixo de uma árvore... lembra-se? Ela ainda está lá... não morreu. Eu olhava como um louco para você, Duília...
Ao ouvir pronunciar seu nome com intimidade cúmplice, a professora teve um arrepio. O homem não sabia como continuar. Hesitou um momento.
- Depois... depois eu larguei Pouso Triste. Nunca mais me esqueci. E só agora...
Parou no meio da frase. Tremia-lhe o queixo. A mulher, assustada, reconhecera nele o rapazinho de outrora. Fitou-o longamente. Passou-lhe pelo rosto um lampejo de mocidade. Volvendo a cabeça para o chão, enrubesceu com quarenta anos de atraso...
- Eu queria falar com Duília... Dona Duília... corrigiu.
A senhora fê-lo entrar e sentar-se. Pediu licença, deixou a sala. Momentos depois, voltou mais arrumada. Seus cabelos eram grisalhos, a voz meio rouca, o sorriso agradável, apesar dos dentes cariados. Ainda não tinha sessenta anos, e aparentava mais.
- A senhora também é professora?
Duas crianças gritaram da porta:
- Dona Dudu! Dona Dudu!
Ela respondeu:
- Vão brincar lá fora. E virando-se para o estranho:
- Não se pode ficar sossegada um minuto. Esses meninos acabam com a gente.
José Maria sentiu como que uma pancada na nuca. Baixou as pálpebras, confuso. A professora ficou esperando que ele se identificasse. Notou-lhe a fisionomia alterada, um começo de vertigem.
- Está-se sentindo mal?
Saiu e voltou com um copo d'água.
- Não foi nada. O cansaço da viagem. Já passou.
Olhava para ela estarrecido. A mulher, aflita por que o desconhecido desse o nome.
- Veio a passeio, não é?
- Não. Não vim propriamente a passeio...
- Um lugar tão distante... Ultimamente as jazidas têm atraído muitos estrangeiros para cá.
- Eu não sou estrangeiro - respondeu o visitante. Sou brasileiro... E daqui... de bem perto daqui. Sou também de Pouso Triste...
Uma expressão de surpresa e simpatia clareou o rosto da professora. José Maria encarou-a com dolorosa intensidade. Subitamente empalideceu. Chegara o momento culminante. Fechou os olhos como se não quisesse ver o efeito das próprias palavras. A professora pressentiu que algo de grave trouxera até ali o sombrio visitante. Atordoada, esperou. José Maria principiou a falar:
- Lembra-se de um rapazinho, há muitos anos, que a viu numa procissão?
A mulher abriu os olhos.
- Nós tínhanos parado debaixo de uma árvore... lembra-se? Ela ainda está lá... não morreu. Eu olhava como um louco para você, Duília...
Ao ouvir pronunciar seu nome com intimidade cúmplice, a professora teve um arrepio. O homem não sabia como continuar. Hesitou um momento.
- Depois... depois eu larguei Pouso Triste. Nunca mais me esqueci. E só agora...
Parou no meio da frase. Tremia-lhe o queixo. A mulher, assustada, reconhecera nele o rapazinho de outrora. Fitou-o longamente. Passou-lhe pelo rosto um lampejo de mocidade. Volvendo a cabeça para o chão, enrubesceu com quarenta anos de atraso...
* * * *
Quedaram-se por alguns momentos. O vazio do mundo pesava sobre o sossego do povoado. Grunhiam os porcos embaixo. Um cheiro de lavagem e de goiaba madura entrava pela janela, e parecia a exalação do passado. José Maria suspirou fundo. Aquela mulher, flor de poesia, era agora aquilo! Fantasma da outra, ruína de Duília... Dona Duília... Dudu! A mulher interrompeu a longa pausa:
- Tudo aqui envelheceu tanto! disse, erguendo a cabeça. Que veio fazer nesse fim de mundo, seu José Maria?
Ouvindo-a por sua vez pronunciar-lhe o nome, sentiu-se José Maria menos distante dela. Parecia que davam juntos o mesmo salto no tempo.
- Vim à procura de meu passado, respondeu.
- Viajar tão longe para se encontrar com uma sombra!
E volvendo-se para si mesma:
- Veja a que fiquei reduzida.
