quarta-feira, 15 de julho de 2020

O que pensa e o que (não) faz a elite

Certos espaços democráticos da comunidade não estão interessados em quem dá voz às agruras dos pobres



FLAVIO SOUZA, O CORAJOSO
Lívio Soares
 
 
Em nome da clareza, é necessário eu dizer que trabalhei no Sistema Clube de Rádio por quinze anos. A relação entre mim e eles era estritamente profissional. Nunca me envolvi com campanhas políticas das quais participava o dono da emissora, nunca pedi a ninguém que votasse nele nem nunca votei nele, mesmo quando ele reunia os funcionários pedindo apoio para as candidaturas dele; além do mais, sei que ele e que a família dele não precisam do meu voto. Tanto é assim que têm longa carreira política sem meu apoio. Também nunca votei no outro grupo político local; nenhum dos grupos faz o que considero política; obviamente, sei que esse outro pessoal também não precisa de voto meu. Isso não que dizer que o dono do Sistema Clube de Rádio estava errado em pedir que os funcionários da emissora votassem nele. Comento isso para ilustrar que minha convivência com a direção da rádio sempre ficou no campo profissional. Fiz meu trabalho da melhor maneira que pude (o que não quer dizer que eles gostaram do que fiz); não estando mais na emissora, não fiquei devendo favores de nenhuma natureza para eles (pois nunca os pedi) nem eles ficaram me devendo favores de nenhuma natureza (pois nunca me pediram).

Só hoje, no começo da noite, fiquei sabendo do episódio ocorrido com o Flavio Sousa, locutor, repórter e redator do Sistema Clube de Rádio. Num programa da emissora, Flavio criticou a elite dos Patos de Minas. Por causa disso, ele não mais fará comentários na atração, dedicada, segundo o que me foi informado, a debates. Enquanto escrevo esta nota, o locutor segue trabalhando na empresa como repórter e como leitor de notícia.

Nada é surpreendente nessa história. Nos primeiros contatos que tive com o Flavio, ele havia me procurado para que eu ministrasse para ele aulas, acho, de português. Na época, ele era estudante de jornalismo ou estava prestes a começar o curso. Pensei comigo: “Esse tá começando bem, pois está preocupado com o bem falar e o bem escrever”. Essas aulas duraram pouco tempo, o que não fez com que eu perdesse contato com o Flavio. Não acompanho o trabalho dele no rádio por eu não mais escutar nenhuma das emissoras locais há um bom tempo. Do Flavio, acompanho o que ele tem escrito, lendo o que é publicado em redes sociais, seja uma opinião, seja um artigo, seja um conto, seja um poema. Flavio, além de radialista, dedica-se a escrever ficção, tendo já publicado livro.

A história entre ele, o Sistema Clube de Rádio e a elite local não surpreende porque a opinião do Flavio, bem sei, foi expressão do pensamento dele. Ele não estava fazendo um personagem que se dedica a ter audiência a qualquer custo. O que Flavio disse diante do microfone da emissora é expressão do que ele é, não uma expressão de atitude sensacionalista. A reação da rádio não surpreende porque a mentalidade dos que a dirigem é expressão do que pensa a elite local, do que pensa a elite brasileira, uma elite conservadora que deseja manter às custas dos pobres os privilégios (não merecidos) que vêm de séculos (a quem se interessar pelo tema, indico Jessé Souza ou Darcy Ribeiro).

Flavio não disse nada demais. Contudo, o que ele disse é gigantescamente necessário. Ele fez um contraponto ao discurso da elite. Ora, ela, a elite, já tem todos os espaços para apresentar o que pensa e o que (não) faz. Os pobres não têm recursos nem estrutura técnica para que a voz deles chegue a mais pessoas. A dor deles não aparece nos jornais, valendo-me eu de paráfrase de canção do Chico Buarque, o qual, aliás, não raro, é execrado pela elite que o Flavio criticou.

A direção da rádio divulgou nota, também reveladora e nada surpreendente. A primeira coisa que chama a atenção na nota que divulgaram é o cuidado que eles não tiveram com o português (cuidado esse que o Flavio tem). No que a emissora divulgou há coisas como “houveram excessos”. Contudo, o português incorreto é o problema menor da nota; ela é sintoma do conservadorismo da elite brasileira, que, travestida de bom-mocismo, apresenta o que chama de pluralidade de ideias, quando tal pluralidade não há. Esse, sim, é o grande problema da nota que a rádio divulgou. (Os problemas de português seriam resolvidos se um revisor tivesse conferido o texto.)

