segunda-feira, 2 de junho de 2008

Como se fosse ontem


Alessandra Beber estava em Mogi das Cruzes vendo TV quando de repente toca a vinheta do plantão da Globo. “Ih, alguém morreu!”, foi o que pensou. Em São Paulo, Thomaz Magalhães havia trabalhado até altas horas e acorda com um telefonema de sua filha. A voz dela estava estranha. Assustado, o jornalista já foi perguntando o que era, onde ela estava. Estava tudo bem, tranqüilizou-o, mas era para o pai ligar a TV. Em outra parte da capital, a estudante Janaina Viegas seguia no ônibus que a levaria pra casa quando começou a passar a notícia no rádio e um monte de pirralhinhos da quarta série começou a dizer que o mundo ia acabar.

Longe dali, na cidade de Caguas (Porto Rico), Victor Vega ouve um programa de análise política (que seria extinto logo depois) quando o locutor anuncia: "Vamos a interrumpir este programa porque ha empezado LA TERCERA GUERRA MUNDIAL”. A oficina onde Victor trabalhava liberou os funcionários mais cedo para acompanharem de casa as notícias da guerra. Fernando Artmann chegou atrasado ao escritório, em Detroit (EUA), e ao dar "bom dia" a recepcionista respondeu com um "bom por quê?". Ali também ninguém trabalhou nesse dia. Todos correram pra frente dos aparelhos de TV, onde muitos permaneceriam por 14 horas seguidas, assistindo à mesma cena.

Exatamente uma semana antes, Shadrack Diego e seus amigos estavam conversando sobre a última aula de História, sobre todas as guerras que o mundo já passou e no final acabaram falando de política. Chegaram à conclusão que estava tudo muito parado e que logo logo poderia acontecer algo grandioso na história do mundo. “No outro dia eu e meus amigos nos reencontramos”, conta o estudante de Brasília (DF), “e ficamos de cara porque a nossa ‘previsão’, uma semana antes, tinha se tornado realidade”.

Outra aula de historia começaria para a estudante Bela Schor quando a professora entrou na sala contando a calamidade. As aulas foram canceladas. No dia seguinte o colégio estava cheio de carros de polícia. O colégio, situado no Recife (PE), é judeu.

A mineira Sofia Paz estava numa escola norte-americana, em Nova York, quando os professores foram chamados para uma reunião. Meia hora depois, voltaram e levaram todos os estudantes para o gym, onde horas depois ela e seus colegas, um a um, seriam apanhados pelos pais. Nenhum dos estudantes sabia o que estava acontecendo até os pais falarem com eles. Quando Sofia saiu da escola já era tarde. Atravessaram o parque para pegar a irmã. Devido às muitas barreiras impostas pelo estado de sítio, foram pra casa a pé. Muitos colegas só chegaram em casa depois de 7 da noite. Heron Trierveiler também estava na escola. Chegou em casa, em Pomerode (SC), e viu na TV prédios em chamas. Nas primeiras horas o número estimado de vítimas era 30 mil.
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Obedecendo ao telefonema da filha, Thomaz Magalhães ligou a TV e deu de cara com a cena de um avião atravessando um arranha-céu. Ficou acompanhando um tempo e saiu de casa. Na padaria, todos estavam perplexos. “Mas como era de se esperar, havia gente gostando, achando bom”, lamentou. Robson Faria, belo-horizontino hoje residente em Patos, estava no trabalho e quando chegou à sala do chefe (no caso, o próprio pai) a TV estava ligada. Logo que sentou para assistir, rolou a segunda colisão. “Foi ruim pelo número de pessoas que morreram, mas foi bom porque mexeu no ego dos norte-americanos”.

Em Porto Alegre, Jorge Schneider estava conectado ao Terra e ao mesmo tempo assistia à TV quando deram as primeiras chamadas. “Ninguém na internet ou na TV sabia o que estava acontecendo direito”, disse. “Por causa da neblina um avião teria colidido contra o WTC.” O carioca Luiz Carlos da Costa Pereira, porém, não conseguia acessar nenhum site por causa do congestionamento das linhas. Ligou para casa e seu irmão disse que aviões atacaram os prédios mais altos de Nova York. Luiz Carlos pensou: “Que país seria louco o suficiente para enviar CAÇAS para atacar os EUA?”.

Marcelo Peron estava na cantina da sua escola, em Garça (SP), comendo um pastelão de frango com catupiry da dona Sônia. Olhou pra TV e viu o avião estatelar-se contra a torre. Pensou que tinha sido acidente: “Como nego é cego, olha o tamanho do prédio e tem gente que ainda tromba”. Rod Ess e sua mãe ficaram pasmos com aquelas imagens. Mãe e filho olhavam um para o outro, e novamente para o 767 batendo no prédio. Ela é comissária e um dos aviões em que voa é justamente o 767. Ambos sabiam que não podia ser um acidente. Minutos depois, veio o segundo impacto.

A carioca Daniela Morais estava vendo TV com a irmã, em Londres. De repente, começa a passar esta legenda: "o WTC está sendo atacado. Mude para o canal X para ter mais notícias". Elas mudaram para a tal estação e em poucos segundos caiu a segunda torre. Daniela tinha que sair, mas a irmã tentou impedi-la, falando que podiam atacar Londres também, coisa e tal. Mas Daniela foi. No metrô, havia muitos policiais, mais do que o normal. Tinha telão mostrando os acontecimentos, um monte de gente parada, incrédula, e o policiamento dobrado olhando todos os lugares, buscando algo. “Caramba, parecia coisa de cinema!”

“Eu estava dormindo, minha mãe me acordou dizendo que estavam explodindo as torres gêmeas e eu perguntei se a guerra já tinha começado”, diz Fernanda Sonim, de Perdizes (SP). Outra que estava dormindo no momento do ataque era Juliana Blondie. Seu pai a acordou umas dez da manhã e disse: “Minha filha, atacaram o World Trade Center”. Ela respondeu “E eu com isso?” e voltou a dormir.

Um comentário:

Lívio disse...

Parabéns pela crônica, Manoel. Mistura de jornalismo com técnicas de ficção.

O assunto chama a atenção, e seu texto fluente fez jus a ele.