José Maria pousou o olhar no colo murcho, local do memorável acontecimento. Aquilo que ali estava poderia ser a mãe de Duília, da Duília que ele trazia na memória, jamais a própria.
- Não devia ter feito isso, advertiu a mulher, como que despertando da profunda cisma.
- O quê?
- Voltar ao lugar das primeiras ilusões.
"Sim, é verdade", pensou o homem, não devia ter vindo. O melhor de seu passado não estava ali, estava dentro dele. A distância alimenta o sonho. Enganara-se. Tal como Fernão Dias com as esmeraldas...
- Tudo aqui envelheceu tanto! disse, erguendo a cabeça. Que veio fazer nesse fim de mundo, seu José Maria?
Ouvindo-a por sua vez pronunciar-lhe o nome, sentiu-se José Maria menos distante dela. Parecia que davam juntos o mesmo salto no tempo.
- Vim à procura de meu passado, respondeu.
- Viajar tão longe para se encontrar com uma sombra!
E volvendo-se para si mesma:
- Veja a que fiquei reduzida.
José Maria pousou o olhar no colo murcho, local do memorável acontecimento. Aquilo que ali estava poderia ser a mãe de Duília, da Duília que ele trazia na memória, jamais a própria.
- Não devia ter feito isso, advertiu a mulher, como que despertando da profunda cisma.
- O quê?
- Voltar ao lugar das primeiras ilusões.
"Sim, é verdade", pensou o homem, não devia ter vindo. O melhor de seu passado não estava ali, estava dentro dele. A distância alimenta o sonho. Enganara-se. Tal como Fernão Dias com as esmeraldas...
* * * *
Ante o silêncio sombrio do visitante, a professora teve medo. Procurou aliviar-lhe o desespero contido.
- Vai voltar para o Rio?
Ao ouvir a voz mansa, José Maria enterneceu-se. Sentia-lhe no timbre a ressonância musical da antiga. Sentou-se de novo; e fechando o rosto com as mãos, caiu no pranto. Achou-se ridículo, pediu desculpas. Duília, compassiva, tomou-lhe a mão, procurou consolá-lo. Um sentimento comum aproximava-os. Espantou-se a professora ao se dar conta do que estava fazendo: dar a mão ao quase desconhecido de há pouco. Por longo tempo, as duas mãos enrugadas se aqueceram uma na outra. Mudos, transidos de emoção, ambos cerraram os olhos. Duas sombras dentro da sala triste... O homem não se conteve. Ergueu-se, saiu precipitadamente. A professora correu atrás:
Ao ouvir a voz mansa, José Maria enterneceu-se. Sentia-lhe no timbre a ressonância musical da antiga. Sentou-se de novo; e fechando o rosto com as mãos, caiu no pranto. Achou-se ridículo, pediu desculpas. Duília, compassiva, tomou-lhe a mão, procurou consolá-lo. Um sentimento comum aproximava-os. Espantou-se a professora ao se dar conta do que estava fazendo: dar a mão ao quase desconhecido de há pouco. Por longo tempo, as duas mãos enrugadas se aqueceram uma na outra. Mudos, transidos de emoção, ambos cerraram os olhos. Duas sombras dentro da sala triste... O homem não se conteve. Ergueu-se, saiu precipitadamente. A professora correu atrás:
- José Maria! Senhor José Maria!...
A voz rouca mais parecia soluço do que apelo.
- José Maria!
Os moradores se alvoroçaram:
- O que terá havido com a professora?
- Foi depois que chegou aquele estrangeiro alto!
- Quem será esse indivíduo?
E já se preparavam para perseguir o intruso, munindo-se de pedras e pedaços de pau. Mas o desconhecido desapareceu na escuridão. Parada no meio do largo, Duília arquejava. Ninguém lhe ouvia mais a voz nem lhe distinguia o vulto. Alguns soluços cortaram a treva.
By Aníbal Machado
sábado, 27 de outubro de 2012
domingo, 14 de outubro de 2012
VLC versão 2.0.3
O player famoso por tocar
absolutamente tudo agora é compatível com formatos HD e possui suporte à
aceleração gráfica.