Diz a nota deles sobre o comentário que o Flavio fizera: “(...) A direção da Rádio Clube reitera que não se trata de opinião da emissora, tratando-se de livre manifestação do pensamento do profissional, sempre permitida por essa empresa em toda sua história, e em especial neste programa, criado para dar espaço a todas as vertentes de pensamentos. Entretanto entendemos que houveram [sic] excessos e palavras mal colocadas, que acabaram ofendendo pessoas, principalmente ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local, a quem a Rádio Clube pede desculpas”.

A emissora diz haver nos microfones dela “espaço a todas as vertentes de pensamentos”, mas alega ter havido “excessos e palavras mal colocadas” por parte do Flavio. Em essência, o que Flavio disse foi que a elite não está nem aí se os pobres não podem pagar por um exame de detecção da covid-19 e que a elite não dá a mínima se os pobres não podem se dar o luxo de se refugiarem contra a epidemia em espaços milionários. Por fim, Flavio disse que uma elite burra pode servir de “púlpito para candidato burro e despreparado”.

A nota da emissora menciona que o discurso do Flavio ofendeu pessoas “ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”. Não bastassem o bairrismo e a pieguice do trecho, o que Flavio disse não é agressão pessoal; em nenhum momento ele faz referência a nome(s). Ele diz que uma elite burra cai em balela de candidato burro. Ora, pobre burro também cai em balela de candidato burro. Os que se sentiram ofendidos poderiam alegar, talvez, que o Flavio só criticou a elite burra, nada tendo sido dito sobre os pobres burros. Que a emissora, então, apresentasse um contraponto à opinião do Flavio. Não é isso o que ocorreu. Em vez de apresentar o contraponto, preferiram calar as opiniões do jornalista sob o argumento de que ele foi ofensivo.

Ainda sobre a “livre manifestação do pensamento” alegada pela emissora: quando lá trabalhei, o dono do meio de comunicação era candidato a prefeito de Patos de Minas. Ele concederia uma coletiva para jornais, rádios e TVs. Fui escalado para fazer pergunta em nome da Rádio Clube FM (salvo engano, hoje é chamada apenas de 99FM, mas posso estar enganado quanto a isso). Faltando mais ou menos uma hora para o início da coletiva (não lembro mais onde ela ocorreu), um dos funcionários do Sistema Clube de Rádio, envolvido com a campanha do político e superior a mim na hierarquia da firma, pediu-me que eu mostrasse a ele a pergunta que eu faria durante a coletiva. Depois de a ler, ele disse: “Pergunta outra coisa”. A pergunta era: “Já foi dito que os políticos poderiam ser melhores se mantivessem o hábito da leitura. O que o senhor tem lido?”.

A pergunta era simples; ademais, a leitura ou a falta dela, em si mesmas, nada garantem. O sujeito pode ser leitor e ser um péssimo político, bem como pode nada ler e ser um excelente político. Ainda assim, fui “orientado” a não fazer a pergunta que eu preparara. Não a fiz. Não me recordo do que perguntei, mas como não me remanejaram (o que fizeram com o Flavio), devo ter perguntado algo protocolar, algo que não ofendesse pessoas “ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”.

A opinião do Flavio não foi ofensiva; foi uma opinião sensata. Sobretudo, ele teve uma admirável coragem, por ter dito o que disse no espaço em que estava. Uma rádio pode adotar a política que quiser, pode manifestar o espectro ideológico que quiser. Sei disso. O que critico é a postura de quem se declara “um espaço democrático da comunidade”. É democrático até o momento em que verdades sobre a elite não sejam ditas. Certos espaços democráticos da comunidade não estão interessados em quem dá voz às agruras dos pobres. 


Fonte: http://liviosoares.blogspot.com/2020/07/flavio-sousa-o-corajoso.html

segunda-feira, 15 de junho de 2020

CHARGE





INTEGRANTES DE MOVIMENTO BOLSONARISTA SÃO PRESOS EM OPERAÇÃO DA PF
Revista Diga, 15/6

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Edificando o lar

"A sabedoria já edificou a sua casa, já lavrou as suas sete colunas" (Provérbios 9:1)





O pastor Josué diz que o machado é um símbolo perfeito do matrimônio: separados, o metal e o madeiro têm muito pouca utilidade, mas juntos produzem uma ferramenta poderosa! Do mesmo modo, o casamento é a arte de unir duas pessoas de passado e natureza totalmente diferentes, visando um propósito maior, que é a família. Assista e compartilhe.


Feliz dia dos namorados a todos os casais!

domingo, 31 de maio de 2020

sábado, 23 de maio de 2020

Brasília, 22/4/2020




Assista, na integralidade, ao polêmico vídeo liberado pelo STF nos autos do inquérito 4.831/DF. Clique aqui para ler a decisão do Ministro Celso de Mello. Ele deixa a magistratura em setembro.




sexta-feira, 15 de maio de 2020

Caiu...

 Jornal Daqui (13/5/20)


quarta-feira, 29 de abril de 2020

E o monstro é...

João Montanaro
Folha de S.Paulo (27/4/20)

domingo, 18 de agosto de 2019

O projeto de Moro e o 'mundo real'

O aparente enfraquecimento de Moro coincide com o desgaste causado pela divulgação de mensagens que sugerem que o hoje ministro, quando era juiz, teria orientado a força-tarefa da Operação Lava Jato.
Notas e Informações, O Estado de S.Paulo
18 de agosto de 2019

EDITORIAL

O noticiário dos últimos dias informa que o ministro da Justiça, Sergio Moro, vem sofrendo seguidos reveses no governo, algo notável em se tratando de alguém que um dia foi qualificado como “superministro” pelo presidente Jair Bolsonaro. O desgaste não tem se limitado à dificuldade do ministro Moro em obter apoio parlamentar a seu pacote de leis contra a corrupção. Mais recentemente, o próprio presidente Bolsonaro tratou de expor a fragilidade do ministro, ao dizer que o pacote de Moro não é prioridade do governo. “Entendo a angústia dele em querer que o projeto dele vá em frente, mas temos que diminuir o desemprego, fazer o Brasil andar, abrir nosso comércio”, disse Bolsonaro.

O aparente enfraquecimento de Moro coincide com o desgaste causado pela divulgação de mensagens que sugerem que o hoje ministro, quando era juiz responsável pelos casos da Lava Jato, pode ter orientado o trabalho dos procuradores da República envolvidos na operação, o que configuraria no mínimo grave falta ética. Na época em que o caso veio à luz, defendemos neste espaço que o ministro Moro deveria renunciar, pois sua permanência se tornara obviamente insustentável. A rigor, não deveria nem ter aceitado o cargo, pois sua ida para o governo poderia ser entendida como inaceitável confusão entre a Lava Jato e o Ministério da Justiça – isto é, entre uma operação investigativa e judicial e um órgão político.

Foi justamente isso o que aconteceu. O ministro Moro decerto julgou que poderia continuar no Ministério da Justiça o que havia iniciado na Lava Jato. Foi o que ele mesmo disse ao aceitar o convite de Bolsonaro. Segundo Moro, sua ida para o Ministério da Justiça, “na prática, significa consolidar os avanços contra o crime e a corrupção dos últimos anos e afastar riscos de retrocessos por um bem maior”. Em outra ocasião, foi mais coloquial: disse que trocara a toga de juiz pela caneta de ministro porque havia se cansado de “tomar bola nas costas”, isto é, de ver suas decisões como juiz terem efeito limitado contra a corrupção. “Meu trabalho no Judiciário era relevante, mas tudo aquilo poderia se perder se não impulsionasse reformas maiores, que eu não poderia fazer como juiz”, afirmou.

Aparentemente, o ministro Moro continua a tomar bola nas costas. A despeito de ainda ser tratado como o grande astro do time de Bolsonaro, Moro tem levado muitos dribles no Congresso e dentro do governo, até mesmo do presidente. A esta altura, já deve ter ficado claro para o ministro e para alguns dos próceres da Lava Jato que o acalentado projeto messiânico de transformar a operação em política de Estado e reformar a política nacional, vista por eles como irremediavelmente corrupta, esbarrou no mundo real – aquele em que nem os campeões da Lava Jato podem tudo.