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quarta-feira, 3 de outubro de 2012
O Estado são eles
Os ministros do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, [...] dois advogados medíocres, cultivados à sombra do poder petista para chegar onde chegaram, [...] possivelmente seja o primeiro caso comprovado de juízes de laboratório.
Alguns inocentes chegaram a acreditar que Dias Toffoli se declararia impedido de votar no processo do mensalão, por ter advogado para o PT durante anos a fio. Participar do julgamento seria muita cara de pau, dizia-se nos bastidores. Ora, essa é justamente a especialidade da casa.
[...] Quando se deu o escândalo do mensalão, Dias Toffoli era nada menos do que subchefe da assessoria jurídica de José Dirceu na Casa Civil. Os empréstimos fictícios e contratos fantasmas pilotados por Marcos Valério [...] eram coordenados exatamente da Casa Civil. O ministro está julgando um processo no qual poderia até ser réu.
[...] Seria coincidência, ou esses funcionários da revolução têm como pré-requisito a mediocridade?
Como se sabe, antes da varinha de condão de Dirceu, Dias Toffoli tentou ser juiz duas vezes em São Paulo e foi reprovado em ambas. Aí sua veia revolucionária foi descoberta e ele não precisou mais entrar em concursos. [...] Graças ao petismo, Toffoli foi ser procurador no Amapá, e depois de advogar em campanhas eleitorais do partido alçou voo à Advocacia-Geral da União. É claro que uma carreira brilhante dessas tinha que acabar no Supremo Tribunal Federal.
O advogado Lewandowski vivia de empregos na máquina municipal de São Bernardo do Campo. Aqui, um parêntese: está provado que as máquinas administrativas loteadas politicamente têm o poder de transformar militantes medíocres em grandes personalidades nacionais – como comprova a carreira igualmente impressionante de Dilma Rousseff. Lewandowski virou juiz com uma mãozinha do doutor Márcio Thomaz Bastos, ex-advogado de Carlinhos Cachoeira, que enxergou o potencial do amigo da família de Marisa Letícia, esposa do bacharel Luiz Inácio.
Desembargador obscuro, sem nenhum acórdão digno de citação em processos relevantes, Lewandowski reuniu portanto as credenciais exatas para ocupar uma cadeira na mais alta esfera da Justiça brasileira.
Suas diversas manobras para tumultuar o julgamento do mensalão enchem de orgulho seus padrinhos. A estratégia de fuzilar o cachorro morto Marcos Valério, para depois parecer independente ao inocentar o mensaleiro João Paulo, certamente passará à antologia do Supremo – como um marco da nova Justiça com prótese partidária.
Guilherme Fiuza
In: "Batman e Robin em ação no Supremo". Época, ed. 747, p.16.
sábado, 8 de setembro de 2012
Personagens que mudaram o mundo
Aconteceu quando estava autografando livros. Uma negra de meia-idade aproximou-se e perguntou:
–Você é Martin Luther King?
–Sim, sou eu.
Uma simples e polida troca de palavras; com resultados estarrecedores. A mulher deu um grito e cravou-lhe no peito um abridor de cartas.
Martin Luther King foi levado às pressas ao hospital. Depois de uma longa espera, a lâmina foi removida cirurgicamente. Com muita paciência, havia obedecido às enfermeiras e permanecera absolutamente parado, apesar das dores, pois o corte provocado pela lâmina alcançara uma fração de centímetro de uma artéria principal. O médico disse, depois da crise, que um mero espirro poderia tê-lo matado.
O incidente foi divulgado pelos jornais e Luther King ficou particularmente agradecido ao ler uma carta escrita a ele por uma jovem de quinze anos.
"Caro doutor King.
"Sou aluna da nona série da escola secundária de White Plains. Embora não tenha importância, gostaria de mencionar que sou uma garota branca. Li no jornal sobre seu infortúnio e seu sofrimento e que, se você espirrasse, teria morrido.
"Escrevo simplesmente para lhe dizer que estou muito contente por você não ter espirrado."
Valerie Schloredt e Pam Brown
In: "Personagens que mudaram o mundo: os grandes humanistas."
–Você é Martin Luther King?
–Sim, sou eu.
Uma simples e polida troca de palavras; com resultados estarrecedores. A mulher deu um grito e cravou-lhe no peito um abridor de cartas.