Como sempre, o desgaste de Sergio Moro foi atribuído pelo coordenador da força-tarefa da Lava Jato, o procurador da República Deltan Dallagnol, a uma contraofensiva dos corruptos. “A corrupção reage”, disse Dallagnol à revista Época. “Existe um oportunismo de buscar qualquer brecha para atacar a operação, distorcer fatos e atacar os personagens que acabaram tendo protagonismo na operação. E o objetivo disso, a meu ver, não é atacar a pessoa do Deltan, a pessoa do Moro. É atacar o caso, a Lava Jato”, disse o procurador.

Para Dallagnol, “talvez a ilusão tenha sido em algum momento acreditar que a Justiça iria se sobrepor ao sistema político”. Ou seja, o chefe da Lava Jato sugere que a operação anticorrupção não pode ser submetida ao escrutínio do “sistema político”. Convém lembrar, contudo, que esse sistema é composto por eleitos pelo voto direto. Entender que esses representantes devem aceitar sem discussão o que emana da Lava Jato trai um inaceitável pendor autoritário.

A sociedade brasileira não pode prescindir de órgão de combate ao crime nem de estruturas que obriguem os homens públicos a viver dentro da lei. Mas isso não pode ser feito, por sua vez, ao arrepio da lei, ou de “inovações” que signifiquem a destruição, por simples funcionários públicos, do sistema político que é a base da organização estatal.

À sua maneira, Bolsonaro explicou os limites da política a seu ministro, ao pedir que ele desse “uma segurada” no seu projeto anticorrupção e ao dizer que “o ministro Moro é da Justiça, mas ele não tem poder de... não julga mais ninguém”.

Bola nas costas

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Última apresentação do Rei



"Unchained Melody" (Righteous Brothers, 1955)

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Mensalão: 10 ANOS

A cada nova descoberta de outros esquemas comprova-se que nada pode ser tomado de forma isolada. Todos esses escândalos são, na verdade, um só - o escândalo de uma quadrilha que transformou partidos políticos em máquinas para exaurir os recursos do Estado
 
 
O Estado de S. Paulo

 
Editorial publicado em 8/6/2015

O mensalão é apenas uma parte - e uma das menores, hoje se sabe - do plano de assalto ao Estado protagonizado pelo condomínio que o lulopetismo instalou no poder em 2003. Assim, dez anos passados daquele famigerado escândalo, que mobilizou o País por vários meses e terminou com a prisão de um punhado de réus poderosos, fica muito claro que o episódio não passou de um esquema marginal dentro de uma sofisticada estrutura montada para rapinar bens públicos, em escala nunca vista na história brasileira.


Portanto, pouco há a comemorar, pois, com o mensalão, se foi rompida parcialmente a lógica da impunidade, nenhuma página foi, de fato, virada. A cada nova descoberta das autoridades policiais e judiciais no caso do petrolão e de outros esquemas comprova-se que nada, nessas investigações, pode ser tomado de forma isolada. Todos esses escândalos são, na verdade, um só - o escândalo de uma quadrilha que transformou partidos políticos em máquinas para exaurir os recursos do Estado de diversas maneiras, em favor de projetos pessoais e de poder de seus dirigentes.

O mensalão chegou ao conhecimento público com esse nome em junho de 2005, graças a acusações feitas na ocasião pelo então deputado petebista Roberto Jefferson. Segundo o parlamentar, o então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava mesadas de R$ 30 mil a deputados do PL e do PP em troca de apoio no Congresso.
Como costumam fazer sempre que são acuados por denúncias, os petistas reagiram insultando a inteligência dos brasileiros. Em nota oficial, garantiram que o relacionamento do PT com os demais partidos da base aliada se assentava “em pressupostos políticos e programáticos”, descartando qualquer forma de corrupção.
Com o passar do tempo e o surgimento de evidências de um crime muito maior do que o denunciado por Jefferson, a narrativa petista foi mudando. Primeiro, quando sua reeleição parecia sob ameaça, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, se disse “indignado” e afirmou que o PT precisava “pedir desculpas”. Nessa mesma toada, Delúbio admitiu que as campanhas eleitorais do partido usaram “recursos não contabilizados”, mas os petistas, Lula inclusive, atribuíram essa prática a um mero esquema de caixa 2, do qual, segundo essa versão, todos os partidos lançam mão.

Quando ficou evidente que o Brasil estava diante de “um dos episódios mais vergonhosos da história política de nosso país”, como o qualificou o ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, em seu histórico voto pela condenação desse “grupo de delinquentes que degradou a atividade política”, os petistas passaram a se dizer vítimas de um “julgamento de exceção”.

Desde então, os documentos produzidos pelo partido para reagir às seguidas denúncias de malfeitos - como os petistas apelidaram crimes capitulados em lei - respeitaram a gramática da vitimização. A palavra “golpe” passou a ser usada profusamente pelos dirigentes petistas, inclusive, e em mais de uma ocasião, pela presidente da República, Dilma Rousseff. Junte-se a isso a cantilena de que os escândalos só vêm à luz porque o governo petista permite que sejam investigados, como “nunca antes na história deste país”, e tem-se uma impostura completa.

Digam o que disserem os líderes petistas, porém, vale o que está nos autos do mensalão - e lá está claro que o PT transformou os ganhos oriundos da corrupção na própria razão de ser de sua prática política. Os escândalos depois desvendados são consequência dessa opção.

Nos dez anos do mensalão, e atordoado diante da constatação de que ainda estamos longe de conhecer a totalidade dos malfeitos cometidos nesse período, o País já percebeu que os governos lulopetistas são verdadeiras caixas-pretas, a guardar sombrios segredos, escondidos pela blindagem do populismo e da demagogia, que transforma os críticos do modus operandi petista em inimigos dos pobres. Nem o mensalão nem o petrolão são capazes de resumir essa história de corrupção e desfaçatez da qual, infelizmente, temos apenas um pálido vislumbre.

O escândalo é um só


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O peso dos afetos e as razões de Estado

As relações entre países devem ser pautadas por interesses, e não por supostas relações de amizade, como a que Bolsonaro supõe haver entre sua família e a do presidente dos Estados Unidos


Notas & Informações


22 de julho de 2019 | O Estado de S.Paulo
A esta altura, está mais do que evidente que o presidente Jair Bolsonaro não sabe agir com a impessoalidade que há de caracterizar o exercício da Presidência da República. Em apenas 200 dias de governo, houve exemplos em excesso do peso que os afetos e as hostilidades particulares do presidente têm sobre decisões de Estado, que, a rigor, não deveriam ser pautadas pela emoção.
Em defesa do presidente, diga-se que não transparece deliberada má-fé na mixórdia que ele faz entre os assuntos de Estado e o limitado universo de suas paixões. Bolsonaro opera sob o que o historiador Sérgio Buarque de Holanda chamou de “ética de fundo emotivo”. Os eventuais reparos feitos a seus atos e decisões como chefe de Estado e de governo são tomados pelo presidente como ofensa pessoal, como mera incapacidade do outro de perceber os bons eflúvios de suas nobres intenções.
Desde que anunciou sua intenção de indicar um filho para o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos – o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) –, não houve um só dia em que o presidente não tenha defendido, de alguma forma, o nome do “03” para um dos postos mais críticos de nossa diplomacia. Tivesse o olhar de um estadista, seria mais fácil para o presidente compreender o quão estapafúrdia é a escolha, por qualquer ângulo que se a analise. Porém, Jair Bolsonaro não vê sua escolha com olhos de estadista, mas com olhos de pai. E é como pai que reage às críticas.
Primeiro, a fim de justificar o injustificável, não se sensibilizou com os argumentos contrários à indicação e viu nas próprias críticas a razão para manter firme sua posição. “Se (Eduardo Bolsonaro está sendo criticado, é sinal de que é a pessoa adequada (para ser o embaixador brasileiro em Washington)”, disse o presidente na tribuna da Câmara dos Deputados na segunda-feira passada.
Na quinta-feira, abrindo mão do pudor, Jair Bolsonaro voltou a defender o filho em termos ainda mais claros. “Pretendo beneficiar filho meu, sim. Se eu puder dar um filé mignon para o meu filho, eu dou, mas não tem nada a ver com filé mignon essa história (da embaixada nos Estados Unidos). É aprofundar relacionamento com a maior potência do mundo”, disse. Noves fora o pitoresco da declaração, saliente-se que ela revela duplamente onas decisões de Jair Bolsonaro. Em especial no que concerne às relações entre países, que devem ser pautadas por interesses, e não por supostas relações de amizade, como a que Bolsonaro supõe haver entre sua família e a do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Dos mais relevantes temas para o País, como a indicação de um embaixador, às troças com autoridades, tudo parece ser tratado pelo presidente da República fora da dimensão da impessoalidade do cargo. Não se quer dizer com isso que o comportamento de Bolsonaro deva ser marcado pela frieza e pela sisudez. Roga-se apenas que ao tratar de assuntos de Estado o presidente faça um esforço para contrabalançar suas emoções com o interesse nacional. Ora coincidem, ora não. De Jair Bolsonaro, dado o cargo que ocupa, é esperado discernimento.
Nada parece escapar do crivo afetivo do presidente. Jair Bolsonaro é capaz de atacar ao mesmo tempo tanto prosaicas mudanças no funcionamento de aplicativos como o Instagram como o conteúdo dos filmes produzidos com recursos da Ancine. No primeiro caso, é tema do qual o presidente nem sequer deveria se ocupar. No segundo, sim, mas por razões de outra natureza, objetiva. Afinal, trata-se do emprego de recursos públicos, e não de seu gosto por esta ou aquela produção.
A preponderância dos afetos sobre a razão obnubila a visão que o presidente deve ter do papel das instituições.
Há cerca de três meses, Jair Bolsonaro afirmou que “não nasceu para ser presidente”. Se não nasceu para o cargo, é verdade que optou por exercê-lo. E foi vitorioso no intento. É justo que os brasileiros, então, esperem que a investidura na Presidência sirva de aprendizado diário, caso Jair Bolsonaro tenha a humildade de tomar as críticas pelo que elas são – críticas objetivas, e não ofensas à sua honra, à sua dignidade.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Morogate