Martin Luther King foi levado às pressas ao hospital. Depois de uma longa espera, a lâmina foi removida cirurgicamente. Com muita paciência, havia obedecido às enfermeiras e permanecera absolutamente parado, apesar das dores, pois o corte provocado pela lâmina alcançara uma fração de centímetro de uma artéria principal. O médico disse, depois da crise, que um mero espirro poderia tê-lo matado.
O incidente foi divulgado pelos jornais e Luther King ficou particularmente agradecido ao ler uma carta escrita a ele por uma jovem de quinze anos.
"Caro doutor King.
"Sou aluna da nona série da escola secundária de White Plains. Embora não tenha importância, gostaria de mencionar que sou uma garota branca. Li no jornal sobre seu infortúnio e seu sofrimento e que, se você espirrasse, teria morrido.
"Escrevo simplesmente para lhe dizer que estou muito contente por você não ter espirrado."
Valerie Schloredt e Pam Brown
In: "Personagens que mudaram o mundo: os grandes humanistas."
terça-feira, 28 de agosto de 2012
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Destaque internacional
O jornal
americano The New York
Times (5/8) dedicou a capa de sua
edição com uma matéria sobre a busca pela verdade da violência política da
ditadura militar brasileira (1964-1985) e a figura da presidente Dilma Rousseff,
informou o portal Terra.
"NYT" destacou busca do Brasil pela verdade sobre torturas na ditadura
Assinada pelo jornalista Simon Romero, "A tortura da líder nos anos 70 agita fantasmas no Brasil" relata a história de Dilma falando da oposicionista torturada na juventude à presidente.
O texto destaca a discrição com que a presidente trata o assunto. "[Dilma] recusou-se a desempenhar o papel de vítima quando sutilmente pressiona por maior transparência [dos fatos ocorridos] nos anos da ditadura militar brasileira", diz trecho da matéria.
Fonte: Portal Imprensa
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sábado, 4 de agosto de 2012
Rock of Ages - O Filme
Em 1987, o rock agoniza nas mãos de astros entupidos de uísque, sexo, anfetaminas e falta de motivação, como Stacee Jaxx (Tom Cruise), vocalista do Arsenal. As boys band estão em alta, a música virou só um grande negócio. Os rock stars só conseguem cantar ainda em porões infectos, como o do Bourbon Room, em Los Angeles, outrora grandioso (uma espécie de CBGB do B). O próprio proprietário do clube, Dennis Dupree (Alec Baldwin) agoniza, enfrentando os impostos em atraso e a Liga das Senhoras Católicas local, encabeçada pela primeira-dama Patricia Whitmore (Catherine Zeta-Jones).
Mas o núcleo do musical importa pouco. O filme é um veículo para uma performance memorável de Tom Cruise. A entrevista que seu personagem, Stacee Jaxx, concede para uma repórter da revista Rolling Stone (Malin Akerman, em seu momento Paris Hilton definitivo), no filme, é um tratado da demência no star system. É a mais engraçada caricatura de um rock star em muitos anos de cinema. E, desde "Grease", o rock não tinha um filme tão expressivo como retrato de um período da música e da cultura populares.
Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
domingo, 8 de julho de 2012
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Watchmen: ano um
Abaixo, linque para download da primeira edição da polêmica minissérie lançada hoje nos EUA (clique em "low speed download" e aguarde a contagem regressivade 30 segundos):
Before Watchmen - The Minutemen (vol. 01)
Algumas revistarias boicotarão a venda em apoio ao cocriador dos personagens, Alan Moore, que alega usurpação do clássico original, "Watchmen", a obra do gênero mais vendida de todos os tempos e única HQ a figurar na lista dos 100 maiores livros do século 20, da revista "Time".
sábado, 26 de maio de 2012
Pobre menina
Talvez o desabafo seja o ponto final de uma demorada e penosa trajetória. Muitas vezes, vítimas de abuso só conseguem falar abertamente sobre o que aconteceu quando sublimam, de alguma forma, a violência. Este parece ser o caso de Xuxa. As feridas, que impedem pensar uma vida amorosa, ainda estão expostas.