Vejo as pegadas da Lava Jato e agregados até na conjugação do verbo “haver”, a maior vítima desses tempos depois do devido processo legal.



Reinaldo Azevedo, jornalista e escritor (hoje, na Folha)

domingo, 19 de maio de 2019

Charge

Jornal Daqui (S. Gotardo/MG)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Calvin

  

By Bill Watterson

sábado, 13 de abril de 2019

Snoopy


By C. M. Schulz

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A primeira impressão



Não havia nada que a professora Shari Wilson desejasse mais do que uma noite selvagem com o vizinho do andar de baixo, o jornalista Luke Lawson...


Shari Wilson queria dar um beijo no carteiro atrapalhado que entregava diariamente a correspondência no antigo edifício de um bairro de Seattle, onde ela morava. Ele havia confundido pacotes mais uma vez.
Entre as cartas endereçadas a ela, do apartamento 325, havia um envelope pardo para "L. Lawson", do apartamento 235. Agora, Shari tinha uma nova desculpa para ver o gatão do Luke Lawson. Abraçou a encomenda, como uma adolescente apaixonada.
Bem, na verdade, era uma professora apaixonada. O vizinho do andar de baixo a fazia estremecer. Devia ser aquela combinação infalível do sorriso irresistível com o corpo escultural e os olhos verdes brilhantes e langorosos que a deixavam sem fôlego.
Havia muitos meses que o carteiro confundia os números de seus apartamentos e entregava-lhe correspondência de Luke. Em todas as vezes, percebera que as cartas, sem exceção, eram endereçadas apenas a ele. Também não notou qualquer sinal de mulher nas ocasiões em que tinha ido ao apartamento dele entregar as cartas. Parecia lógico deduzir que o rapaz era solteiro.
Da mesma forma que ela.
Só de pensar em revê-lo, Shari sentiu um calorão passar pelo corpo. O destino, personificado na figura do carteiro, os havia unido repetidas vezes e a atração física fora imediata e mútua, pensou. Nas últimas vezes, Luke a recebera na porta cheio de entusiasmo e com um olhar tão sedutor e penetrante que dava a impressão de que os dois tinham acabado de fazer amor. Ah, o poder que aqueles olhos exerciam sobre uma mulher!
Então, por que, apesar dos olhares provocadores que trocavam nas rápidas e esporádicas visitas, Luke nunca tentava algo mais ousado? Ou fazia alguma tentativa para conhecê-la melhor?
Shari mordeu os lábios, ao passar direto pelo elevador e subir as escadas até o apartamento dele. Será que ele era tímido ou estava inseguro quanto aos sentimentos dela ou suspeitava que ela não fosse solteira?
Talvez fosse o momento de tomar a iniciativa e acabar com qualquer dúvida que pudesse existir. Tinha que deixar claro que estava completamente desimpedida e caidinha por ele.
A única forma de tirar aquela história a limpo seria convidando Luke para sair. Nada muito íntimo, um cineminha e depois uma pizza ou algo do gênero. Apenas um encontro sem compromisso para que se conhecessem melhor.
Ela iria até a casa dele como quem não quer nada, só para entregar o envelope extraviado. Aproveitaria e diria: "Então, estou indo comer alguma coisa na rua, quer me fazer companhia?"

 * * *
Era isso mesmo que ira fazer! Algo bem casual. Se Luke recusasse o convite, pelo menos, ela saberia onde estava pisando e acabaria de vez com as fantasias adolescentes que a consumiam fazia tempo. Bem, as fantasias, na verdade, não tinham nada de adolescentes ou inocentes.
Suspirou fundo e decidiu levar seu plano adiante. Responderia à altura as mensagens eróticas que ele lhe enviara com os olhos até agora. Iria convidá-lo para sair.
E seria naquele dia à noite.
Uma olhada de relance no espelho a lembrou de que dar aulas para um bando de alunos do ensino médio não era bem uma atividade relaxante. Não poderia ir a lugar nenhum sem antes tomar uma chuveirada.
Depois de se secar, escovou os dentes, penteou os cabelos e aplicou uma leve maquiagem no rosto. Vestiu um jeans, mas mudou de idéia. Estava cansada de só usar jeans.
Uma saia sensual e elegante saiu de dentro do armário direto para os seus braços. Adicionou uma blusa tomara-que-caia lilás ao conjunto, brincos descontraídos, sandálias rasteiras e pronto. Não queria que ele pensasse que tinha se arrumado para a ocasião. Não queria que percebesse o óbvio.
Apanhou o envelope e já estava de saída quando viu uma mancha na saia. Voltou ao banheiro. Deixou o envelope na beirada da pia e... droga! Por causa da pressa, o sabonete acabou caindo no chão. Agachada, achou o bendito sabonete e se levantou. E perdeu o ar. Ao subir, deixou o envelope pardo cair na pia, molhando parte do pacote, mas não o suficiente para danificar o conteúdo. Parecia um livro.
Era melhor ir rapidamente ao apartamento de Luke e entregar a encomenda antes que a água encharcasse a parte de dentro. Limparia a saia depois.
Apanhou as chaves, a jaqueta de couro, o embrulho afogado e desceu correndo as escadas para o andar de baixo.
Em um minuto, estava em frente à porta dele, ofegante. Respirou fundo, memorizou o convite que iria fazer e bateu na porta.
Silêncio.
Não lhe havia passado pela cabeça que Luke pudesse não estar em casa. Sabia pelas conversas breves que era jornalista. Já havia inclusive lido uma reportagem dele no jornal local. Foi apenas cogitar a possibilidade de que ele não estava para ouvir o barulho do trinco da porta se abrindo.
E então surgiu Luke Lawson, com seu olhar erótico e irresistível, como sempre. Ele era, sem dúvida, o homem mais sexy que já havia visto. Não importava quantas vezes o visse, aquela expressão facial sempre a deixava com as pernas bambas. E era o que acontecia naquele instante. O coração estava disparado, bombeando sangue para todas as zonas erógenas, possíveis e imagináveis do corpo de Shari.
Não era apenas o olhar magnético dele, insinuando intimidades que nunca haviam compartilhado, mas que poderiam, facilmente, ter. Também não era só a covinha no queixo ou o cabelo preto despenteado que a faziam se lembrar das manhãs de sábado preguiçosas. Era, concluiu, a forma tão perfeita como todos aqueles elementos se combinavam.
Os lábios dele formaram um lindo sorriso ao vê-la com o pacote na mão.
— Não vai me dizer que ele errou outra vez? — Não parecia irritado com a constatação, mas sim exultante.
Shari tentou conter o risinho ao entregar o envelope.
— Pois é, outra vez.
Ela sabia que tinha algo a dizer, mas o quê? Tudo o que havia planejado e memorizado se esfumaçara na memória. Apenas o olhava fascinada.
Luke a observou dos pés a cabeça, fazendo-a se sentir nua.
— Nossa, você está demais. Vai a algum lugar especial? Ah, era isso. Voltou a raciocinar. Ia convidá-lo para sair.
— Não, nada especial. Na verdade...
Não conseguiu ir adiante. O som de papel molhado rasgando-se, seguido de algo caindo no chão, a interrompeu.
O livro havia caído pela extremidade do envelope. A capa dura, virada para cima. O título, com letras garrafais em néon, poderia ser lido a metros de distância: Sexo para idiotas completos um guia prático.
  * * *
 