O primeiro sinal deveria ser percebido no lar. A criança muda de comportamento com alguma pessoa. Pode também aumentar a agressividade ou, ao contrário, o isolamento. Geralmente, o molestador é conhecido.
Pensemos nos milhares de crianças que estão sendo abusadas – e que tal exposição propiciou que isso viesse à tona. As denúncias cresceram 30% após o depoimento. Xuxa, que se conecta com crianças, ajudou-as e a seus pais ao falar de forma tão pessoal de um tema tabu.
Marta Suplicy, hoje, na "Folha" (com adaptações).
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Estadão disponibiliza acervo integral na internete
O jornal "O Estado de S. Paulo" (originalmente, "A Provincia de São Paulo") disponibiliza a partir de hoje todas as suas edições. São mais de 2 milhões de páginas abrangendo três séculos de história, entre as quais se destacam a Abolição da Escravatura, a cobertura da Revolta de Canudos feita por Euclides da Cunha e as matérias originais censuradas pela Ditadura.
Acesse gratuitamente: acervo.estadao.com.br
domingo, 13 de maio de 2012
Gênio do mal
Advogado criminal nascido e criado em Patos de Minas faz fortuna em Brasília defendendo políticos denunciados por corrupção
ELE CONQUISTOU FAMA E MUITOS MILHÕES DE DÓLARES utilizando informações privilegiadas e se especializando em salvar o couro de colarinhos-branco, notadamente os do Distrito Federal. O perfil do criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, vulgo "Kakay", foi o destaque da revista Piauí de novembro, cuja capa remete a usurários e publicanos da Idade Média.
Ele é membro de família tradicional de Patos de Minas e sobrinho do glorioso Altino Caixeta de Castro. A mídia local não repercutiu a notícia, enviada a este colunista por um leitor.
"O entrevistado, inclusive, é meu parente, mas o que me chamou a atenção foi a arrogância, e, aparentemente, os métodos nada ortodoxos do fulano para 'se dar bem' na profissão. Como pode alguém se orgulhar de pessoas como José Sarney, ACM etc. a ponto de ter quadros seus (deles) pendurados na parede?"
O fato de os expedientes "nada ortodoxos" citados pelo prezado leitor baterem de frente com o Estatuto da Ordem não impede que o profissional seja promovido em publicações financiadas pela instituição.
“O caso, juridicamente, é simples, esse inquérito não tem como prosseguir”, declarou na semana passada, dois dias antes de o parlamentar renunciar à sigla e evitar sua expulsão do partido. “Há que se investigar o Ministério Público que durante três anos o gravou ilegalmente e há que se investigar por que o juiz determinou que ele fosse gravado durante três anos.”
A inconstitucionalidade dos grampos telefônicos por longos períodos foi tópico de palestra ministrada por Antônio Carlos a estudantes do curso de direito do Unipam, em 2010 (“O advogado criminal no Estado de Direito”), quando discorreu mais sobre os telefonemas que recebe de chefes e ministros de Estado, dentre outras autoridades, do que propriamente sobre escutas clandestinas.
Talentoso, imoral e exibicionista, Antônio Carlos se gaba de pagar quarenta mil reais em um único jantar e de ter roupa de cama personalizada com suas iniciais no Emiliano, referência em “hospitalidade de luxo". Todas as suas causas têm origem em sua rede de influência.
Abaixo, trechos da reportagem de Daniela Pinheiro.
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Outras páginas do autor: duck city / fakebook / post script / epitaphius / ombudsboy / portfolio
ELE CONQUISTOU FAMA E MUITOS MILHÕES DE DÓLARES utilizando informações privilegiadas e se especializando em salvar o couro de colarinhos-branco, notadamente os do Distrito Federal. O perfil do criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, vulgo "Kakay", foi o destaque da revista Piauí de novembro, cuja capa remete a usurários e publicanos da Idade Média.
Ele é membro de família tradicional de Patos de Minas e sobrinho do glorioso Altino Caixeta de Castro. A mídia local não repercutiu a notícia, enviada a este colunista por um leitor.
"O entrevistado, inclusive, é meu parente, mas o que me chamou a atenção foi a arrogância, e, aparentemente, os métodos nada ortodoxos do fulano para 'se dar bem' na profissão. Como pode alguém se orgulhar de pessoas como José Sarney, ACM etc. a ponto de ter quadros seus (deles) pendurados na parede?"