Não podia acreditar no que viam seus olhos. Suas bochechas logo ficaram vermelhas. Não podia ser verdade. Se Luke encomendava um livro daquele gênero, então... significava que... não!
Voltou a olhar o título tentando se convencer de que, na verdade, o que havia lido tinha sido Guia para trabalhos em madeira faça você mesmo ou Estratégias financeiras para iniciantes. Porém, as palavras permaneciam inalteradas. Era realmente um guia prático para homens que não tinham idéia do que era sexo. Pelo menos, na prática.
Que decepção! Totalmente constrangida, não sabia se pela situação ou por ele, o fato era que estava vermelha como um pimentão.
Depois de alguns minutos, que mais pareceram horas intermináveis, Shari tomou coragem e o encarou. Ele segurava o envelope, meio sem jeito, as bochechas levemente coradas.
— Me desculpa — falou em seguida. — A culpa foi minha... deixei o envelope cair na pia. Esqueci de avisar... estava lavando a louça e deixei cair... — Ai, era ela que agora falava como uma idiota completa. Pressionou os lábios para que parasse de gaguejar.
— Acho que... — Luke pigarreou encabulado. — Que se disser que encomendei esse livro para um amigo você não vai acreditar, não é?
— Mas a encomenda está no seu nome — respondeu ela, sentindo-se péssima um segundo depois de ter feito a observação.
Ele suspirou.
— É verdade.
O desconforto aumentou ainda mais entre ela, ali, de pé no corredor do edifício e Luke, parado na porta. Ela estava mesmo decepcionada. Apenas não entendia por quê, já que mal o conhecia e muito menos sabia se algum dia rolaria algo entre os dois. Bem, pelo menos, houvera até o momento uma ponta de esperança alimentada por ambos.
Será que tinha deixado a imaginação subir-lhe à cabeça? Em suas fantasias, ele era um garanhão experiente e sensual. Características improváveis para um homem que precisava de um guia sobre sexo.
Queria sair correndo dali e esquecer o incidente.
— Bem — forçou um sorriso. — Está na minha hora. — Cruzou os braços, mordeu os lábios e torceu para que tivesse soado convincente.
— Claro. Obrigado pela... encomenda.
— Imagina! — Deu um aceno tímido e se virou de imediato, rumo às escadas.
Luke ficou olhando a vizinha sexy correndo para as escadas e ficou se perguntando como teria terminado aquele dia se o livro não tivesse caído no chão, no momento mais inoportuno — e com o título virado para cima.
Balançou a cabeça, ainda desnorteado com as peripécias do destino e do serviço dos correios, e fechou a porta. Estudou o livro em sua mão, olhando o título chamativo e demasiadamente óbvio: Sexo para idiotas completos: um guia prático, por Lance Flagstaff.
— Lance, compadre, não podia ter escolhido uma hora melhor?
Ficou olhando para o envelope molhado e destruído. Se tivesse esperado alguns minutos mais para arrebentar...

* * *

Seu instinto masculino lhe dizia que teria tido um programa para a noite se Lance não tivesse resolvido aparecer de repente.
Droga! O último artigo para a revista masculina já estava pronto e, surpreendentemente, não havia nenhum trabalho por fazer. Adoraria poder dar uma saída naquela noite e a única pessoa que tinha em mente como companhia era a vizinha do andar de cima. Shari Wilson, apartamento 325 — uma recompensa que cairia como uma luva depois de uma maratona de artigos para os principais veículos da cidade.
Luke grunhiu de frustração ao se dar conta de que o encontro tão esperado com Shari não aconteceria tão cedo. Graças ao Lance.
Havia alguns lugares para ir naquela noite, mas não estava animado. Foi até a cozinha e abriu a geladeira. Apanhou uma cerveja e voltou para o sofá, a fim de folhear seu novo livro.
— Capítulo um. "A primeira impressão". — Luke deu uma risada irônica, lembrando-se da expressão no rosto de Shari ao ler o título do livro. Ele havia causado uma impressão da qual ela se lembraria para sempre. Infelizmente, não era aquilo que gostaria.que tivesse acontecido.
Por certo, não queria ser vista com um cara que precisa de uma manual para satisfazer uma garota na cama.
Por que não havia contado a verdade?
Eu escrevi o maldito livro.


 
Trecho de "Manual da conquista"
by Nancy Warren