O fato de os expedientes "nada ortodoxos" citados pelo prezado leitor baterem de frente com o Estatuto da Ordem não impede que o profissional seja promovido em publicações financiadas pela instituição.
* * * *
Antônio Carlos
também está no centro do mais recente escândalo nacional: o suposto
envolvimento de seu cliente, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), na
rede de jogos ilícitos investigada pela Operação Monte Carlo, da Polícia
Federal.“O caso, juridicamente, é simples, esse inquérito não tem como prosseguir”, declarou na semana passada, dois dias antes de o parlamentar renunciar à sigla e evitar sua expulsão do partido. “Há que se investigar o Ministério Público que durante três anos o gravou ilegalmente e há que se investigar por que o juiz determinou que ele fosse gravado durante três anos.”
A inconstitucionalidade dos grampos telefônicos por longos períodos foi tópico de palestra ministrada por Antônio Carlos a estudantes do curso de direito do Unipam, em 2010 (“O advogado criminal no Estado de Direito”), quando discorreu mais sobre os telefonemas que recebe de chefes e ministros de Estado, dentre outras autoridades, do que propriamente sobre escutas clandestinas.
Talentoso, imoral e exibicionista, Antônio Carlos se gaba de pagar quarenta mil reais em um único jantar e de ter roupa de cama personalizada com suas iniciais no Emiliano, referência em “hospitalidade de luxo". Todas as suas causas têm origem em sua rede de influência.
Abaixo, trechos da reportagem de Daniela Pinheiro.
*
Ao longo dos anos, de fato, Kakay desenvolveu um acurado canal de
comunicação com a mídia. Fala com colunistas, repórteres, diretores de
redação e patrões, a quem municia com informações que interessam a eles e
a si próprio. Quando precisa se posicionar publicamente sobre um caso,
pede que o entrevistem ou que publiquem seus artigos, no que quase
sempre é atendido.
* Em três
semanas, Kakay publicara três artigos (na Folha, n’O Globo e n’O Estado
de S. Paulo), participara de quatro programas de televisão, falara no
Jornal Nacional, aparecera na capa de um jornal da OAB.
*
Recentemente, Kakay comprou um cemitério em Belo Horizonte. Explicou
por quê: “É o melhor investimento para retorno imobiliário hoje. Você
compra em alqueire e vende a terra em palmos.” Um amigo arrisca que seu
patrimônio ultrapasse 100 milhões de reais.
*
Com uma porta de quase 7 metros de altura em madeira de demolição, e a
enorme escultura de um rinoceronte na entrada, a casa de Kakay tem 1 500
metros quadrados e três pavimentos. Uma vez, um amigo paulista que o
visitava ficou encantado com o clube que admirava da varanda. “Clube? É
meu quintal!”, respondeu Kakay. Quando a área, no Lago Sul, era um
terreno baldio, ele soube de antemão que o projeto de uma ponte vizinha
fora aprovado. Arrematou o terreno por uma pechincha.
*
Além da casa em Brasília, tem um apartamento de 400 metros quadrados de
frente para o mar, em Ipanema, outros imóveis e participação em várias
empresas. Dentre elas, há uma firma especializada na instalação de
lombadas eletrônicas e radares de trânsito – com contratos com o governo
federal – e a Divitex, responsável pela construção de um loteamento no
sítio do Pericumã, em Brasília. Seu sócio na empresa, José Sarney,
costumava passar ali os finais de semana.
*
No primeiro governo Lula, o banqueiro Daniel Dantas envolveu-se numa
briga de morte pelo naco mais lucrativo da telefonia, chegando a
contratar a empresa de espionagem Kroll. A certa altura, chamou Kakay. A
Polícia Federal fez uma batida no escritório do banqueiro e descobriu
uma nota fiscal de 8 milhões de reais, relativos aos honorários do
advogado. Outros dois advogados de Dantas no caso ganharam,
respectivamente, 1 milhão e 3 milhões de reais. Especulou-se que Kakay
encaminharia o excedente da remuneração que recebeu à cúpula do PT.
Clique AQUI para conferir o texto na íntegra.________________________________________________________________________
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